Capítulo 1

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 Fernando Dário Nieves chegou no lugar errado, na hora errada. No entanto, ele não sabia disso. Não tinha como saber, na verdade. Não visitava Murbrook havia alguns anos, ficando na pequena e ainda estreante base da Ordem de Crowley localizada em Edimburgo, ajudando com a organização, limpeza e recrutamento dos caçadores recém-chegados. O máximo de contato que obtinha com a cidade eram as cartas que trocava com o irmão e alguns agentes que iam para averiguar o local. Houve Vanessa, Malcolm, William, Alphonse e entre outros nomes da base de Murbrook em Edimburgo.

A paisagem do lado de fora atravessou os vales e rios da Escócia até a Inglaterra, mostrando uma paisagem verde e brilhante destacando-se do céu acinzentado. E, agora, as janelas mostravam diversas pessoas enfiadas em seus jornais enormes, carregando suas pastas para o trabalho e se despedindo da simplicidade daquela cidade rural. Freddie sentiria falta da capital, com certeza.

Quando o trem parou, conseguiu ouvir perfeitamente o barulho das portas das cabines se abrindo e uma certa multidão de pessoas andando pelo corredor ao lado de fora. Ajeitou o chapéu borsalino em cima de sua cabeça, não sabia dizer se teve sorte ou era apenas uma consequência do trem não estar cheio o suficiente. Queria acreditar na sua sorte, apesar de tudo. Um trem vazio poderia trazer uma sensação de alívio para muitas pessoas, mas não para ele.

Pegou suas malas em cima de sua cabeça e entrou para o corredor movimentado. Observou um senhor de idade se ajeitando para sair, uma mãe e uma filha que aparentavam estar ligeiramente perdidas, um homem bem vestido ajudando as duas recém-chegadas. Cumprimentou a todos, com um bom dia e um uma saudação com seu chapéu, abaixando ligeiramente a aba, enquanto atravessava o corredor.

Dentre a multidão que esperava para entrar no trem, Freddie procurava o rosto familiar de seu irmão, Heraclio Ángel Nieves. Ninguém que observasse os irmãos Nieves diria, em primeira instância, que os dois eram irmãos. Seja por personalidade, seja por aparência, os dois portavam-se como completos opostos um do outro. Freddie tinha olhos castanhos escuros, grandes, poucos fios brancos aparecendo no cabelo e barba acastanhados, além de um tom de pele rosado, porém caloroso. Heraclio tinha olhos verdes escuros, um cabelo grisalho conservado há alguns anos, assim como em sua barba rala, e a pele rosada e fria, congelante.

Era difícil acreditar que Fernando era o mais velho, filho do casamento oficial e sucessor legítimo das vinícolas da família. Heraclio que assumiu tudo aquilo em seu lugar, Heraclio que decidiu continuar em Murbrook para cuidar da saúde do pai de ambos. Sentia-se ligeiramente culpado por aquilo, mesmo sabendo que era algo longe do seu controle.

Desceu as escadas do trem até o chão da estação e, como se sempre estivesse ali, a figura do irmão apareceu na sua frente, com alguns passos de distância entre si. Usando um terno sob medida, cores escuras e que exalavam a figura de um diplomata argentino, contratando com o sobretudo marrom e gravata mal amarrada do Nieves recém-chegado. Freddie deu um sorriso largo.

— Ora, ora! Por onde você esteve, irmãozinho? - Freddie brincou. Heraclio permaneceu com a mesma expressão facial, séria, com os lábios em uma linha fina, mas arqueou ligeiramente as sobrancelhas e ergueu brevemente o queixo.

— Em casa, como sempre. - O mais novo respondeu, com uma certa ironia em sua voz.

— Voltaste para Buenos Aires e não me avisou? - Indagou, aproximando-se do outro, provocando um fraco sorriso no outro.

Idiota. - Balbuciou Heraclio, enquanto Freddie o puxava para um abraço.

Prontamente, aceitou a demonstração de carinho. Mesmo com os olhares reprovadores de alguns ingleses ao redor, os irmãos nunca deixaram suas raízes latino-americanas se esvairem completamente. É claro, Heraclio tentava infinitamente mais mostrar um comportamento britânico do que Freddie, que muitas vezes ao menos se importava em falar inglês. Afastaram-se segundos depois e se encaminharam para a saída.

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