Capítulo Trinta

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— Eu... conheci você muitos anos atrás. — começou ele, com o olhar na porta do banheiro.

— Nos conhecemos? — perguntou desconfiada, ela não tinha lembranças disso.

— Não, não nos conhecemos. Eu te conheci. Você era muito nova na época, não se lembra.

— Então, aquelas coisas que meu pai disse, vocês realmente eram amigos?

— Amigos — riu desgostoso — Qual a probabilidade disso ser verdade?

— Eu não sei, é por isso que estou perguntando.

— Sakura as nossas famílias tem um longo histórico de chacinas, de vingança e ódio. — respondeu contragosto — Talvez os nossos avós tenham sido amigos em algum ponto da vida deles, mas tudo que vivenciei na minha foi sangue e morte.

— E o que desencadeou tudo isso... essa guerra... você sabe?

Sasuke se afastou, abrindo a janela do banheiro antes de acender um cigarro e se encostar novamente na pia.

— O que move o mundo desde sempre, dinheiro, poder. Nada é mais argiloso do que um homem poderoso que se sente traído. — respondeu após dar um longo trago.

— Está insinuando que a minha família teria traído a sua? — perguntou altiva.

— Não estou insinuando nada Sakura, eu já disse, eu não sei os exatos detalhes de como tudo começou. O jogo já existia, eu só cresci tendo que aprender a jogar.

— Então me conte o que você sabe... a razão que me trouxe até aqui. Tem haver com o que houve com a sua família?

O homem tragou longamente mais uma vez, os olhos negros fixos naquela porta de madeira maciça. Sakura podia quase ver em sua expressão a linha tênue que dividia a sua vontade em contá-la o que quer que fosse ou simplesmente sair dali. Mas a rosada não permitiria que ele desconversasse dessa vez, não quando estava tão perto de descobrir um mínimo das motivações que a fizeram passar por tudo isso.

— Sasuke — alcançou novamente a mão dele, recebendo um olhar de canto em retorno — Me conte, por favor.

Sua resposta foi um suspiro pesado seguido de um molhar de lábios rápido. Os olhos negros ainda cravados em sua face não fizeram com que fraquejasse, pelo contrário, estimulou um aperto carinhoso na mão calejada, um pequeno incentivo para que ele prosseguisse.

— Já se perguntou do porquê o seu pai a manteve alheia à tudo isso até hoje?

Sakura já se perguntou sim, talvez ele tenha tão pouca consideração de si, que a mesma nem valia o esforço, quem sabe.

— Para me proteger? — desconversou, observando uma tatuagem em seu antebraço.

— Informações são valiosas, Sakura. Nesse mundo quanto mais informações uma pessoa possui, mais corda tem enrolada no próprio pescoço.

— Então você também acha que foi para me proteger?

— Eu acho que seu pai é burro e inteligente pra caralho. Não sei se faria muito diferente.

— Eu não consigo entender como você pensa.

— Seu pai tem muitos inimigos, pra dizer o mínimo, você correria riscos bem piores se soubesse de tudo que o envolve, não acha?

— Não acho. Eu certamente estaria mais preparada se soubesse o que me aguarda.

— E faria o quê? Se protegeria com uma escova de dentes, John Wicka?

— John... o quê?

— Eu poderia dizer que você vê muitos filmes, mas nem isso é verdade. — suspirou, levando o cigarro à boca mais uma vez.

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