Ele tinha razão.
É claro que tinha.
Talvez fosse algo intrínseco de sua essência: tentar sempre ver o lado bom das pessoas, acreditar que todas possuíam ao menos uma pequena parte de bondade dentro de si.
Talvez ainda fosse ingênua demais, jovem demais, inexperiente demais. Talvez não tivesse quebrado a cara o suficiente em seus dezoito anos de vida — ou talvez ainda não tivesse sido decepcionada o suficiente para deixar de acreditar completamente nas pessoas.
E talvez — muito provavelmente — seria a sua própria empatia a levá-la à ruína: a fazê-la hesitar diante do perigo, mais uma vez incapaz de escolher a si mesma, fazendo-a perecer nas mãos de seu inimigo, impossibilitada de reagir se isso significasse ter que machucar um outro alguém.
Certamente, sentia-se patética na mesma medida em que tinha um certo orgulho das esperanças infantis que ainda carregava consigo.
Poucas coisas em sua vida mostravam-se verdadeiras diante da epifania que vinha vivendo. Gostava de pensar que, pelo menos, as convicções que possuía sobre si mesma eram reais.
Sua empatia era real. Suas esperanças eram reais. Seus sonhos eram reais. O seu amor pela vida era real.
Talvez toda essa situação já devesse tê-la mudado. Seria o correto? Sakura realmente acreditava que ninguém é cem por cento ruim — logo, era incontestável que ninguém fosse cem por cento bom.
Talvez a vida ainda estivesse tecendo o seu destino, e pode ser que venha a vivenciar situações em que deverá escolher ser uma má pessoa.
No final, somos isso, não? Somos o resultado de todas as escolhas que fazemos diante das dificuldades que a vida nos impõe.
Os olhos verdes rolaram com calma em direção ao homem sentado diante de si, um questionamento específico rodando a sua mente: Me diga, Sasuke, quantas dificuldades você passou para ter feito tantas más escolhas?
Suspirou audivelmente. Ele não era um coitado — fez questão de deixar bem claro. Talvez devesse apenas parar de pensar, de ser racional — irracional —, parar de procurar desculpas, motivos, e sentir empatia. Parar de procurar luz onde não podia enxergar um palmo além do próprio nariz.
Por certo, ele não era a pessoa mais coerente do mundo e possuía uma longa lista de atitudes questionáveis — mas como poderia dar tanto peso a isso, se, no final das contas, não tinha a mínima noção das razões escondidas por trás de suas intenções?
Eram motivos pessoais.
Era tudo o que se sabia até ali. Toda aquela situação — tudo o que viveu no último mês — era algo pensado e calculado milimetricamente para beneficiá-lo de alguma forma.
Portanto, baseado em quê o coração de Sakura continuava compelido a tentar achar um atalho, uma justificativa para os horrores cometidos? Para o seu próprio sofrimento injustificável?
Oras, talvez a sua própria tolice se sobressaísse de longe à sua empatia.
Moveu-se levemente, pequenas batidinhas foram dadas no joelho com a mão direita fechada em punho. Aquela definitivamente não era uma posição que deveria manter por muito tempo. O ar estava seco; o banheiro, agora, parecia bem menor do que realmente era.
Nada fora dito por ele após suas últimas palavras, e Sakura se sentia vulnerável demais para contra-argumentar. Afinal, no fim das contas, ela não o conhecia. Não o conhecia minimamente.
Levantou devagar, uma pequena careta de dor acompanhando o movimento. Talvez tenha confessado para si mesma a necessidade de colocar um pouco de distância entre eles. Tentou se aproximar, tentou confiar. Talvez a ideia que teve minutos mais cedo soasse completamente absurda em sua cabeça agora. Talvez.
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Epiphany
FanfictionSakura, que fora criada a vida inteira em uma redoma de vidro, é sequestrada por Uchiha Sasuke. Intrigas, segredos, acordos, horrores do crime e uma inocente. A história conta a epifania de Sakura, onde descobrirá as verdades sobre si mesma, seu pa...
