Capítulo Vinte e Cinco

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Sakura desviou os olhos das páginas de seu livro e encarou mais uma vez a porta de madeira do seu quarto. Era tarde, provavelmente umas onze da noite. Naquela manhã, o médico fajuto comentou que Sasuke e seu pai se encontrariam pessoalmente para resolver os pormenores e tentarem um consenso. Finalmente, um consenso.

Em seguida, a moça fora levada para outro local, onde viu as horas rastejarem-se lentamente e sua aflição crescer em mesma proporção.
Mais tarde, ao retornar à mansão, pôde ouvir o tumulto da chegada do homem de cabelos negros, mas diferente do que imaginou, ele não foi ao seu encontro para lhe comunicar o que fora decidido e em qual tipo de situação se encontrava. Mais uma vez era deixada às mínguas da própria ignorância.

No entanto, sua ansiedade e nervosismo já não lhe davam mais paz, o conhecimento de que a única pessoa que você tem como família talvez não se importe minimamente com você é aterrorizante. Inquietante. Digerir o fato de que ainda estava presa nessa situação, mas agora completamente sozinha, sem ninguém a quem recorrer e sem ninguém que se importe verdadeiramente era tão difícil.

Só ela, assustadoramente só.

Talvez, esperasse que entrando por aquela porta, ele lhe dissesse que seu pai estava mesmo apenas jogando verde, uma ínfima esperança. Pela primeira vez, queria que Sasuke tivesse razão, que seu pai não falasse sério sobre deixá-la a mercê da própria sorte. Queria ouvir isso. Queria muito que ele lhe dissesse isso, pois o contrário doeria demais. Temia não suportar toda essa angústia em seu peito, todo esse sofrimento. Temia definhar de tristeza e padecer em solidão, pois não era forte o suficiente para lidar com tudo isso. Era tudo pesado demais, mórbido demais.

Fechou o livro e em um movimento alcançou as suas muletas, não, ela não conseguiria. Enlouqueceria de aflição e angústia. Precisava de respostas, boas ou ruins que fossem, mas não aguentava mais o vazio da incerteza.

Com as muletas bem apoiadas entre os braços magricelos, Sakura se rastejou pelos corredores. A completa penumbra da casa e a tensão de se encontrar fora de sua zona segura tarde da noite trazia suor viscoso em suas palmas. O pensamento de que aquele doido que tentou entrar em seu quarto poderia estar à espreita, apenas esperando um passo falso seu lhe causava calafrios, mas a sua sede por respostas não a deixou vacilar, e talvez, saber que o homem de cabelos negros estava em casa também ajudava, de certo modo. E era ele o seu objetivo, deveria de encontrá-lo.

Apesar de todo o tempo naquele lugar, nunca fez questão de saber onde era o quarto dele. Imaginou que poderia ser no terceiro andar, já que é a única área que fora proibida de acessar, contudo, dificilmente conseguiria subir devido ao capacho que ficava lá plantado, e nas condições em que se encontrava tentar passar despercebida não era nem sequer uma opção.

Suspirou pensativa quando chegou aos pés da grande escada. Poderia subir ao segundo andar mas depois seria enxotada de novo pra baixo. Não tinha nada de muito específico lá: uma sala de música, alguns quartos completamente sem móveis e outros com lençóis brancos cobrindo os poucos que possuíam. Era bem vazio, até. Na verdade, toda essa casa parecia meio abandonada, possuindo apenas o básico. Era enorme sim, mas fria. Diria que talvez a biblioteca ainda preservasse um pouco de vida remanescente mas só, de resto era tudo muito impessoal.

Tocou o corrimão com as pontas dos dedos finos enquanto refletia sobre subir ou não, devido as muletas era sempre muito cansativo e barulhento, e as chances de obter algo naquele momento eram bastante baixas. Verteu os olhos em direção ao corredor da ala oeste, sabia que ao final dele se encontrava aquela espécie de escritório onde entravam em contato com seu pai. Quais eram as possibilidades de conseguir descobrir algo naquela bagunça de lugar?

Apertou os lábios em nervosismo, não aguentaria esperar até amanhã ou até que seu algoz tivesse boa vontade o suficiente para lhe revelar o que lhe aguardava, deveria ter alguma pista sobre aquele encontro perdida na baderna daquele loiro idiota. Com isso em mente, rumou em passos comedidos em direção àquele local, tentou ser cuidadosa, não desejava chamar atenção dos guardas que faziam a ronda noturna.

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