Acordar com o gosto amargo do arrependimento era uma sensação ainda pior que continuar sentindo a dor de seu tornozelo torcido. E Ezra sentia aquele gosto escorrer pela sua garganta, como o mais mortal veneno. Imediatamente, sentou-se na maca, como se estivesse acabado de fugir de um pesadelo.
Mas Ezra sabia, muito bem, que não havia fugido daquele pesadelo, pois tratava-se da mais pura realidade de sua vida. Esfregou as mãos contra o rosto, acordando ainda mais o seu sistema. O arrependimento pesava como um planeta em suas costas. E, sinceramente, compreendia perfeitamente que aquilo era culpa dele mesmo. Estava completamente irado naquela noite, deixou apenas os sentimentos guardados em seu coração e mente lhe controlarem. E, agora, estava arrependido.
Sentou-se em sua maca, levando um ligeiro susto ao ver Maude Hill no recinto. Não deveria ter o feito, afinal, Maude era da divisão médica, era comum ela aparecer por ali. Mas, de alguma forma, Ezra sentia-se estranho sendo o paciente e não o doutor da situação, como se estivesse na posição errada. Não conseguiria mentir sobre isso, seu notório desconforto perante a sua vulnerabilidade era berrante.
Entretanto, Maude não parecia se importar, estava pegando alguns remédios para dor e um novo rolo de bandagem, com duas xícaras de chá ainda quentes, uma para si e outra para o seu paciente. Ela possuía um sorriso grande, porém não extravagante em seu rosto, sem mostrar os dentes e apenas aproveitando uma manhã ligeiramente chuvosa de fim-de-semana. Assim, ao perceber que Ezra estava acordado, entregou os comprimidos e a xícara de chá para ele.
— Bom dia! - Exclamou.
— Bom dia. - Sanderson respondeu, recebendo a xícara e seus remédios.
Como médico, já estava acostumado com esse procedimento, até mesmo conseguindo engolir os remédios sem precisar ingerir líquido, mas ainda assim, não iria desperdiçar chá fresco pela manhã. A enfermaria ficou em silêncio, com ambos os presentes no local degustando suas xícaras de chá. Para Maude, era somente um dia normal, um momento de silêncio para ajustar as ideias em seu cérebro e se perguntar o que faria quando voltasse para casa. Para Ezra, permanecer em silêncio era sinônimo de ficar consigo mesmo, e talvez ele não queira que sua consciência reviva tudo aquilo que ele fez na noite anterior, pontuando cada detalhe que ele executou errado.
— Maude, - Ezra chamou a atenção da enfermeira. — meus alunos já chegaram?
— Então... - A mulher ponderou, depositando cautelosamente a xícara que segurava ao seu lado, procurando as palavras para dizer aquela notícia. - Sunita e Kostya estão aqui, mas... Jay fugiu na noite anterior, está desaparecido desde então.
O homem soltou um suspiro, Maude não sabia especificar se tratavasse de dor física ou mental. Mas não teve tempo de perguntar a ele sobre isso, quando menos esperava, Ezra já estava se levantando sem a sua autorização. Levantou-se em um pulo, imediatamente indo em direção ao seu paciente.
— É melhor você permanecer em repouso, senhor Sanderson... - A enfermeira indicou, gentilmente encostando no ombro de seu paciente.
— Eu consigo me levantar sozinho e sei como utilizar uma bengala, já estou pronto para minha alta. - Ezra afastou a mão de Maude, terminando de se vestir com certa dificuldade. Hill respirou fundo, lidar com adultos da Ordem era mais complicado do que as crianças de seu emprego oficial.
— Primeiramente, o senhor colocou sua camisa do avesso. - Pontuou, fazendo Ezra arregalar os olhos e retirar a peça de roupa mencionada. — Segundo, eu compreendo que o senhor esteja arrependido por todos os acontecidos anteriores, mas se continuar agindo na impulsividade culminará em mais situações como essa. Então, respire fundo e pense antes de sair da enfermaria.
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Hermético
HororEm 1929, a crise na bolsa de valores não foi um agravante somente para os Estados Unidos. Ainda se recuperando dos estragos causados pela Grande Guerra, a Inglaterra se vê ainda mais afundada dentro de suas fábricas e empregos cansativos, em busca d...
