Ele se afastou novamente, enquanto o silêncio entre eles se estendia, denso como fumaça.
Sasuke apagou o cigarro contra o parapeito, sem pressa, sem olhar para ela. O som do atrito — seco, metálico — pareceu mais alto do que deveria.
Sakura ainda não sabia se aquilo tudo era real ou apenas uma divagação. Talvez ambos. Talvez nenhuma das coisas.
— Por que eles... — murmurou, mais para si do que para ele. — Por que eles se odeiam?
Ele virou o rosto apenas o suficiente para encará-la de soslaio. Havia algo nos olhos dele que a incomodava mais do que raiva ou desprezo. Aquilo era... vazio.
— Não foi sempre assim — proferiu como se escolhesse bem as palavras — A tensão, a guerra, sempre existiram desde os tempos dos nossos avós. Eram dois colossos do crime disputando por domínio. Mas o ódio nunca foi algo pessoal.
Sakura engoliu em seco, o estômago revirando de novo. O peso do momento afundava nos ossos como um inverno antigo, que voltava para lembrá-la de que as coisas nunca estiveram realmente resolvidas.
— E o que mudou isso? — os olhos verdes tremeram — Quando foi que essa guerra virou algo pessoal?
— Meu pai sempre foi implacável em batalha. Um gênio como poucos — começou, a voz distante, sem peso algum. — Não hesitava. Não recuava. Matava sem pressa, como quem resolve um problema técnico. Foi preciso muito pouco para que meu avô renunciasse e passasse a ele o posto de Oyabun. Ninguém ousava contestar. Era a ordem natural das coisas, afinal.
Sakura não disse nada.
Nem sequer piscou.
Ficou ali, imóvel, com os olhos fixos nele — não por coragem, mas pela simples impossibilidade de olhar para qualquer outro lugar.
— Mas meu pai era diferente. Tinha seus próprios métodos. E não media esforços para alcançar o que queria. — continuou, a voz ainda sem emoção. — Foi quando decidiu quebrar uma regra não dita. E foi assim que tudo começou.
— Uma regra... não dita? — questionou a rosada, as sobrancelhas levemente franzidas.
Sasuke se acomodou melhor no batente da janela, os dedos girando o isqueiro entre as mãos com uma calma ensaiada.
— Nossos avós se conheciam. Não sei se chegaram a ser amigos, exatamente... mas havia uma regra silenciosa entre eles: familiares civis estavam fora disso. Eram intocáveis.
Sakura não respondeu.
Mas algo dentro dela se moveu — um desconforto fino, agudo, como um prego empurrado devagar entre as costelas.
— Uma vez, um dos capos sugeriu uma negociação com os italianos. Falou que talvez fosse hora de diálogo... de paz. Mas era só uma distração. Meu pai já tinha outros planos.
Ele hesitou por um segundo. Só um.
Mas ela viu.
Sutil demais para alguém despreparado. Um piscar de olhos prolongado, uma tensão breve no maxilar.
Quase nada.
Mas nela, acendeu o alerta. Aquele tipo de silêncio que precede desastres.
— Foi montada uma emboscada — continuou ele, agora com a voz um tom abaixo, como se falasse para dentro. — O plano... resultou na morte da sua mãe.
Sakura engoliu em seco. As palavras de Sasuke caíram pesadas, como pedras jogadas em um lago quieto — espalhando ondas por toda a sua mente.
Morte da mãe.
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Epiphany
FanfictionSakura, que fora criada a vida inteira em uma redoma de vidro, é sequestrada por Uchiha Sasuke. Intrigas, segredos, acordos, horrores do crime e uma inocente. A história conta a epifania de Sakura, onde descobrirá as verdades sobre si mesma, seu pa...
