— Ai!
— Desculpa.
— Ai!!!
— Desculpa!!
— Você não vai parar de pedir desculpas?
— Se você parar de choramingar, eu paro de me desculpar.
— É que está doendo!
— Eu sei… Desculpa!
— Hanna!
— Ok, parei.
Pela milésima vez, encostei o álcool na ferida dele. Dessa vez, Archie apenas apertou os lábios, segurando a dor, e me deixou terminar a limpeza. O corte do lado direito do seu abdômen era extenso, mas não fundo o bastante para precisar de pontos. Coloquei o remédio e finalizei o curativo.
Eu me sentia culpada, mas saber que ele poderia ter se machucado ainda mais me deixava com uma sensação ainda pior. Eu devia estar maluca de ter ido sozinha até lá!
— Prontinho. — Fechei minha caixinha de primeiros socorros. — E não fica bravo, mas eu realmente sinto muito que tenha se machucado por minha causa.
— Relaxa. Como eu disse, não foi nada. Antes eu do que você.
Sorri levemente e, pela primeira vez em muito tempo, vi Archie sorrir de volta.
— Vou lavar sua camisa. — Comentei, analisando a mancha de sangue que tomava conta de um canto. — Mas não sei se vou conseguir tirar essa mancha. Talvez… Eu poderia te comprar uma camisa nova, certo? Mas, bem, nenhuma loja está aberta a essa hora.
Já passava das três da manhã.
— Não se preocupe. Eu coloco meu casaco por cima e, em casa, me livro da camisa sem que ninguém perceba. E, só para constar, eu também poderia ter feito meu próprio curativo, se não tivesse insistido tanto.
— Me sinto menos culpada por ter feito, então.
Archie estendeu a mão para pegar a camisa, e foi só então que percebi que ele estava ali, na minha frente, sem camisa o tempo todo. Até então, eu estava tão concentrada em cuidar da ferida que mal notei, mas, agora, meu rosto ficou quente. Maldição. Meu corpo sempre me entregava nessas horas!
— Você não precisa ficar envergonhada. Pode olhar.
— Eu não estou com vergonha. E quem disse que eu quero olhar?
— Não quer?
— Não.
— E por que não?
— Hã… O quê?
— Suas bochechas estão vermelhas.
— Então veste logo essa camisa, horas!
Levantei o rosto para provocá-lo, mas não pude deixar de observá-lo enquanto ele se vestia. Seu corpo era magro, mas bem definido, exatamente do jeito que imaginei. Quer dizer, nunca imaginei. Você nunca imaginou, Hanna!
— Pronto. Satisfeita?
Na verdade, não. Fiz que sim com a cabeça.
O sorriso convencido de Archie me fazia questionar se ele havia se tornado algum “hétero top*” ou só estava me provocando.
Continuei a juntar esparadrapos e outros itens de curativo, tentando agir como se nada tivesse acontecido, mas ele claramente não tirava os olhos de mim.
— Quando é o casamento?
O maxilar dele se enrijeceu, mas eu precisava ter essa conversa, mesmo que meu coração se apertasse só de lembrar.
— Eu…Ou melhor, ainda não oficializaram o noivado. Quer dizer, estou noivo por uma promessa, mas nada está no papel. Não sei quando meu pai vai decidir.
Ele havia me dito antes que seu coração era independente do pai, mas agora… Quem era eu para julgá-lo?
— É com a May?
— Talvez. Depende das ofertas e dos benefícios que nossos pais concordarem.
— Hum…
Que vida miserável. Tão devoto ao pai!
— Sei o que você está pensando.
— Não estou pensando em nada, Archie.
— Meu pai piorou muito. Desde o incidente, nunca foi o mesmo. Recentemente descobrimos outra doença, logo terei que assumir os negócios sozinho. Só que estamos quebrados e precisamos de uma aliança forte.
