27. Clarke

521 54 11
                                        

Por menos convencional que fosse passar o Natal no Inked Armor, a sessão de tatuagem era do que eu precisava. O zumbido tranquilizante do aparelho e a ardência causada pela agulha me distraíram da dor das lembranças que dividi com Lexa.

— Você acha que a gente pode ir ao depósito amanhã? — perguntou ela enquanto limpava mais uma vez minhas costas com o pano úmido.

— Claro — respondi, mas não esperava que ela quisesse ir tão depressa.

— Nunca mais voltei lá desde que me mudei para o atual apartamento. Eu ia pegar alguns dos móveis dos meus pais, mas não tive coragem. Tudo me lembrava o que eu tinha perdido.

— Você foi sozinha?

— Sim. Mas você vai estar comigo dessa vez, então talvez não seja tão difícil assim.

Eu esperava que aquilo fosse verdade.

Por fim, entramos de novo no assunto da noite anterior, e Lexa tocou no tópico do Ano-Novo com hesitação. Harper tinha ligado para ela três vezes naquele dia. Na primeira, ela mencionou a Times Square. A segunda ligação era para propor ficarmos por ali mesmo. Lexa disse que elas podiam conversar sobre isso no dia seguinte. Meu voto era para não sairmos da cidade, mas eu podia tolerar uma viagem de carro.

— O que você costuma fazer no Natal? — perguntei.

Pelo canto do olho vi Lexa dar de ombros.

— Não muito. Às vezes passamos a noite na casa da Indra e tomamos café da manhã lá. Na maior parte do tempo, ficamos à toa enchendo a cara. Na maioria das vezes, estou bêbada demais para dirigir de volta para casa e preciso ficar lá mais uma noite.

Li nas entrelinhas. As festas de fim de ano da casa de Indra eram uma maneira de as pessoas que gostavam de Lexa ficarem de olho nela.

— Podíamos ter voltado lá hoje. Ainda podemos se você quiser — sugeri. Eu não queria afastá-la das pessoas que a amavam.

— Não precisa. Por mais egoísta que seja, eu quero você para mim hoje. Além disso, se acabarmos indo a algum lugar no Ano-Novo com todo mundo, não vamos ter muito tempo sozinhas.

— Temos que levar seu carro à oficina — sugeri. Eu me sentia mal pelo estrago no capô.

— Tenho um cara que cuida disso para mim. Ele pode dar um jeito sem problema algum.

— Então vamos ter que usar o meu carro se formos viajar.

Lexa fez uma careta.

— É o jeito. Prefiro dirigir o seu do que o playboy-móvel.

— Vou vender a BMW — falei, olhando o pé dela bater no chão.

— Posso ajudar você com isso — disse Hayden depressa, pelo visto tão ávida por se livrar do carro quanto eu.

— Seria ótimo.

Eu já estava cansada de cuidar de tudo sozinha.

— Vou resolver isso semana que vem.
— Quanto antes, melhor.

Lexa tirou a agulha da minha pele e limpou meu ombro com um pano úmido.

— É por causa do que você encontrou no porta-luvas?

— Em parte.

Toda vez que olhava para o carro, eu me lembrava do que Echo tinha dito em Arden Hills. Mesmo que tivesse sido por rancor, eu jamais saberia a verdade e não queria um lembrete por perto.

— Quais são as suas outras razões para vender?

— Você não é muito fã do carro.
Lexa odiava a BMW, e não era só porque ela a considerava o tipo de carro dirigido por ricos pretensiosos.

— Não precisa se livrar do carro porque eu não gosto dele.

— Eu e Niylah demos um tempo durante meu último semestre na faculdade — contei de súbito.

O zumbido do aparelho de tatuar cessou.

— Vocês terminaram? — perguntou Lexa, parecendo surpresa.

— Por um tempo.

Eu nunca tinha falado sobre aquilo; nem com minhas amigas nem com minha mãe. Tomei a decisão e fingi que não era nada de mais. Na verdade, foi doloroso. Odiei a separação em grande parte porque tinha medo do desconhecido.

— Você saiu com outras pessoas? — A voz dela soou um pouco nervosa.

— Algumas. Na verdade, eu precisava de espaço. Niylah desistiu de uma viagem para casa porque estava atolada de trabalho. Ficou muito irritada com isso. O curso dela era rigoroso, e o meu também. Eu não conseguia dar conta de tudo. O estresse adicional estava afetando minhas notas, e a única maneira de eu conseguir pagar a mensalidade da Northwestern era com uma bolsa, então sugeri que déssemos um tempo.

— E ela aceitou isso numa boa? — perguntou Lexa.

O aparelho de tatuar ligou de novo, ainda bem. Eu precisava que Lexa se concentrasse em algo que não em meu rosto.

— Não, nem um pouco. A coisa virou uma briga enorme. Ela desligou na
minha cara e eu não liguei de volta. Concluí que, quando ela se acalmasse, entenderia minha lógica e veria que fazia sentido.

Não foi o que aconteceu.

— Então vocês se entenderam?

Marcadas para sempre Histórias para pegar e não largar. Descubra agora