Eu tinha mesmo ouvido direito?
Archie Stewart estava bem na minha frente depois de tantos anos? Não, não podia ser… Mas, então, por que o coração batia assim? Será que ele tinha me reconhecido? Ou agora meu nome era apenas Hanna para ele?
Minha vontade era sair correndo e ir até meu amigo, perguntar se ele se lembrava de mim, como ele tinha passado todos esses anos… Mas então a realidade me atingiu: nós não tínhamos contato há tanto tempo, e ele nunca respondeu a nenhuma das minhas mensagens.
Por fim, conclui que fingir uma dor de cabeça forte e sair sem mais nem menos tinha sido a estratégia mais coerente no momento. Mas porquê agora? Depois de tantos anos, por que ele tinha ressurgido para bagunçar minha mente assim? Ele era mesmo o Archie Stewart que eu conhecia? E o seu irmão... Eu tinha me envolvido mesmo com o irmão mais velho dele? Que azar é esse, Hanna? A vida só pode estar de brincadeira!
Meu coração doía, uma angústia tomou conta de mim. De repente, comecei a perder as forças, e agora me sentia realmente doente.
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— Sierra? — Um calafrio percorreu meu corpo ao ouvir a voz da Rebecca.
— Hanna? Hanna, você está me ouvindo?
A voz dela antes distante estava mais perto. Rebecca tocou o meu rosto, parecia preocupada.
— Você está com febre? Está queimando. Vou ligar para alguém. Você tem o número do John? Ele tem carro? Temos que te levar a um hospital.
Segurei a mão da minha amiga quando vi que ela ia pegar meu celular.
— Não, eu vou ficar bem. Não chama ele.
Tentei parecer o mais consciente possível antes que meus olhos se fechassem de novo.
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Horas depois, acordei com algo descongelado na testa. Tirei um pacote de hambúrguer e olhei em volta, ainda meio confusa.
— Virei o almoço de alguém?
Rebecca, que estava mexendo no computador, saltou da cadeira.
— CRUZES, Hanna! Está viva?
Olhei para ela e para o monte de pacotes ao meu redor, e ri.
— O que é tudo isso?
— Você estava queimando de febre e eu não sabia o que fazer, então liguei para o Mark, e ele conseguiu essas comidas congeladas com a tia da cantina.
— Oi, Hanna, acordou? — Mark surgiu com um hambúrguer na boca.
Ele era o amigo maluco da minha amiga maluca. Não me surpreenderia se eu soubesse que os dois dividiam o mesmo neurônio.
— Oi. Mas vocês já estavam dividindo a minha herança? Porque parecem bem surpresos por eu ter acordado.
Mark se inclinou, usando minhas pantufas do mang*.
— Ainda bem que ele só pegaria suas coisas bregas — Rebecca riu.
Revirei os olhos e me levantei devagar. A dor de cabeça parecia ter passado.
— Ei, sua doida! — Rebecca me acertou com uma almofada. — Quem é que fica com febre por causa de uma ressaca? VOCÊ É ESPECIAL, POR ACASO? — Sério que acha que foi isso?
Sorri, tentando acalmá-la.
— É normal, Rebecca… De vez em quando me sinto mal assim, só isso.
— Essa menina é dramática, eu só ignoro ela. Faz o mesmo. — Mark deu uma piscadela para mim, enquanto provocava a amiga.
Mas eu sabia bem o que era: uma febre emocional. Vinha acontecendo de vez em quando, sempre que uma emoção forte me atingia. A primeira vez foi quando eu vi o Dylan Clifford traindo minha mãe e ela não acreditou em mim. Lembrar disso me causava repulsa.
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A noite já estava avançada, então os corredores dos dormitórios estavam vazios. Fui até o jardim do pátio e me sentei em um dos bancos perto da árvore mais antiga da universidade. Descobri aquele lugar há algumas semanas e, desde então, sempre ia até lá quando queria ficar sozinha.