— Archie, você não tem que…
— Eu não tive escolha. — A voz fria e distante me fez querer abraçá-lo. — Embora meu pai sempre tenha mimado muito o John e deixe claro que ele é o favorito, sou eu quem ele quer que assuma a responsabilidade. Eu tentei fugir disso, mas mesmo que o John queira e pareça invejoso, ele é instável, e minha mãe… Ela precisa de mim.
— Entendo. Sei como é assumir a responsabilidade por uma família.
Na verdade, o admirava ainda mais agora. E me lembrei do quanto Archie amava e cuidava da mãe. Algo ruim havia acontecido com ela?
— Não é só pelo meu pai que estou aqui. — Comecei a desabafar também. — Na verdade, nem sei o paradeiro dele. Estou aqui pela minha mãe. Quero descobrir as ameaças que a fizeram desistir de tudo e viver com meu padrasto.
— O aclamado Dylan Clifford não é o que dizem? — Archie riu, com ironia.
— Você não faz ideia!
— Vou te ajudar a descobrir. O que quer que você queira, eu te ajudo.
— E se você se machucar de novo? Melhor esquecer, é perigoso.
— Hanna, você devia se escutar.
Seu olhar sincero me fez sorrir. Eu sabia que precisava dele; a situação era arriscada demais.
— Ruiva boba! — Ele bagunçou meu cabelo de propósito, mudando o clima pesado para algo mais leve e divertido.
— Golpe baixo! Você deveria ao menos me deixar bagunçar seu cabelo — Reclamei, mas minha tentativa de alcançar sua cabeça foi barrada pelas mãos dele.
— Cresça mais um pouco, e quem sabe…
Fiz careta, mas Archie parecia indiferente à minha reação. Ele continuava me encarando fixamente, descaradamente, analisando cada movimento meu.
— Pode parar de me olhar desse jeito? Estou ficando desconfortável — Admiti, timidamente.
— Não posso te olhar?
— Eu não disse isso, é só que…
Engoli seco, tentando controlar o nervosismo.
— Aliás… — Comecei, amarrando o cabelo para parecer despreocupada. — Nós ao menos podemos ser amigos, não acha? Seria bom para nós.
— Vou levar a câmera e pedir para alguém analisar amanhã. — Ele se levantou, pegou a câmera de segurança que tínhamos roubado do estabelecimento do Sr. Thomson, vestiu o casaco, e ignorou a minha pergunta.
— Certo. Quando tiver acesso…
— Quando tiver acesso, eu te mando uma mensagem. Mas agora está tarde, preciso ir.
Acompanhei-o até a porta. Era tarde, mas não era o caso de convidá-lo a ficar. Só o deixaria ir.
— Dirija com cuidado e me mande mensagem quando chegar, ok?
Archie parou de repente, me fazendo parar atrás dele. Parecia hesitar entre continuar ou se virar, mas, por fim, ele se virou e me puxou para perto. Seu rosto ficou próximo ao meu, e senti sua respiração.
— Você sente isso também? — Sussurrou, tão perto que seu hálito me fez cócegas.
— S-sentir? — Minha voz saiu trêmula.
— Vontade de me beijar? De ficar entre meus braços?
Ele me puxou ainda mais, se inclinando até seus lábios quase tocarem meu pescoço.
— Vontade de me afastar… Ou de eliminar qualquer espaço entre nós?
Arrepiei quando o nariz dele roçou minha pele, traçando um caminho do meu pescoço ao rosto.
— Se sente o que eu sinto, por favor, nunca mais me peça para ser só seu amigo!
Ele se afastou de repente e saiu, me deixando sem reação.
Algum coração já saiu pela boca? O meu parecia querer correr dali.
VOCÊ ESTÁ LENDO
TANGERINA
Romance"Tudo começou com um segredo. E, desde então, Sierra Campbell viveu uma mentira." Depois que seu pai foi preso em circunstâncias que ninguém ousava mencionar, Sierra foi forçada a abandonar sua cidade, seu nome e sua vida. Agora, como Hanna Clifford...
