"Querida Sierra,
Como tem passado? Se está lendo isso, é porque, de algum modo, não conseguimos ter aquela conversa que tanto desejei. Gostaria de ter dito isso olhando em seus olhos, mas a vida nem sempre nos dá o luxo de decidir quando ou como nos despedimos. Se tudo der certo para você, meu coração estará em paz.
Eu não sei se mereço seu perdão, mas preciso dizer que o almejo com todas as forças. Meu maior pecado foi a ganância, e seria fácil culpar a preocupação com a nossa família, mas seria uma mentira. A verdade é que me perdi em escolhas egoístas, em caminhos que me afastaram das pessoas que mais amo. Deixei um amigo para trás, negligenciei minha esposa e, acima de tudo, falhei com você.
Eu errei, minha filha, e não há como justificar. Fui ausente nos momentos que importavam. Não estive em sua formatura, não tirei sequer uma foto para guardar seu sorriso orgulhoso. Não vi você partir para a faculdade, não estive na plateia para aplaudir de pé sua primeira apresentação no piano. Nunca a levei para dançar na sala de casa, nem estive por perto para espantar os pretendentes – e sei que foram muitos, porque você é minha princesa linda.
Sierra, se eu pudesse voltar no tempo, juro que teria sido um pai melhor. Eu teria te dito todos os dias o quanto te amava e como você é a melhor parte de mim. Mas, mesmo sem minha presença, você cresceu e se tornou alguém de quem eu tenho tanto orgulho. É por isso que quero que saiba que não importa o que aconteça, você sempre será minha Campbell, minha pequena Sierra.
Perdoe e se perdoe. Ame e permita-se ser amada. Realize seus sonhos sem medo do fracasso, pois é o esforço, e não o sucesso, que define quem somos. Viva intensamente, minha querida. Só assim eu estarei em paz.
Com todo o amor que esse pai pôde dar,
James"
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As lágrimas escorriam pelo meu rosto, silenciosas, mas pesadas. O papel na minha mão tremia, manchado em um ou dois pontos pelas gotas. Por que aquela carta parecia tanto uma despedida? Era o fim?
Recebi a carta de Dalson mais cedo, no Tribunal, após o julgamento de Dylan.
Assim que recebeu alta do hospital, após a cirurgia no ombro devido ao tiro que seu "comparsa" lhe deu, ele foi levado à corte e condenado à prisão perpétua. As provas, os documentos reunidos pelo meu pai, o flagrante... Tudo culminou na sentença que, enfim, trouxe justiça às vítimas. Tanto ele, quanto todos os seus aliados e cúmplices, iriam pagar pelos seus crimes.
Por outro lado, eu e minha mãe fomos absolvidas. O juiz reconheceu que não sabíamos sobre a fraude envolvendo nossos nomes. Ainda assim, nossa identidade precisava ser abandonada.
Sierra Campbell. Este nome, que eu havia enterrado junto com tantas lembranças, era novamente meu. Mas não conseguia sentir a liberdade que deveria acompanhá-lo.
Eu precisava de outro milagre. Eu implorava por ele. Oração após oração, as palavras se repetiam na minha mente enquanto eu sentava ao lado da cama do meu pai. Ele estava tão imóvel, tão frágil, que doía olhar para ele. Precisava vê-lo acordar. Precisava ouvir sua voz.
Quando o limpava, murmurei baixinho: "Volta para mim, pai. Por favor."
Estava imersa na minha dor quando ouvi passos suaves atrás de mim.
— Já comeu? — A voz de Archie cortou o silêncio, gentil e preocupada.
Virei-me para vê-lo parado na porta, com uma sacola de papel na mão. Estava elegante, vestido para o trabalho, mas seus olhos estavam cansados. Ele tinha estado lá por mim, todos os dias, mas eu nunca soube o que dizer.
— Não estou com fome. Depois eu como. Pode ir.
Minhas palavras saíram frias, mas não era minha intenção. Archie suspirou, ignorando minha tentativa de afastá-lo, e entrou no quarto.
— Você precisa comer, Sierra. Como pretende cuidar dele se não se cuidar também?
Olhei para meu pai. O som do monitor cardíaco preenchia o quarto, um lembrete cruel da sua condição. Suspirei profundamente, deixando Archie me puxar até a mesa próxima.
— Sua mãe foi para casa com a minha mãe. Ela vai dormir lá hoje. Eu fico aqui com você.
— Não precisa fazer isso.
— Preciso, sim. Você está há três semanas nesse hospital, Sierra. Três semanas! Dormindo mal, comendo mal, se desgastando. Eu não vou deixar você se destruir.
— Archie, por favor, não...
— Não é o que ele gostaria, Hanna, ou melhor, Sierra. — Disse ele, com a confusão do meu nome, a voz mais baixa, mas firme. — Ele não passou anos preso, depois trabalhando para um “desconhecido” em troca de poder obter ajuda para provar sua inocência, para que seu fim fosse em uma cama, sendo velado antes do tempo por sua filha.
Fiquei de pé de repente, o rosto quente de indignação.
— Não fala assim... Não aqui.
— Tudo bem, vamos lá fora.
O segui até a varanda, mastigando sem vontade o hambúrguer que ele insistiu para eu comer. A noite estava fria, e as estrelas, apesar de belas, pareciam distantes demais. O silêncio entre nós era pesado.
Archie parecia perdido nos próprios pensamentos. Eu sabia o quanto ele estava sofrendo, mesmo que nunca admitisse. Seu irmão tinha desaparecido após a revelação sobre Dylan. Ele apenas nos ajudou naquele dia e depois sumiu. A tensão havia abalado toda a família Stewart. Mesmo assim, ele estava lá, por mim.
Sem pensar, o abracei.
— Me desculpa. — Minha voz saiu abafada contra seu peito.
Ele me segurou com firmeza, um toque que misturava consolo e desespero.
— Eu amo você, Archie.
Ele afastou-se apenas o suficiente para erguer meu rosto com as mãos. Seus olhos brilhavam de lágrimas contidas.
— Sierra...
— Não, deixa eu falar. Eu estou dificultando tudo, eu sei. Eu estou te afastando e não é o que eu quero, eu só...
— Calma. Eu sei. E eu estarei aqui, mesmo assim. Porque é isso que o amor é. Aguentar as tempestades, mas permanecer.
As lágrimas vieram com força, e ele me apertou contra si, como se pudesse me manter inteira.
— Me desculpa se minhas palavras foram muito duras, mas... Me deixa cuidar de você, Sierra.
Eu assenti. Pela primeira vez em semanas, senti que talvez pudesse desabar sem medo de não me recompor.
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Mais tarde, na casa dos Stewart, fui recebida por um calor humano que há muito tempo não sentia. Sentada à mesa com minha mãe e os pais de Archie, percebi que, apesar de tudo, havia esperança de um recomeço.
O som do meu celular interrompeu a conversa. Quando atendi, meu coração disparou.
— É sobre o seu pai, Srta.Campbell.
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TANGERINA
Romance"Tudo começou com um segredo. E, desde então, Sierra Campbell viveu uma mentira." Depois que seu pai foi preso em circunstâncias que ninguém ousava mencionar, Sierra foi forçada a abandonar sua cidade, seu nome e sua vida. Agora, como Hanna Clifford...
