CAPÍTULO 33

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Desconhecido: Se quer saber a verdade, me encontre no endereço abaixo.

         
Senti um arrepio ao ler a mensagem na tela. Era de três dias atrás, e o conteúdo era claro demais para ignorar. Quem quer que fosse, sabia onde eu estava naquele dia... Sabia do que mais eu gostaria.
         
Eu tinha visto a mensagem assim que fiz o login da minha conta. Era mais ou menos o dia em que fui com o Archie até o Sr. Thomson. Eu havia sido observada por mais alguém naquele dia? Quem seria?
         
Desde então, Dylan Clifford confiscou meu celular e, desde que voltamos da casa do Archie, ele me manteve presa em meu quarto, com ordens estritas de visitas. Nem mesmo a minha mãe tinha a permissão de me ver. Finalmente, ele tinha mostrado suas garras, embora eu ainda não soubesse todos os seus podres.
         
Ele queria me isolar do mundo, com medo de que eu pudesse interferir em seus planos. E eu "apenas iria fazer as coisas quando ele mandasse", ele me avisou. Inclusive falar ou ver o meu "noivo".
         
O lado bom da história era que o nosso vilão não era tão atento com  tecnologias e não percebeu que meu celular não seria o único meio de contato. Agatha, sempre atenciosa, trouxe um tablet escondido na bandeja junto com a minha refeição.
Eu não poderia ir ao local na data prescrita, mas algo me dizia que não poderia perder essa oportunidade. Por isso, peguei o e-mail do Archie no fórum da sala da faculdade e mandei uma mensagem para ele. Eu iria pedir para que ele fosse no meu lugar, e só podia torcer para que ele checasse sua caixa postal antes do dia marcado.
         
Escondi rapidamente o tablet debaixo do travesseiro assim que escutei o barulho da chave girando na fechadura e a maçaneta da porta girando lentamente.

— Hanna? — A voz familiar ecoou pelo quarto.

— Mãe?

— Oi, querida! — Ela trancou a porta atrás de si, após se certificar de que não tinha sido vista. Seus braços se entrelaçaram ao redor dos meus ombros, e pude sentir o afago e o cheiro dos quais sentia tanta falta

— Mãe, você está bem? Por que demorou tanto?!

— Estou bem, sim. Me perdoe por não ter conseguido vir te ver antes, querida! — Ela secou as lágrimas insistentes que caíam dos meus olhos marejados. — Mas me diga, você está bem? Aquele homem não te fez mal, fez?
        
Seu desespero era nítido enquanto analisava cada parte do meu rosto. Foi então que percebi que era ela quem estava machucada.

— O que foi isso no seu rosto, mãe? Foi o Dylan?
         
A cicatriz roxa sob o olho me fez acreditar que ela havia levado um soco, e as manchas vermelhas no pescoço indicavam que fora sufocada.

— Aquele homem é um monstro! Mãe, como pôde admitir que ele lhe fizesse isso?! — Meu coração se dilacerou. — Vamos, precisamos denunciar ele!
         
Minha mãe não se moveu enquanto eu a puxava, desesperada. Na verdade, a ficha caiu para mim quando ela se manteve imóvel. Seus olhos marejados contagiaram os meus, e o nó na garganta ao vê-la chorar quase me sufocou.
         
O choro dela era profundo, mas abafado. Estava claro o que ela pensava, e o que eu já sabia. Dylan Clifford era um homem poderoso demais para ser preso por agredir uma mulher. Sem ele, nós não tínhamos contatos ou relevância para as outras pessoas. Ele seria inocentado e estaríamos definitivamente perdidas.
          
Mas como... Por quê? Como chegamos a essa situação?

