Capítulo 30

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Limpar todo aquele sangue foi uma tarefa árdua. Ezra não gostaria de dizer o que realmente estava sentindo naquele momento, as lágrimas de Lola pareciam genuínas, apesar de saber que nem todas eram necessariamente de tristeza. Eleonora também era uma das vítimas de Marion, mas a morte tão recente da mãe e da avó simplesmente era demais para os maiores medos da garota.

    No entanto, as lágrimas de Ezra não eram de pesar, não necessariamente todas. Algumas eram realmente tristes, pela mãe e mulher que ele acreditava que o amou, pelo menos no começo da vida. No entanto, a maioria do seu choro era de alívio, como se toda a pressão estivesse saindo lentamente de seus ombros.

    O que realmente estava lhe atormentando era a sua família lentamente morrendo ao seu redor, enquanto ele não poderia fazer algo para impedir. Ou, pelo menos, era o que pensava enquanto enxergava o caixão de sua mãe ser enterrado. Cada pá de terra martelava aquela ideia em sua cabeça.

    Eleonora ainda possuía os olhos ligeiramente inchados pela mistura de emoções traduzida em lágrimas, parada em pé ao seu lado direito. Liz estava parada em seu lado esquerdo, mesmo convivendo com Marion diariamente, não era íntima o suficiente para sentir algo quanto aquilo, era somente mais um velório presente em sua vida. Bruce e Callum, ambos parados na lateral destra da cova, compartilhavam do mesmo sentimento que a caçula da família. Callum até mesmo carregava certo tédio por estar ali.

    Os Sanderson testemunharam até o fim aquela cerimônia de enterro, sem falar uma palavra, somente absorvendo toda a situação que os englobava. Mas, dentre todas as mágoas que Ezra trazia, a principal apenas o causava raiva, um ódio bestial em seu ser: Babadook estava cada vez mais próximo, e a Ordem de Crowley não sabia como.

    Santiago derrubou a última pá de terra, afofando a cova cheia e esperando que aquele fosse o último relacionado a Ordem de Crowley a ser enterrado até o final daquele ano. Ikei havia desaparecido, e Madrigal estava simplesmente sobrecarregado dentro do cemitério. Às vezes, não acreditava no que estava cogitando naquele momento, mas após o que viu no Manicômio St. Claire, não suspeitaria se seu colega estivesse angustiando até a morte com um fantasma dentro de si. Esperava que não fosse, seja pelo bem de Wetere ou pelo egocentrismo de sua própria alma em admitir que estava errado.

    O coveiro levantou a cabeça, apoiando os braços no cabo da própria pá, analisando a família em luto. Conteve as palavras em sua língua, engolindo em seco e soltando uma lufada de ar. Santiago aproximou-se de Ezra, encostando em seu ombro para chamar sua atenção, prontamente concluindo seu objetivo.

    — Estarei na Ordem de Crowley hoje, quero acabar logo com isso. - Mudou de assunto, em seu tom ranzinza de sempre.

    — Creio que Aaron não me deixará ir para a Ordem hoje, nem eu, nem alguém da minha família. - O olhar de Sanderson continuava fixo ao solo. — Recomendo que fale com Cyrus, ele está do lado de fora.

    Santiago assentiu, comprimindo os lábios e se afastando do grupo. Iria deixá-los ali, engolindo seus julgamentos. Trabalhava tanto com aquilo que já achava inútil o luto, de maneira geral. Era apenas mais um cadáver em uma pilha de corpos que, eventualmente, todos os humanos iriam se encontrar, amontoados.

    Percorreu os caminhos de terra entre as lápides do cemitério, com a pá sobre seu ombro. Já conhecia a figura de Cyrus, assim como o patriarca da família Cornell, o filho adotivo também lhe ajudou muito na sua mudança para Murbrook, recepcionando-o. Então, seu caminho foi certeiro até a entrada do cemitério, onde alguns centímetros ao lado, com as costas encostadas na grade que cercava o lugar, Cyrus estava parado há mais de uma hora.

    Encarou-o por alguns minutos, ele ainda continuava com o olhar fixo para o céu. Ele tinha essas esquisitices com certa frequência, era como se estivesse olhando para algo no céu, mas genuinamente não havia algo para observar. Até mesmo encarou o ponto que as íris alheias estavam fixas, nem mesmo nuvens passavam por aquele lugar. Soltou um suspiro cansado e, então, pigarreou alto para chamar a atenção de Cyrus. Imediatamente, ele tirou o olhar do céu e voltou para o mundo terrestre, balançando a cabeça e movimentando o corpo em confusão. Um sorriso tímido e desengonçado assumiu seu rosto ao ver Santiago ali.

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