Hanna
O frio do chão de concreto era um lembrete cruel da nossa situação. Rebeca estava amarrada ao meu lado, os olhos alertas, mesmo no escuro. Eu mal podia acreditar que ela estava ali. Como ela me encontrou? Como conseguiu entrar nesse pesadelo comigo?
Nossas bocas estavam cobertas com esparadrapos, impedindo qualquer tentativa de conversa. Eu não sabia o que nos aguardava, mas o medo apertava meu peito. No silêncio pesado, qualquer som parecia ensurdecedor.
Rebeca começou a se mexer ao meu lado, emitindo pequenos ruídos com o que parecia ser algo metálico raspando contra as cordas. Antes que eu pudesse entender o que ela estava fazendo, ela virou-se para mim com um sorriso travesso.
— Prontinho! — Minha amiga exibia os pulsos livres, mas eu continuava confusa.
Ela rapidamente tirou o esparadrapo da minha boca e começou a trabalhar nas minhas amarras.
— Achei uma lixa de unha na minha bota. Sempre digo que a moda salva vidas.
— Rebecca! — Não consegui segurar o misto de incredulidade e alívio em minha voz.
— Sabe, eu não esperava que te seguir fosse dar nisso. — Comentou casualmente, como se estivéssemos em um passeio qualquer.
— Você me seguiu?! — Sussurrei, ainda em choque.
— Claro que sim! Não ia deixar você enfrentar tudo sozinha. Você saiu correndo da lanchonete, sem levar o celular. Achei estranho.
— Rebecca, isso não é brincadeira! Eles são perigosos.
Ela deu de ombros enquanto terminava de cortar as cordas.
— Eu percebi quando um brutamontes mascarado me jogou no chão e me apagou. Mas, ei, estou viva, certo?
Por um instante, quis rir da absurda tranquilidade dela, mas a situação me impedia.
— Obrigada por vir... Mas como achou este lugar?
Rebeca parecia orgulhosa.
— Te segui até o cassino. Você entrou apressada e desapareceu. Quando vi que algo estava errado, fiz uma chamada para o Archie e depois para o John.
Meu coração parou por um momento.
— Archie está vindo?
Ela assentiu com convicção.
— E virá com reforço, tenho certeza. Mas até lá, acho que precisamos de um plano B.
— Certo. Vamos tentar sair por conta própria.
Minha amiga arqueou uma sobrancelha, como se tivesse tido uma ideia mirabolante.
— Tive uma ideia! — Ela confirmou minha suspeita. — Vamos amarrar nossas mãos novamente, só que dessa vez mais folgado. Quando os capangas daquele homem, vierem nos tirarem daqui, vou te dar um sinal e a gente foge, o que acha?
— Você acha que vai dar certo?
— Claro que vai. Eu assisto muito filmes de ação, não se preocupa. Está desamarrada ou não está?
Bem... Eu não podia reclamar. Tinha que confiar nas habilidades de fã de filmes de luta da minha amiga.
Não demorou muito para que viessem nos buscar. Não era Thomson ou aquela mulher; eram dois capangas encapuzados. Rebecca fez o sinal que havia combinado. Sem demora, ela chutou um dos capangas e me puxou pelo braço para que pudéssemos correr.
Porém, uma voz familiar gritou meu nome, fazendo-me olhar para trás.
Archie?!
— Archie? — Voltei quase na mesma velocidade com que fugia. O abracei com força; realmente me sentia aliviada em vê-lo.
— Minha Hanna! — Ele me apertou com ainda mais força. — Você está bem? Fizeram algo com você? — Ele me analisou com cuidado, e eu apenas sorri.
— Estou bem, sim. Não se preocupe.
— E você, Rebecca? Está bem?
— Está brincando? Pronta para outra!
— Minha amiga ainda encontrava forças para brincadeiras. — Acho que quem não está muito bem é esse aí.
O outro homem continuava no chão, se debatendo de dor. Minha amiga era mesmo forte!
— Calma aí. — Archie se ajoelhou brevemente e retirou a máscara do outro rapaz, que surpreendentemente se revelou ser:
— John! — Rebecca exclamou.
— O que é? Viu um fantasma?
— Não! Na verdade, estou desapontada por não ter batido mais forte já que era você.
Eles se fuzilaram com o olhar e quase pude ver faíscas.
— Vamos, não temos tempo para tanta conversa. Temos que sair daqui o mais rápido possível ou o plano pode dar errado.
— Plano? Que plano?
— Deixa, depois a gente explica. Só segue a gente, ok?
O olhar de Archie me causou um certo desconforto. O que era isso?
— Archie?
— Confia em mim, Hanna. Todos nós vamos proteger vocês.
Todos nós?
— Vamos sair daqui. — A voz de Archie era firme. Ele puxou meu braço, mas eu hesitei. Algo estava errado.
— Archie, o que está acontecendo? Quem mais veio com você? Por um acaso o meu pai...
Ele evitou meu olhar, mas John respondeu por ele:
— Nossos pais, Hanna. Eles estão aqui para distrair Dylan.
Meu coração acelerou.
— O quê? Meu pai está aqui? — Perguntei, horrorizada.
Só que antes que pudesse processar tudo, o som de um disparo distante ecoou pelo corredor.
Puxei meu braço da mão de Archie correndo na direção contrária. Uma angústia tomou conta da minha alma.
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TANGERINA
Romance"Tudo começou com um segredo. E, desde então, Sierra Campbell viveu uma mentira." Depois que seu pai foi preso em circunstâncias que ninguém ousava mencionar, Sierra foi forçada a abandonar sua cidade, seu nome e sua vida. Agora, como Hanna Clifford...
