CAPÍTULO 40

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Archie tinha me contado sobre a conversa com meu pai e como precisou planejar toda a situação exposta durante o jantar. Ainda era constrangedor estar diante dos pais dele, mas, surpreendentemente, todos pareciam acreditar na nossa história. Inclusive, o fato de eu ter passado mal no dia anterior só reforçou a ideia de que eu estava grávida — especialmente para a mãe de Archie, que agora cuidava de mim com uma dedicação quase materna. Eu me sentia culpada por enganá-la.

Consegui falar com minha mãe por telefone, graças à ajuda de Agatha. Quando contei sobre meu encontro com meu pai, sua reação foi um misto de choque e incerteza. A possibilidade de que ele não fosse o culpado pelo que aconteceu há dez anos parecia deixá-la ainda mais devastada.

— Posso entrar? — Archie apareceu na porta, ainda de camisa social, como se tivesse acabado de chegar do trabalho, embora fosse tarde da noite.

— Claro.

Ele trancou a porta ao entrar e veio até mim, sentando-se ao meu lado na cama.

— Eu só queria te ver… — confessou, com a voz baixa e cansada. — Como tenho feito nos últimos dias, mas hoje a luz estava acesa.

Ele vinha me ver?

Embora estivéssemos sob o mesmo teto, não nos víamos há três dias. Archie estava sobrecarregado com o trabalho, e o Sr. Stewart parecia castigá-lo de propósito. Enquanto isso, eu me ocupava com os preparativos que a mãe dele insistia em organizar.

— Você poderia ter me acordado — murmurei, ainda processando suas palavras.

Fui surpreendida por um beijo breve e doce, quente como a noite ao nosso redor.

— Estava com saudades — ele disse, sorrindo com ternura, antes de se acomodar melhor e puxar o lençol para se cobrir.

— O que você está fazendo? — Perguntei, rindo nervosamente.

— Me deixa dormir aqui hoje.

Meu coração disparou. Como ele podia falar isso com tanta naturalidade?

— Está maluco? Seus pais já estão furiosos conosco. Se souberem disso, pensarão ainda mais besteiras.

— Eu sei... — disse com um tom resignado. Mas então se inclinou e beijou minha barriga, os olhos brilhando de travessura. — E como está o nosso bebê?

Corei até as orelhas. Desde quando estávamos tão íntimos?

— Para com isso! — Protestei, me ajeitando na cama. — Falando assim, parece até que é verdade.

— Queria eu que fosse — seu olhar encontrou o meu e me despiu de qualquer defesa. — Um dia, se você quiser, serei o cara mais feliz do mundo por te ter como mãe dos meus filhos.

Suas palavras me atravessaram como uma corrente elétrica. Eu estava flutuando, completamente envolvida pela presença dele.

— Archie, para com isso. Nós nem estam...

Antes que eu pudesse concluir, seus lábios tomaram os meus em um beijo carregado de desejo. Quente, intenso, arrebatador. Minha mente se esvaziou, o mundo desapareceu, e só existíamos nós dois.

Archie se inclinou sobre mim, conduzindo o momento com uma mistura de firmeza e cuidado que me deixava sem fôlego — mas eu não queria respirar. O beijo se tornou mais lento, profundo, e meu coração batia tão rápido que parecia ecoar em cada parte do meu corpo.

— Eu... — ele murmurou, afastando nossos lábios por um instante. Seus olhos estavam diferentes agora — vivos, ardentes. — Eu só estava com saudades. Mas acho melhor voltar para o meu quarto, não é?

Apesar das palavras sensatas, eu o puxei de volta, incapaz de pensar em qualquer coisa que não fosse o calor do seu toque. Ele hesitou apenas por um segundo antes de se render. E o beijo, dessa vez, veio ainda mais denso, mais carregado.

Podia sentir seu coração acelerado junto ao meu. Seus lábios, sua respiração, seu toque leve, mas seguro, despertavam algo em mim que eu mal sabia nomear. Quase sem perceber, comecei a desabotoar sua camisa, um botão de cada vez, devagar, provocando.

Dessa vez, não me senti envergonhada. Meu corpo parecia em febre — não de doença, mas de desejo — e respondia com arrepios a cada toque sutil, principalmente quando sua mão deslizou lentamente até alcançar o zíper do meu moletom.

— Hanna? Está aí?

A voz da Sra. Stewart nos fez pular como se um raio tivesse caído no quarto. Meu rosto queimou, e a realidade nos atingiu com a força de um balde de água gelada.

Archie gesticulou para que eu ficasse quieta e apontou para o armário. Ele ia se esconder. Assenti, ainda ofegante, tentando me recompor.

— Sim, senhora. Pode entrar.

— A porta está trancada, querida.

Ainda bem, pensei, tentando controlar a respiração.

— Está tudo bem? Seu rosto está vermelho. Está com febre?

Ela se aproximou antes que eu pudesse evitar, encostando a mão na minha testa.

— Acho que não... — Respondi, com a voz hesitante. — Talvez seja só o calor.

— Você parece suada e com as mãos frias. Aqui, tome um pouco de água.

Aceitei o copo, sentindo a culpa crescer dentro de mim.

— Estou bem, juro. Acho que o quarto está abafado.

— Vou ligar o ar-condicionado para você — disse, já se levantando. — Pode se sentir à vontade, Hanna. Você faz parte da família agora. Só não esqueça de se cuidar, ainda mais grávida.

Ela se inclinou e falou com a minha barriga, um gesto tão doce que fez minha culpa se multiplicar.

— Fiz biscoitos mais cedo. Vou pegar alguns para você. Esse bebê precisa ser bem alimentado.

Assenti, forçando um sorriso. Quando seus passos se afastaram, Archie apareceu à minha frente, visivelmente sem graça.

— Desculpa, amor — murmurou, sorrindo de forma desajeitada.

Retribui o sorriso, ainda sentindo o calor que parecia continuar grudado na pele.

Ele se aproximou e beijou minha testa, num gesto que foi pedido de desculpas e promessa ao mesmo tempo.

— É melhor eu ir — disse suavemente. — Boa noite.

— Boa noite — respondi, com o coração ainda em chamas.

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