CAPÍTULO 35

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Eu estava de volta à cidade. Não havia espaço para paz. Estávamos hospedados em um hotel luxuoso, a cerca de meia hora da casa dos Stewarts, mas nem mesmo o brilho dourado das suítes podia mascarar a sombra que me seguia. Dylan deixara claro: não haveria um único momento em que eu estivesse completamente sozinha.
          
Para minha surpresa, a Sra. Stewart interveio, convidando-me para um passeio. E Dylan, apesar de relutante, teve de ceder. Seus assuntos pessoais na cidade e a missão de trazer minha "mãe falsa" para a cerimônia do noivado o afastaram temporariamente, permitindo esse breve respiro. Era um pequeno alívio em meio ao sufoco de estar sob sua constante vigilância.
           
A única vantagem de estar tão próxima de Dylan foi descobrir mais sobre seu passado sombrio. Após a conversa com minha mãe, tive outra longa troca com Agatha. As peças começaram a se encaixar, e o retrato de Dylan tornava-se mais nítido – e perturbador.
         

Kathleen Clifford. Ela era tratada como uma deusa, mas até ela sucumbira às humilhações e abusos do marido. Havia rumores sobre um filho ilegítimo, uma criança que ninguém jamais viu, mas que parecia assombrar os sussurros dos empregados. Eventualmente, Kathleen adoeceu com uma rara enfermidade e morreu sem cura. Após sua morte, Dylan ergueu-se novamente, reconstruindo sua imagem diante de todos, como o "santo" que criaria a filha de outro homem. Era irônico – e cruel.

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— Hanna!

— Olá, Sra. Stewart — Cumprimentei timidamente ao encontrá-la diante do hotel. — Fico feliz que tenha me convidado para passar a tarde com a senhora.
          
Ela sorriu de maneira irônica e fez um leve gesto com a cabeça, indicando que eu a seguisse até o carro.
           
Durante o trajeto, as tentativas de conversa sobre o tempo ou a beleza da cidade não quebraram seu silêncio inabalável. De vez em quando, percebia seus olhos perfurando-me por trás das lentes escuras, mas sem nunca me fazer uma única pergunta. Era como se ela analisasse cada um dos meus movimentos, cada respiração.
           
Quando o carro parou no meio de uma estrada deserta, meu coração disparou.

— Vamos, desça.
           
Por um instante, minha mente entrou em pânico. Ela iria me abandonar ali? Me interrogar? Me torturar para arrancar alguma verdade? Suas intenções eram um enigma, e minhas mãos gelaram.
          
Assim que desci, a resposta veio – mas não da maneira que eu imaginava.  Fui envolvida em um abraço apertado, e o perfume cítrico inconfundível dissipou o medo como um sopro. Meu coração desacelerou, e a saudade do seu toque me fez afundar a cabeça em seu pescoço.

— Senti sua falta. — Ele sussurrou, sua voz um bálsamo que fazia meus olhos se encherem de lágrimas.
          
Afundei ainda mais em seu abraço, sentindo o calor e a força que tanto ansiava. Archie apertou minha cintura com firmeza, como se quisesse garantir que eu não desapareceria outra vez.

— Podem matar as saudades, vocês têm a tarde toda. Não acredito que concordei com essa loucura. — Bufou a Sra. Stewart, cruzando os braços. — Por que precisam se ver às escondidas se estão noivos?
         
A verdade era um labirinto complicado demais para explicar. Para os Stewarts, Dylan era um cordeiro inofensivo. Nem queria saber a história que Archie havia inventado, mas sabia que fazia parte de um plano maior para encontrarmos Dalson.

— Obrigado, mãe! — Archie disse, com aquele sorriso travesso e desconcertante.

— Eu devo estar maluca… Juízo, vocês dois!
         
Ela entrou no carro e partiu sem olhar para trás. Archie gargalhou, e a leveza em seu riso era como um sopro de vida em meio ao caos.
          
Ele me puxou em direção ao carro dele, e mesmo desnorteada, o segui.

— Archie, o que você inventou para a sua…
          
Ele não esperou que eu terminasse. Seus lábios capturaram os meus com uma urgência que desarmou qualquer pensamento coerente. O toque era quente e desesperado, como se os poucos dias longe tivessem sido insuportáveis. Minhas mãos agarraram sua camisa enquanto me entregava ao momento, sentindo cada batida acelerada do meu coração.

— Senti sua falta, meu amor. — Ele disse com um sorriso ofegante, seus olhos brilhando em pura adoração.

— Eu também senti sua falta.
         
Por um instante, tudo ao nosso redor desapareceu. Era como se o mundo tivesse parado, deixando apenas nós dois, presos naquele momento. Quando nossos lábios se encontraram outra vez, o beijo foi mais lento, mas profundo, prolongando a saudade e o desejo acumulados.

— Melhor irmos. — Murmurei, afastando-me com relutância.

— Certo.

Ele se ajeitou no banco, bagunçando o cabelo em uma tentativa de parecer casual. Sorri ao vê-lo agir de propósito, como sempre.

— Então, o que você disse para sua mãe concordar em nos ajudar?

— Nada demais. Só mencionei que seu pai era um homem muito conservador e que estávamos desesperados para passar um tempo sozinhos.

— Archie! — Exclamei, tentando não rir.

— Ei, calma! Só disse que queria sair com você, mas que ele ainda não confiava em mim. Foi o suficiente.

— Idiota!

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Estávamos em frente a um grande portão, envolto por um longo muro camuflado de arbustos. Talvez se passasse por ali umas cem vezes, não tivesse reparado naquele lugar.

— Então, o que pretende? Ligar no interfone e dizer que viemos visitar um senhor chamado  Dalson?

— Exatamente isso. Não soa tão mal, soa?

— Duvido que ele vá querer nos receber.

— Aposto que sim. Ele sabia que estava sendo seguido e queria que fosse assim. Ele é mais esperto do que parece.
          
Suspirei enquanto Archie apertava o interfone. Disse exatamente o que planejara, e o portão se abriu sem nenhuma pergunta. O som do motor ecoou na entrada, e um calafrio percorreu minha espinha. Era como se já estivessem esperando por nós.

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