CAPÍTULO 41

84 16 12
                                        

          
A brisa suave soprava em meu rosto, fazendo os fios do meu cabelo voarem levemente. O frescor era como um abraço reconfortante, uma sensação de paz tão intensa que parecia de outro mundo.
           
Eu me balançava devagar em uma cadeira de madeira, sob a sombra protetora de uma grande árvore. Nas minhas mãos, um livro de capa delicada: A Coroa, de Kiera Cass. Era o último volume da saga que eu adorava na adolescência, mas que nunca havia terminado. Agora, finalmente, tive a chance de descobrir o desfecho.
           
O som suave das folhas se movendo acima de mim era calmante, mas logo foi abafado por risadas alegres. Uma garotinha de cabelos ruivos corria em minha direção, suas mãozinhas sujas de tinta segurando um desenho colorido.

— Mamãe! — Ela gritou, com olhos brilhantes e um sorriso tão contagiante que meu coração se aqueceu.
           
Ela tinha cerca de quatro anos e me puxou para observar sua obra-prima. Estava tudo lá: linhas tortas, cores vibrantes, um caos charmoso. Percebi que, de algum jeito, ela havia decorado até a barra do meu vestido com pequenos rabiscos de aquarela.
           
Eu a segurei no colo, ouvindo sua explicação animada sobre cada detalhe do desenho. Minhas mãos acariciavam seus cabelos, sentindo a textura macia, enquanto um riso escapou de meus lábios. Então, olhei para frente e vi Archie. Ele caminhava em nossa direção, segurando um bebê rechonchudo no colo. As bochechas fofas e o sorriso desdentado do pequeno me fizeram rir, mas a semelhança dele com nós dois me tirou o fôlego.
             
A cena era tão perfeita que meu coração transbordou de uma felicidade pura.
            
Então, tudo desapareceu.
            
Acordei num sobressalto, sentindo o aperto no peito de um pressentimento ruim. O sonho tinha sido doce, mas o gosto amargo da realidade me puxava para baixo.

                  _________ ________

— Vai querer mais canela no chá? — Rebecca estalou os dedos na minha frente, me tirando dos pensamentos.

— O quê? Ah, não, normal já está ótimo. — Sorri para o garçom que anotava nossos pedidos.
          
Rebecca parecia animada, mas eu sentia minha cabeça a quilômetros de distância. Archie havia insistido que eu a convidasse para o casamento, preocupado com meu estado emocional nos últimos dias. E, apesar da resistência inicial, a saudade da minha amiga falou mais alto.

— Você não precisava ter vindo antes do dia.

— Está brincando? E perder a chance de te ajudar a organizar tudo? — Ela revirou os olhos dramaticamente. — Não perco isso por nada!
          
Rebecca estava em seu elemento. Hoje, em particular, íamos à loja de vestidos para minha prova final, o que, como era de se esperar, gerou discussões entre os pais do Archie. Eles não gostaram nada da desculpa que Dylan deu sobre minha mãe – ou "a mulher contratada", como eu preferia chamá-la – não poder me acompanhar.

— Vou te contar, Hanna. Nunca subestime ninguém! — Rebecca apontou para mim com um olhar dramático. — Você chegou caladinha, a nerd que odiava festas. Daí, do nada, começa a beijar gente que nem sabe o nome, quebrar corações, noivar com um dos cara mais cobiçado da faculdade e ainda engravidar dele? Onde esse mundo vai parar?!
          
Eu ri, batendo no braço dela.

— Ridícula.
          
Ela era única. Apesar das brincadeiras, Rebecca sempre me apoiava, mesmo sem saber toda a verdade.

— Prometo que, quando tudo acabar, te conto tudo, ok?

— Contar? Assim você me assusta, hein...
          
Mudei de assunto, tentando aliviar o tom.

— E o Mark? Como estão as coisas?

Ela imediatamente fez uma careta.

— Esquece o Mark. — Rebecca desviou o olhar, claramente desconfortável.

— O garçom está te olhando. — Inclinei a cabeça discretamente para o lado, tentando não rir.

— Ah, que ótimo! — Ela choramingou. — E eu aqui gostando do pateta do Mark...

— Sempre achei vocês parecidos. — Não resisti à provocação, recebendo um olhar fulminante em troca.

— Acredita que ele pediu desculpas pelo beijo? Como se tivesse feito algo terrível? Agora ele está todo estranho, e eu, mais ainda! Parece até que ele me odeia.
          
Dei um gole no meu chá, lutando contra a vontade de revirar os olhos.

— Ou... Talvez ele goste de você, mas tenha medo de estragar a amizade. Até porque você não é exatamente a pessoa mais fácil de lidar.

— Eu?! — Rebecca começou a protestar, mas algo chamou minha atenção.
          
Do outro lado da janela, uma mulher passou apressada. Minha suposta "mãe".

— Rebecca, volto já. Esqueci uma coisa. — Levantei de repente, tentando soar casual.

— Está fugindo da conta? Espertinha!
           
Saí rindo, mas meu coração estava acelerado.
           
Segui a mulher por alguns quarteirões, mantendo distância para não ser notada. Ela parecia desconfiada, olhando ao redor, mas logo entrou em um prédio conhecido: o cassino de Thomson. Meu corpo ficou tenso. O que ela estava fazendo ali?
           
O local estava cheio, com música alta e risadas ecoando pelos corredores. Tentei me misturar entre os clientes, mas a perdi de vista por um momento. Meu olhar vasculhou o ambiente freneticamente, até que a vi desaparecer por uma porta discreta no final de um corredor.
          
Sem pensar duas vezes, segui-a.
          
O quarto estava vazio, mas uma sensação de perigo imediato tomou conta de mim. Um cheiro estranho, algo como álcool e madeira velha, pairava no ar. Meu coração acelerou quando senti algo pesado atingir minha cabeça. Tudo ficou escuro.

__________ __________

          
Quando abri os olhos, a dor na cabeça era quase insuportável. Pisquei algumas vezes, tentando ajustar a visão. O cheiro de mofo e metal enferrujado era sufocante. Eu estava amarrada, os pulsos presos por cordas ásperas que cortavam minha pele.
         
Um som de passos ecoou nas paredes de concreto. Meu estômago revirou quando uma voz feminina e fria respondeu:

— Ora, ora. A princesinha do Dylan acordou.
         
Minha visão ainda estava embaçada, mas reconheci a silhueta da mulher que se apresentava como minha mãe. Atrás dela, outra figura apareceu: Thomson, com seu sorriso debochado.

— Você realmente abusa da sorte. — Ele disse, cruzando os braços.

— Foi você… Você está por trás de tudo! — Gritei, tentando lutar contra as amarras.

— Sabe, você é engraçada. Tão desesperada para desvendar esse “mistério” que nem percebeu o óbvio. — Ele riu, aproximando-se. — Mas não se preocupe, Hanna. Vou contar tudo. Não que vá viver muito para espalhar a história.
          
O sorriso dele era cruel, e o medo tomou conta de mim.

TANGERINAOnde histórias criam vida. Descubra agora