Levou o cigarro novamente aos lábios, observando por entre os cílios longos uma pequena criança de cabelos ralos e aparência anêmica ser empurrada delicadamente pelos braços magros de sua mãe. Indo e voltando. O uivo do vento misturava-se ao ranger estridente daquele balanço de ferro velho, enquanto as risadas das outras crianças rastejavam sutilmente até ele, bastante felizes, até. Porém na sua concepção, melancólicas.
Era como se tentassem, de alguma forma, causar-lhe nostalgia. Oras, mas como poderiam? Eram novamente apenas idiotices da sua mente perturbada. Talvez não deveria estar ali, na verdade era evidente que não deveria estar ali e não demorou muito para que conseguisse constatar o óbvio ao ter para si os olhos rancorosos daquela mulher de cabelos claros. Queria passar despercebido — não que tenha tentado, de fato —, na verdade não sabia realmente o motivo que o levou até ali. Culpa? Arrependimento? Ou seria mais bonito dizer remorso? Deveria rir de si mesmo? Balelas, nada disso era de seu feitio.
Travou o maxilar e checou o horário em seu relógio de pulso, não poderia se atrasar. Coisas demais, pensamentos demais. Ainda assim conseguiu, pelo canto do olho, acompanhar a bela mulher tirar a criança do balanço de forma apressada e colocá-la no carrinho, para então empurrá-lo apressadamente até que sumissem por entre as árvores do parque, fora de seu alcance, mas não sem antes lhe destinar a sua feição de mais pura fúria.
Aceitaria o seu ódio, aceitaria e carregaria consigo todo e qualquer ódio simplesmente porque este era consequência das suas próprias decisões, do caminho que escolheu percorrer e não se arrependia. Não se arrependeria. Matou e morreu. Torturou e foi torturado. Sacrificou os seus e, por sua vez, foi sacrificado. Está cego e por consequência cegou os outros à sua volta. Era isto de fato verídico ou obrigados foram? Poderia dizer que depois de tantos anos finalmente se encontrou ou na verdade estaria ele tão perdido que já não importa mais? O que importa agora? Talvez devesse se perguntar se algum dia importou alguma coisa.
— Vamo, pô. — buzinou Naruto de dentro do carro, estacionado do outro lado da rua.
Sasuke amassou a bituca com a sola do sapato antes de se virar e ir em direção ao veículo. Inferno. Hoje era um dia importante, finalmente encontraria o merda de Kizashi, mas sua mente insistia em se perder em coisas supérfluas e sem sentido. Precisa se concentrar.
— Por que quis vir aqui? — questionou o loiro, manobrando para longe dali.
Sasuke permaneceu em silêncio, o vulto das árvores escorrendo diante de suas íris negras à medida que Naruto acelerava. Por que diabos quis ir até ali? Era uma boa pergunta. Não era de seu feitio ficar feito um verme remoendo decisões.
— Não sei. — respondeu por fim, apoiando a nuca no encosto e fechando os olhos.
— Por acaso está se sentindo culpado?
Ele?
— O garoto receberá o tratamento adequado.
— Talvez ele preferisse a presença do pai. — murmurou o loiro em tom acusatório.
— Eu não obriguei ninguém.
Naruto riu sem humor, balançando a cabeça negativamente.
— Continue dizendo isso para si mesmo.
— Eu não o fiz. — encarou-o de rabo de olho.
— Que seja. Não é como se tivesse dado alguma outra opção.
Realmente não, mas porquê isso importava agora? Não deu valor algum antes e não tinha como voltar atrás agora. O fluxo d'água escorre apenas em uma direção e ele nunca esteve tão perto de acabar com tudo isso. Sacrificou coisas e pessoas demais para ter repensamentos à essa altura do campeonato.
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Epiphany
Fiksi PenggemarSakura, que fora criada a vida inteira em uma redoma de vidro, é sequestrada por Uchiha Sasuke. Intrigas, segredos, acordos, horrores do crime e uma inocente. A história conta a epifania de Sakura, onde descobrirá as verdades sobre si mesma, seu pa...