— Ouça querida — Minha mãe ainda tinha a voz chorosa, mas se esforçou para se recompor e me puxou até a cama. Ela me sentou à sua frente e eu apenas acompanhei seus movimentos imune e sem reações próprias. — Vou te contar algo que não te contei naquele dia. Quando me casei com Dylan Clifford, não foi por amor, foi por necessidade. Eu sabia que ele não seria um marido fiel para mim. Na verdade, eu sabia que ele me traía. Eu também o vi com aquela mulher, no dia em que você tentou me contar, mas eu não pude fazer nada. Apenas engoli calada. — Ela suspirou fundo, tentando ganhar mais forças para continuar. — Depois que nós fugimos após o dia do incidente, comecei a receber cartas com ameaças e elas só pioravam. Comecei a receber fotos minhas e suas, em momentos aleatórios do nosso dia, e percebi que estávamos sendo observadas. Fiquei desesperada. Não estávamos seguras morando com seus avós. E também poderia acabar os colocando em perigo. Como eu poderia nos proteger? Ou melhor, como iria te proteger? Mesmo que eu denunciasse as ameaças a polícia, ou que soubesse quem era o autor das cartas, ainda sim, a pessoa deixou claro que tinha mais gente envolvida, então se eu fizesse algo, sofreria as consequências.

— Foi quando o Dylan apareceu?

— Sim. Confesso que fiquei encantada com o seu interesse por mim. Eu também era mulher, afinal. Mas eu não esperava muito dele, apenas precisava da sua proteção, e isso ele pôde me prometer e cumprir. Viver ao seu lado, como um fantoche, era só para garantir que ele não mudasse de ideia e continuasse nos protegendo. — As lágrimas caíram lentamente sobre meu rosto quando a voz dela falhou, chorosa. Ela se considerava um fantoche?

— Não me odeie, Hanna. Eu não imaginava que estaríamos nessa situação agora. O mesmo homem com contatos e dinheiro que foi capaz de inventar uma nova identidade para nós agora é o motivo de estarmos presas ao seu poder. Eu... eu...

— Eu não te odeio, mãe. Na verdade, eu consigo te entender melhor agora, mas não se preocupe. Vou encontrar um jeito de nos tirar dessa situação. Acredito que tem bem mais coisa por trás dessa história.
          
Eu tinha plena certeza disso.
De repente, um pensamento insistente veio à cabeça.

— Mãe, o Dylan já foi casado, certo? Sabe por que a esposa dele morreu?

— Na verdade, não. Apenas que morreu jovem. Mas talvez Agatha saiba algo, já que a serviu durante muito tempo.
         
A Agatha… Eu precisava falar com ela.
         
Subitamente, a maçaneta da porta girou novamente, e meu coração gelou como a fisionomia da pessoa que apareceu.
          
Ele entrou furioso, e eu mal tive tempo de raciocinar quando ele veio até minha mãe com a mão levantada para lhe bater.

— EU TE MANDEI FICAR LONGE DESSE QUARTO! COMO OUSA ME DESOBEDECER, SUA...
          
Meu rosto adormeceu com o peso da tapa que me atingiu, mas me senti grata por ter sido rápida o suficiente para levá-la no lugar dela.

— HANNA! — A voz da minha mãe, abafada em choro, soluçava em lágrimas.

— COVARDE! — Rangi os dentes ao falar.

— Eu só não vou te dar outra tapa, sua garota malcriada, pois preciso de você inteira até o seu casamento.
          
Ri, desacreditada, com seu comentário.

— E acha que seu plano vai dar certo? Escolheu as mulheres erradas, Sr. Clifford. Todos vão saber quem somos quando verem minha mãe. Esconder uma falsa sósia pode ser possível, mas duas já é o cúmulo da coincidência.

— E você acha mesmo que ela quem vai aparecer no seu noivado? Pobre criança!

— Venha, Lorenna, vamos antes que eu decida me livrar de verdade de você! — A maneira como ele puxou minha mãe pelo braço e os olhos suplicantes dela, me pedindo para ficar quieta e deixá-los ir, me quebraram por dentro.
          
As paredes ecoaram o choro desesperado que eu tentava conter enquanto abraçava a mim mesma.

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