CAPÍTULO 42

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Archie

— Eu chamei vocês aqui hoje para conversarmos sobre o futuro da nossa fábrica. — Meu pai iniciou seu discurso com aquele tom imbatível que sempre usava. Apesar de tentar disfarçar, sua saúde debilitada era evidente. No entanto, a arrogância e a teimosia permaneciam intactas. — Meu advogado trouxe alguns papéis para que vocês possam assinar. Agora que teremos um sócio, algumas coisas terão que mudar.

— Três porcentos? Só isso? Perdão, mas não me parece muito justo. — John parecia indignado, o que não era novidade.

— Acho que é o suficiente, considerando que você mal coloca os pés aqui.

— Eu viria mais, mas talvez não seja tão útil, já que o Archie parece resolver tudo.
           
Engoli em seco, focando meu olhar no contrato à minha frente, mas não conseguindo absorver nenhuma palavra.

— E você, Archie? O que acha do seu contrato? — Meu pai voltou-se para mim.

— Acho que está sendo precipitado demais ao dar tanto poder ao Dylan Clifford. Somando nossas porcentagens, não teremos muita voz ativa contra ele. Não é estranho ser dono de algo e parecer não ter controle?

— Está insinuando o quê? Clifford é um homem digno. Eu já pesqu...
          
Meu celular começou a vibrar, interrompendo meu pai. Por reflexo, o peguei e vi de relance o nome da Rebecca. Ignorando a chamada, voltei minha atenção ao discurso do meu pai. Mas então, foi o celular do John que tocou — e o dele, claro, não estava silencioso.

— Vamos ficar assim a tarde toda? — Meu pai explodiu. — Atenda ou desligue esse celular de uma vez!

— Desculpe, pai... É a Rebecca, amiga da Hanna. — John respondeu, me lançando um olhar significativo.

— Ela também está me ligando.

— Atenda, então! Deve ser importante. — Meu pai resmungou, impaciente.
          
John se afastou um pouco, atendendo a ligação. Após alguns segundos, voltou, colocando o celular no viva-voz e gesticulando para que ouvíssemos.

— Achou mesmo que seu pai teria feito algo daquele dia? — A voz rouca e familiar atravessou o espaço como um soco. Era clara, embora distante. Era...

— Thomson. — Meu pai murmurou, os olhos arregalados.

— Tudo o que ele mais amava era a família. Era um bom homem, mas, assim como eu, era ganancioso. Esse foi seu maior pecado. Fiz uma proposta irrecusável: criaríamos nossa própria empresa e não dependeríamos de mais ninguém, muito menos dos Stewart. Ele investiu tudo o que tinha no meu plano.
          
Um silêncio tenso dominava a sala, quebrado apenas pela respiração pesada do meu pai.

— Mas o Clifford tinha outros planos. Ele queria destruir a empresa e eliminar Luke Stewart. Fiz o trabalho sujo por ele. Contratei um "bode espiatório" para me proteger, caso algo desse errado. E seu pai, Hanna, estava no lugar certo para assumir a culpa.

— Seu canalha. — A voz baixa de Hanna soou ao fundo, e eu quase perdi o controle.

— Que seja. Mas foi seu pai, Hanna, quem me ajudou, mesmo sem perceber. Ele conhecia os movimentos comerciais da empresa e me deu as informações necessárias para atacá-la. Porém, no dia em que fui na empresa para colocar meu plano em ação, as coisas não saíram como planejado. Já era tarde da noite, mas Luke estava lá naquele dia, prestes a me descobrir, por isso precisava me livrar dele. Cobri o meu rosto e o ataquei sem planejar. Achei que o tinha matado. Por um número privado, liguei para o seu pai e o atraí até o local, para que ele estivesse presente na cena do crime quando a polícia chegasse. E, parece que a sorte estava do meu lado. Luke sobreviveu, mas só lembrava de ter visto o Campbell no local... O melhor amigo do seu pai nem viu o rosto de quem o atacou, mas condenou a primeira pessoa que os policiais o apresentaram como suspeito. E ainda levou a fama de ter desviado dinheiro da empresa.

— Como pode não sentir nenhum remorso? — A voz de Hanna falhou em um misto de incredulidade e raiva.

— Eu só estava seguindo ordens... Dylan é o verdadeiro culpado.
          
A ligação caiu abruptamente, mas antes ouvi um sussurro feminino. Rebecca.
         
O silêncio que se seguiu foi ainda mais esmagador. Meu coração apertou. Meu pai não era culpado, mas também não era inocente. E Hanna... Ela estava em perigo.
Levantei-me de repente, minha mente um turbilhão. Precisava encontrá-la.

— Eu vou com você. — John segurou meu braço, antes que eu saísse. Assenti, incapaz de falar.

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Meu carro... Por que tinha estacionado tão longe?

— Archie, calma! Espera! — John me alcançou.

— Você tem noção do que está acontecendo? Hanna está com aquele homem! Eu não tenho tempo a perder!

— Eu sei... Eu estava lá, lembra? — Ele respondeu com firmeza, me segurando pelos ombros.

— Então me deixa passar!

— E para onde você vai? Você nem sabe onde elas estão! — John respondeu, com a voz carregada de razão. — E pelo que parece, Rebecca também está envolvida nisso.
          
Abri a porta do carro com violência, mas antes que pudesse entrar, ele me empurrou contra a lateral do veículo.

— Escuta! — Ele me encarou, sua expressão severa. — Eles não vão fazer nada agora. As meninas são reféns, Archie. Provavelmente estão traçando um novo plano. Rebecca nos ligou. Eles sabem que sabemos a verdade.
          
Eu estava ofegante, mas suas palavras começaram a fazer sentido.

— Agora é o momento de agir com calma. Precisamos nos preparar, Archie. Quando eles derem o próximo passo, estaremos prontos. Entendeu?
          
Era a primeira vez que John assumia o papel de irmão mais velho. Por um instante, senti uma pontada de gratidão em meio ao caos.
         
De repente, toda a minha resistência se desfez. O abracei com força, lágrimas escapando sem controle. Meu mundo parecia desmoronar, mas, naquele momento, ele estava ali para me manter de pé.

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