Dez anos antes
— Você teria mais tonalidades de laranja? — Perguntei ao vendedor da pequena papelaria.
Eu realmente amava a cor laranja. Sabia que raramente era a cor favorita de alguém e que, sendo ruiva, essa não era uma tonalidade que me favorecia. Mas, mesmo assim, servia bem para rabiscar no telescópio.
— Vou fazer um estrago hoje! — Provoquei meu amigo, sacudindo a sacola com as tintas que tinha comprado.
Ele sorriu e balançou a cabeça quando me viu sair empolgada. Estava encostado do lado de fora da loja, como sempre, com as mãos nos bolsos do casaco. Não era do tipo tímido, mas acredito que fazia isso para dar um certo charme. E parecia funcionar, já que as garotas adoravam o jeito ‘quieto’ dele.
— Por que você sempre quer deixar tudo cafona? — Ele me puxou para perto e tirou a sacola das minhas mãos.
— Não é cafona — Rebati. — Isso aqui é arte! Alguém tem que deixar seu trabalho nerd mais divertido, não acha?
— Lantejoulas, Sierra? Quem é que usa lantejoulas hoje em dia? — Se referiu ao trabalho que fiz na tarde passada.
— E vai ficar ainda melhor! — Dei um sorriso sapeca ao me lembrar das ideias que eu tinha para concluir minha obra de arte.
Ele me devolveu a sacola e começou a andar. Ele sempre cedia e me deixava fazer o que queria... Essa era a parte boa de ser sua amiga.
—Ei, Sierra. Você se importa se não formos juntos para casa hoje? Os meninos me chamaram pra sair e...
— Lógico que me importo! — Franzi a testa para o provocar.
Meu amigo era bastante popular agora que estávamos no ensino médio. Era meio que inevitável isso não acontecer, já que estávamos falando de Archie Stewart, filho de um dos homens mais ricos e influentes da cidade. Ele também era bonito, gentil, inteligente e bom em tudo o que fazia.
Eu não me importava com nada disso... Porém desde então, não passávamos mais tanto tempo juntos. E acredito que ele se sentia um pouco culpado por isso.
— Vou te ver mais tarde, ok? — Ele se abaixou para me encarar de perto e eu sorri.
— Deixa de ser idiota! — Sacudi seu braço. — Você está muito metido para quem se diz humilde.
— Ruiva boba… — Ele sorriu e em seguida fez sua pose de "boy conquistador", colocando as mãos no bolso mais uma vez.
— Quando quiser que eu não vá, eu não vou.
Senti um frio na barriga com aquelas últimas palavras. Não era como se ele fosse minha propriedade, ou como se ele tivesse a obrigação de sempre ficar do meu lado. Mas saber que estávamos crescendo e seguindo caminhos diferentes me incomodava um pouco.
— Eu te vejo mais tarde, garanhão. — Sorri fingindo não me importar.
Sacudi seus cabelos dourados/castanhos. Eu amava ver o movimento que fazia, e como de nenhuma maneira conseguia deixá-lo bagunçado. Embora, agora fosse um pouco ruim alcançar o topo da sua cabeça, já que ele estava mais alto.
E novamente começou… Quando voltei meus olhos para ele, nossos olhos se encontraram. Senti borboletas no estômago e meu coração errou mais uma batida. Seu rosto ficou um pouco rígido e eu senti minhas bochechas corarem gradativamente.
— Eu estou indo. — Ele retirou a minha mão do seu cabelo e colocou uma tangerina na minha mão. (É, pode rir se achar aleatório o momento pra se dar uma laranja a outra pessoa. Mas meu amigo nunca achou o momento certo para isso.)
Por fim, soltei um "ok".
Ultimamente, meu coração continuava a bater acelerado quando me aproximava muito dele. Me perguntava se ele vinha sentido o mesmo ou se só era eu.
Era difícil admitir que eu o achava atraente. Era difícil viver um dilema entre amor e amizade, por isso vivia sempre ignorando tais pensamentos. Contudo, essa foi a primeira vez que senti como se meu coração fosse sair pela boca.
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TANGERINA
Romance"Tudo começou com um segredo. E, desde então, Sierra Campbell viveu uma mentira." Depois que seu pai foi preso em circunstâncias que ninguém ousava mencionar, Sierra foi forçada a abandonar sua cidade, seu nome e sua vida. Agora, como Hanna Clifford...
