Capítulo 20

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Capítulo vinte

Pilar

— Heitor LeBlanc  é insubstituível... — falou cada silabada pausadamente sem desviar os olhos arregalados de mim.

— Eu também achava isso... mas aprendi a confiar em tudo que meu pai diz. — Pisquei para ele.

— Uauuu, nunca imaginei ouvir uma coisa dessa, e daria qualquer coisa para meu pai ouvir também.

— Em breve ele  ouvirá, e acredito que da boca do meu próprio pai. Vou contar para vocês: os dois são iguaizinhos, nunca vi. Às vezes são 23h Eduardo levanta e vai para o escritório anotar uma ideia, fazer alguma alteração, exatamente como meu pai. Muitas vezes preciso arrancá-los do escritório para podermos dormir. — A cara da mal-educada foi impagável e minha satisfação foi muito bem-vinda.

— Está trabalhando até que horas Du, e a faculdade? — a tia perguntou.

— Estou dormindo em São Paulo tia, na casa da Pilar.

— Eduardo praticamente mora comigo; e com meu pai.

— Vamos colocar a mesa, que o almoço está pronto... chega de conversar com a barriga vazia, coitada da Pilar que saiu lá de São Paulo para passar fome aqui.

— Imagina, comemos um monte de petiscos.

— Mas agora é hora do show, pois essa minha cunhada cozinha como ninguém!

Foi uma verdadeira maravilha, tirando a amiga, mas entendi que eles estarem ali era uma forma de comemorarem juntos a nova chance que sr. Manuel estava tendo. Sofreram juntos, agora comemoram juntos também.

No meio da tarde os amigos foram embora, os tios do Eduardo ficaram mais um pouco, tomamos algumas cervejas e jogamos conversa fora. Já era noite quando se despediram, era hora de ir também, levantei e falei para Marina:

— Foi maravilhoso, amei tudo de verdade, a sua família é maravilhosa, obrigada por me receber tão bem. 

Pra onde pensa que está indo, mocinha? — a mãe do Eduardo bradou. — Não vai dirigir depois de tantas cervejas, você está bem alegrinha. Se não quiser dormir aqui na minha casa eu entendo. Mas não vai sair daqui dirigindo, menina.

— Você pode dormir no quarto eu durmo aqui na sala.

— Muito obrigada Arthur, mas não posso tirar você da sua cama.

— Se quiser te empresto um pijama para dormir mais confortável. Fica. Minha mãe fez bolo de fubá cremoso, é uma delícia. — A voz doce e a meiguice de Leticia era gostoso de se ter.

— Ela vai ficar sim — Eduardo falou.

— Vem, vamos arrumar algo para você. — A menina me pegou pela mão e puxou para o quarto da mãe. — Desde que meu pai foi preso eu durmo com a minha mãe. Eu dividia o quarto com meus irmãos.

— Vi que tem uma construção lá em cima.

— Sim, serão nossos quartos, já estão sendo construídos há muito tempo e não falta muito, o problema é que tivemos muitos problemas financeiros.

— Essa casa já era para ter sido terminada há uns dez anos. — Olhei para Marina que entrou em seu quarto com uma xícara de café fumegante e me entregou. Meu cunhado teve problema com a justiça, se envolveu com coisa errada,  às vezes comprava fio roubado, meu marido chegou a brigar feio com ele. Ele ofereceu fios roubados  pra gente comprar, aí menina, não prestou, né? Manuel tem verdadeiro horror a qualquer coisa errada, ele é eletricista, ele conseguia os fios e vendia mais barato, a maioria das vezes ele pegava o serviço da casa da pessoa e incluía o material. Mas um dia ele foi mais ganancioso,  disse que os caras ofereceram para ele ajudar a descarregar o caminhão roubado e ficar com uma parte. E a polícia chegou bem na hora. Meu cunhado dizia que se ele não ficasse outra pessoa ficaria, que não estava roubando nada. Mas enfim, quando ele foi condenado seus filhos eram pequenos e Marcia não trabalhava, por ser autônomo e não contribuir não tiveram direito a nada. Manuel assumiu todo o sustento da família do irmão.

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