Suspirei. Que céu tão lindo! A noite parecia tão vasta e escura, mas ainda havia luzes ali. Era uma metáfora que me consolava. Quando criança, eu apenas admirava as estrelas. Agora, além de um conforto, elas também eram uma fonte de esperança.
Levantei-me e decidi voltar para o quarto. O frio estava ficando insuportável, e eu precisava tentar dormir mais um pouco. Fora que, pijama e casaco também não pareciam os trajes adequados para ser vista por alguém, por aí.
Foi então que o vi parado ali, no meu caminho de volta. Meu coração saltou. Archie Stewart estava ali, ainda com a mesma roupa de mais cedo, as mãos nos bolsos do casaco, aquele sorriso discreto que sempre o fazia parecer tão seguro de si.
— Você me assustou! — Falei, tentando parecer casual.
— Você costuma perambular pela faculdade durante a madrugada?
O tom de voz dele era mais grave do que eu lembrava, e trazia uma confiança tranquila. Eu soube naquele momento: Archie tinha se tornado um homem, afinal.
— E você anda bem curioso sobre o que eu faço, não acha? — Respondi, um pouco mais áspera do que pretendia.
Ele sorriu. Mas que tipo de sorriso era aquele? Seria ele realmente o Archie que eu conheci?
— Hanna Clifford, acertei? Você não lê os noticiários? Nem um lugar é seguro hoje em dia.
— Está preocupado comigo? — Eu tentei esconder o tom irônico, mas não consegui.
— Estranhamente, sim. Acho que depois de te ajudar da última vez, quando caiu bêbada, fiquei com isso na cabeça.
Eu senti um aperto no peito. Será que ele realmente não me reconhecia? Ou estava apenas brincando comigo?
— Isso não te dá o direito de invadir minha privacidade, achando que pode falar comigo sempre que quiser. — Eu disse, desta vez com um tom mais duro, tentando impor uma barreira.
Ele abaixou a cabeça, parecendo desarmado.
— Tem razão. Desculpe por isso.
Meu coração cambaleava. O que eu estava fazendo? Tudo o que queria era quebrar essa distância entre nós. Eu gaguejei um pouco antes de chamá-lo.
— Espera… Me desculpe também. Estou com a cabeça cheia e acabei descontando em você. Não costumo ser assim.
Ele se virou, ainda com as mãos nos bolsos.
— Você está se sentindo melhor?
— Melhor? — Perguntei, confusa.
— Sua cabeça, mais cedo...
— Ah, sim. Acho que sou muito fraca com o álcool.
Ele sorriu, e meu coração quase parou.
Archie Stewart, o garoto que um dia me esperava no portão de casa, estava ali, com o mesmo charme despreocupado de sempre, mas agora com um jeito seguro, um pouco distante, de alguém que se acostumou a ser desejado.
— Você disse que era o…
— Archie Stewart. Eu sou do Texas, mas me mudei recentemente.
Era ele, sem sombra de dúvida.
— Eu sou Hanna, Hanna Clifford. Nasci e cresci aqui.
— Eu sei. Não ache estranho, mas pesquisei um pouco sobre você. — Ele baixou a cabeça, e eu fiz o mesmo, sem jeito.
Pesquisou? O que ele queria com isso?
— O correto seria estranhar mesmo…– Murmurei. — Eu vou entrar. Estou morrendo de frio! — Disse, tentando disfarçar minha confusão.
Ele deu espaço para eu passar.
— Acho que vou continuar te vendo por aí, Hanna.
Sorri, meio sem graça.
— Acho que sim.
Saí, tentando manter a calma, mas cada passo parecia confirmar a verdade inevitável: Archie Stewart estava de volta na minha vida.
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TANGERINA
Romance"Tudo começou com um segredo. E, desde então, Sierra Campbell viveu uma mentira." Depois que seu pai foi preso em circunstâncias que ninguém ousava mencionar, Sierra foi forçada a abandonar sua cidade, seu nome e sua vida. Agora, como Hanna Clifford...
