CAPÍTULO 32

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Sploc-Sploc.

Abri meus olhos assustada.
         
Mesmo após ter conseguido tirar um cochilo, o sono continuava leve, perturbado. Qualquer ruído era ampliado, ressoando pelo quarto vazio. Estávamos hospedados na casa do Sr. Stewart a pedido dele; não havia necessidade de irmos a um hotel, disse. A proposta tinha sido prontamente aceita por Dylan, que deixou claro que estaríamos voando cedo para casa no dia seguinte. Ele iria me levar de volta com ele!
         
E aqui estava eu, em um quarto frio e de cores pálidas, sentindo-me inquieta, desconfortável e sozinha.

Sploc- Sploc

         
Levantei-me, o coração disparado. Não era um sonho. Alguém estava jogando pedras na minha janela.
         
Fui até a janela, mal contendo o riso ao ver Archie lá embaixo, fazendo um gesto para que eu descesse. Que costume era esse de jogar pedras na minha janela?

— Eu tenho telefone, sabia? — Disse em voz baixa, apontando para meu celular com um sorriso.
        
Me inclinei, passando metade do corpo pela janela e me apoiando no estreito rodapé. Não era alto, mas parecia uma fuga emocionante.

— Vem, pula! — Ele abriu os braços, indicando que me seguraria.
        
Apenas confiei. Pular para os braços de Archie era maluco, mas eu também devia ser.

— Por que não me ligou? — Perguntei quando cheguei em baixo.

— Gosto da moda antiga. Tem mais emoção.
        
Ele sorriu como um menino travesso. Com um gesto natural, sua mão deslizou para minha cintura, o que fez meu coração disparar. Eu me sentia mais perdida do que jamais estivera.

— Quero te mostrar uma coisa. Vem comigo.
        
Como sempre, o segui sem questionar. Parecia acorrentada aos encantos dele, e Archie parecia sentir o mesmo, agindo como se fosse algo natural, sem considerar o amanhã.
       
Não demorou até chegarmos ao quintal da casa dele. O ambiente era familiar, como um fragmento congelado do passado. Eu passei tantas tardes ali! Antes, o quintal era uma bagunça, repleto de tábuas, ferramentas, as coisas que Archie usava para criar suas invenções. Agora, tudo estava vazio, exceto pelas árvores, plantações e o lindo jardim que crescia ali.

— Nossa... Quanta nostalgia! — Falei, absorvendo o ambiente.

— Passávamos muito tempo aqui, lembra? — Archie sorriu, perdido em suas próprias lembranças.

— Ainda tem seu telescópio?
       
Ele hesitou antes de responder.

— Não, me desfiz dele. Guardá-lo parecia sem sentido.
       
Aquela resposta me deu uma leve tristeza, mas logo desapareceu ao ver Archie estendendo algo delicado em minha direção.

— Esse era o presente que eu ia te dar no dia que me declararia, quando voltasse de viagem com meus pais. — Ele abriu a mão, mostrando uma pulseira delicada, brilhante.

— Archie...

— Usei a oficina do Sr. Charles para fazer isso. Quando contei minha intenção, ele nem hesitou em me ajudar. Escolhi os enfeites pensando em você.

— Você que fez isso?

Ele assentiu.

— Eu que montei. — Archie exibiu a pulseira. — Tem notas musicais, um pequeno piano, umas florzinhas... e tangerinas, claro.

— Tangerinas! Archie, você é louco! — Ri, tocando levemente os enfeites. — Aliás, por que você sempre me dava tangerinas do nada?
        
Ele coçou a cabeça, envergonhado.

— A primeira vez foi quando você disse que amava o cheiro cítrico do meu perfume. Quis ter algo que lembrasse meu cheiro, mas ao provar um limão fez uma careta tão fofa que nunca esqueci. Quando te dei uma tangerina, você adorou, disse que era sua nova fruta favorita. Então sempre que podia, eu te dava uma, só para lembrar você de continuar gostando do meu cheiro.

