Naquela manhã, o vento castigava as copas das árvores sem trégua, uma dança movida pela força impiedosa da natureza.
A chuva torrencial despejou as primeiras gotas ainda durante aquela madrugada, como se o céu estivesse desabando em luto. O som ritmado da água contra os telhados tradicionais compunha uma melodia melancólica, e o cheiro da terra molhada se espalhava pelo ar, denso e carregado.
Lá fora, o jardim se tornava um rio, e as janelas embaçadas escondia o rosto atento que, por trás do vidro, acompanhava em silêncio a fúria dos elementos.
Sakura não sabia ao certo o que buscava ao observar a tempestade — talvez um sinal, talvez apenas consolo. Mas havia algo de reconfortante naquela fúria do mundo lá fora, como se a natureza finalmente expressasse, em forma e som, aquilo que ela carregava por dentro há tanto tempo.
Como era de se esperar: não conseguiu dormir bem aquela noite.
Todos os acontecimentos da noite anterior, todas aquelas informações ainda rondavam a sua mente, colocando-a em uma espécie de bruma confusionária. Era como tentar enxergar através do vidro embaçado: tudo parecia ali, ao alcance, mas turvo, distorcido, inacessível.
Era assim que se sentia. Fora de órbita. Inadequada.
A verdade dos fatos era tão distante daquela realidade simplista em que fora criada. Agora, tudo parecia mais denso, pesado. Difícil.
Eram tantas camadas, tantas mentiras, que Sakura sentia que até mesmo sua própria consciência tinha dificuldade em digerir toda aquela situação. Talvez por isso sentia-se tão apática, em um limbo, como se sua mente tivesse ativado um mecanismo de defesa, desligando os sentimentos que ela ainda não sabia como lidar.
Havia crescido acreditando em uma versão linear da vida — com começo, meio e fim bem definidos, sustentada por verdades aparentemente inquestionáveis e por figuras que pareciam eternamente fixas em seus papéis. Tudo seguia um roteiro previsível: os heróis, vilões, as vítimas. Mas agora... tudo parecia ruir.
A estrutura familiar, as histórias contadas, as certezas que antes a sustentavam — tudo se desmontava diante de seus olhos, como um quebra-cabeça cujas peças estavam embaralhadas demais para fazerem sentido.
As revelações recentes ecoavam como trovões em sua mente. O que deveria fazer com as informações que lhe foram passadas?
Sua mãe não era apenas uma testemunha da dor — ela fora uma vítima direta daquele ciclo de violência. A família de Sasuke, dizimada, também carregava a consequência daquela decisão. E tudo aquilo, toda essa sucessão de tragédias, havia se iniciado com a escolha de um único homem. Uma decisão tomada no silêncio de uma noite, guiada por ordens veladas e justificativas manchadas de sangue.
Pelo o que soube, a matança nunca cessou — apenas mudou de forma, de nome, de rosto. Era como se fosse uma maldição que se adaptava, se perpetuando de geração em geração. Já não se tratava mais de justiça ou vingança, nem mesmo de culpa ou redenção. Era a crueza da maldade humana, impassível e escancarada.
Por fim, a pergunta que a assombrava agora não era mais sobre quem estava certo ou errado, mas sim: o que Sasuke faria com o legado distorcido que lhe restava?
Ele queria matar o próprio pai.
Não havia mais segredos quanto à finalidade de todo aquele plano. Mas, mesmo com os fatos diante dela, a pergunta persistia como uma ferida aberta: por quê? O que movia Sasuke nesse ato desesperado? E, sobretudo, por que ele precisava da ajuda de Kizashi — um homem por quem ele nutria uma aversão evidente?
Contudo, mais inquietante ainda era o silêncio que se escondia no depois: o que faria com seu pai após a conclusão de todo aquele plano? O mataria também? Travariam mais uma guerra até que não sobrasse ninguém?
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Epiphany
FanfictionSakura, que fora criada a vida inteira em uma redoma de vidro, é sequestrada por Uchiha Sasuke. Intrigas, segredos, acordos, horrores do crime e uma inocente. A história conta a epifania de Sakura, onde descobrirá as verdades sobre si mesma, seu pa...
