Minha cabeça pesava, e por mais que tentasse, meus olhos se recusaram a abrir totalmente. Vi flashes de luzes fracas, a sombra de alguém ao meu lado. Mas o cansaço venceu, e minhas pálpebras se fecharam novamente.
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Quando finalmente consegui abrir os olhos, aos poucos fui reconhecendo o ambiente. Era um lugar desconhecido. Sentei-me na cama, ainda meio atordoada, e percebi um pano, agora seco, sobre minha testa. No pequeno criado-mudo ao lado, havia um recipiente com água e alguns remédios. Minha cabeça latejava, mas o incômodo maior era tentar lembrar o que tinha acontecido.
Olhei ao redor, tentando entender. A decoração era simples, mas claramente masculina. Aquele era o quarto do Archie? Como eu tinha chegado ali?
Antes que pudesse responder a mim mesma, meu estômago roncou, me trazendo de volta à realidade. Ao passar a mão pela barriga, percebi que estava usando roupas masculinas: uma camisa branca e um short marrom. Reconheci as peças imediatamente. Eram do Archie.
Senti minhas bochechas queimarem, o que só aumentou minha vontade de sumir dali. Quem tinha me trocado? Como isso aconteceu?
A confusão foi interrompida pelo ranger da maçaneta. A porta se abriu, revelando a figura elegante da Sra. Stewart.
— Hanna! Você acordou, minha querida? Oh, graças a Deus! — Ela se aproximou apressada, visivelmente aliviada. — Estávamos tão preocupados com você!
— Estavam? — Perguntei, ainda confusa.
— Claro! — Disse ela, enquanto verificava minha testa com um termômetro. — Pelo menos a febre parece ter cedido. Como você se sente? Não se levante ainda. — Com cuidado, ajudou-me a deitar novamente, ajeitando almofadas nas minhas costas. — Aqui, assim está melhor. Archie vai enlouquecer se souber que você já está tentando ficar de pé.
Meu coração disparou ao ouvir o nome dele.
— Archie? Onde ele está? — Tentei disfarçar, mas meus olhos vasculharam o quarto em busca dele.
A Sra. Stewart percebeu e, com um sorriso caloroso, respondeu:
— Ele precisou sair para resolver algo urgente na empresa, mas deve voltar logo. — Sua voz suave amenizou minha ansiedade. — Você ficou desacordada por quase 24 horas. Quando chegou ontem à noite, encharcada nos braços do Archie, fiquei extremamente preocupada. Por isso nós a trocamos com roupas confortáveis.
— Nós? — Minhas bochechas voltaram a queimar.
— Sim. — Ela parecia finalmente entender meu constrangimento. — Mas não se preocupe, fui eu e uma funcionaria.
Me senti um tanto sem jeito, porém aliviada. Na verdade, o que eu estava pensando, hein?! Que tipo de conversa era essa com a mãe do meu noivo?
— Meu filho implorou para que eu não ligasse para o seu pai...— Ela continuou inabalável. — E chamou um médico para vê-la em casa. Estranhei, mas confio nele o suficiente para não questionar demais. Então não se preocupe, nem seu pai, nem meu marido sabem do ocorrido. Liguei para o Dylan e o convenci de deixar que ficasse aqui até o dia do noivado. Por sorte, ele estava muito ocupado e concordou. Mas lhe digo que o médico que veio, não conseguiu lhe dar um diagnóstico preciso, por isso tem que prometer que fará exames depois.
Engoli em seco. Não era a primeira vez que um episódio como esse acontecia comigo, mas não era comum. Embora eu soubesse que era apenas o meu emocional, entendia por que a Sra. Stewart parecia tão intrigada. Eu iria tentar me cuidar mais no futuro.
— Hanna... — Ela continuou, hesitante. — Ver meu filho tão preocupado, tão abalado, foi algo novo para mim. Ele ficou ao seu lado o tempo todo, esperando você acordar. Nunca o vi assim por ninguém antes. Isso me faz pensar que talvez você não seja apenas alguém recente em sua vida...Quem sabe,...