— Isso é tão brega! — Murmurei, mas não conseguia parar de sorrir.

— Brega? — Ele riu. — Preciso ser brega para combinar com você.
       
Ele segurou minha mão, colocando a pulseira em meu pulso, os dedos dele demorando um instante a mais nos meus. O toque dele fazia o mundo todo desaparecer.

— É linda! — Disse, levantando o braço para ver a pulseira brilhar sob a luz fraca da noite.

— Eu amo você, Hanna Clifford, Sierra Campbell... Quem quer que você seja. Eu... Eu amo você.
         
Meu coração parou por um segundo, e meus olhos se encheram de lágrimas. Como? Quando...?
        
Segurei seu colarinho e o puxei para perto, ficando na ponta dos pés para alcançá-lo. Beijei-o.
        
E dessa vez, foi ele quem demorou um segundo para responder, talvez surpreso. Quando me afastei e voltei a apoiar os calcanhares no chão, ele me puxou para si, sua mão deslizando para meu pescoço, aprofundando o beijo com uma intensidade que me fez flutuar.
         
Senti o calor dos lábios dele, a paixão que tomava conta de nós dois. Suas mãos em minha cintura me deixaram sem fôlego.

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O beijo agora era mais lento, com pequenas pausas, como se estivéssemos compondo uma música, cada pausa uma nova melodia, cada toque, uma nota mais alta e vibrante.

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Por fim, fomos até o pequeno muro do quintal. Eu fiquei sentada, e Archie em pé, próximo de mim, em uma posição onde nossos rostos estavam na mesma altura. Aquela sensação de estar finalmente em pé de igualdade me deixou ainda mais feliz. Nossas conversas, provocações, nossas carícias...Senti finalmente, como se fossemos um casal de namorados, como se pudéssemos recuperar um pouco do tempo perdido, se provocando e se amando.
         
Era impossível não me perder em cada beijo. Senti arrepios, calafrios… Eu tinha perdido a noção do tempo, do lugar, até do perigo que corríamos por estarmos ali do lado de fora.

Mas esperei tanto por esse momento, que parecia certo correr o risco. E entre a razão, escolhi ser irracional e apenas o beijar ainda mais.

— É melhor entrarmos. — Sussurrei após certo tempo.

— Por quê? — Ele roçou seu rosto no meu de forma carinhosa.

— E se alguém nos vir? O que diríamos? Para sua família, nós mal nos conhecemos. Ou como Dylan disse: eu sou a apaixonada.

— Sempre tem razão, não? — Provocou um sorriso nos lábios.

— Acho que sou a mais inteligente. — Blefei.
        
Ele riu, e ao invés de rebater, me deu outro beijo, rápido, intenso. Parecia o fim daquele momento, mas era só o começo.

— Vamos entrar? — Ele me olhou com um olhar divertido.

— Vamos.

— Mas logo teremos todo o tempo do mundo.

— Como assim?

— Quando nos casarmos.

— Casar? Archie, sabe que nosso noivado não é tão verdadeiro, não sabe?

— Para mim é. Não vou te perder de novo. Mesmo que tenha que mudar de nome e fugir com você.
        
Meu sorriso era imenso enquanto o olhava. Como era possível amá-lo tanto?

— Quando soube que gostava de mim? Me refiro a quando éramos apenas dois jovens, crianças. — Perguntei, me levantando para que ele voltasse a ser o mais alto.

— Eu sempre soube. Desde que comecei a sentir sua falta em momentos pequenos, a sentir ciúmes por nada e a ficar nervoso quando você estava perto. De repente, você era a garota mais linda e especial que eu já tinha visto. E eu queria, mais do que qualquer coisa, que você fosse minha garota.

— Demorei tanto a perceber, e você ainda assim esperou. Obrigada.
      
Ele apertou minhas mãos, e vi em seu olhar um reflexo do meu próprio receio. Eu temia tanto quanto ele que algo desse errado, que tudo isso fosse apenas um sonho prestes a desaparecer.

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