Antes que ela terminasse, uma voz a interrompeu:
— Hanna!
Olhei para a porta e lá estava ele, Archie. Seu sorriso aliviado aqueceu meu coração.
— Oi — Murmurei, ainda sem forças.
— Oi. — Ele se aproximou, pegando minhas mãos entre as suas. Quando seus lábios tocaram meus dedos, meu corpo vibrou. — Como você está? Sabe o quanto me assustou? — Sua risada fraca e aliviada dizia mais do que palavras.
— Vou deixar vocês a sós — Disse a Sra. Stewart, em tom brincalhão. — Mas, Archie, agora que a Hanna acordou, tente descansar também, ok? O noivado de vocês é amanhã, e precisam estar bem para isso.
— Pode deixar, mãe.
Ela acariciou seus cabelos antes de sair, mas ele mal pareceu notar, mantendo os olhos fixos em mim.
— Chega para lá — Disse Archie, subindo na cama sem cerimônia e se acomodando ao meu lado.
— O que pensa que está fazendo? — Protestei, rindo.
— Descansando. Minha mãe mandou.
— E tem que ser comigo? Tão perto assim?
Ele sorriu, seus olhos castanhos brilhando e sua covinha marcada no recanto da boca.
— Tem sim.
Antes que eu pudesse retrucar, ele se virou de lado, apoiando a cabeça na mão e me observando com intensidade.
— Eu fiquei assustado, Hanna. Tive medo de te perder.
Meu coração apertou ao ouvir sua confissão.
— Relaxa, Archie. Eu estou bem agora. Foi só uma febre emocional, você sabe que foi por que eu vi o…
— Shiu. — Ele colocou um dedo sobre meus lábios, silenciando-me. — Não vamos falar disso agora. Descansa mais um pouco.
Suspirei, concordando em silêncio. E enquanto fechava os olhos, ele começou novamente.
— Sabe, Hanna... Acho que nunca te contei isso, mas um dos momentos mais engraçados da minha infância tem você no centro.
Eu o encarei com desconfiança.
— Lá vem...
Ele riu baixinho, a proximidade tornando seu riso ainda mais contagiante.
— Você lembra daquela vez em que tentou subir na árvore do parque e ficou presa no galho mais baixo porque sua saia enganchou?
Minhas bochechas ficaram quentes.
— Por que você tinha que lembrar disso?!
— Como esquecer? Você ficou balançando as pernas e gritando “Archie, me ajuda!” enquanto metade das crianças do bairro assistiam e riam.
— Isso não é justo! Você demorou de propósito para me ajudar.
— Eu? Claro que não! — Ele gargalhou. — Mas confesso que aproveitei o momento para ser o herói da situação. Você parecia uma gatinha pendurada na árvore.
Eu joguei uma almofada nele, sem forças para conter a risada.
— Isso não é engraçado! Foi horrível!
— Foi adorável — Ele corrigiu, segurando a almofada antes que ela atingisse o chão. — Sabe por quê?
— Por quê?
— Porque foi a primeira vez que percebi que você confiava em mim para te salvar.
Sua expressão suavizou, e meu coração errou uma batida.
— Você confia em mim, não é, Hanna?
Eu segurei seu olhar por um momento, antes de assentir.
— Confio.
Seu sorriso cresceu, e ele entrelaçou nossos dedos novamente.
— Ótimo, porque não importa o que aconteça, eu sempre vou estar lá para te tirar das árvores da vida. Quero que saiba disso.
O calor em meu peito entregava que aquela memória embaraçosa agora parecia doce.
Deitei minha cabeça em seu ombro, permitindo que ele me abraçasse. Estranho, mas ao mesmo tempo tão certo. Pela primeira vez, senti-me completamente segura e amada. Queria que aquele momento durasse para sempre.
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TANGERINA
Romance"Tudo começou com um segredo. E, desde então, Sierra Campbell viveu uma mentira." Depois que seu pai foi preso em circunstâncias que ninguém ousava mencionar, Sierra foi forçada a abandonar sua cidade, seu nome e sua vida. Agora, como Hanna Clifford...
