Pela quarta vez em menos de duas semanas, eu estava de volta à delegacia. A agente Miller nos levou até lá na viatura, porque eu não tinha condições de dirigir. Aquela noite estava se transformando em algo incrivelmente bizarro.
Clarke estava comigo quando identifiquei Finn e Brett em duas filas separadas. Brett estava exatamente como eu me lembrava dele, só mais velho e acabado. Ele era baixo e estava começando a ficar careca. O rosto tinha cicatrizes. Os dentes estavam estragados. Mas era isso que acontecia com viciados em metanfetamina. A droga também fazia com que a pessoa ficasse psicótica a ponto de roubar uma casa com uma arma carregada sem verificar se os moradores estavam lá.
Finn não estava muito melhor, e era impossível me sentir mal por ele. Apesar de Brett ter puxado o gatilho, foi Finn quem coordenou tudo. Ele forneceu as drogas, ele plantou a ideia e, estupidamente, arrumara a arma. Mas a parte que mais me perturbava era que eu tinha trabalhado para ele por anos e nunca soube. Era o cúmulo da falsidade.
Sentado na sala de Miller, pensei por um instante no que poderia ter acontecido com Costia. Seria cármico se Finn a dedurasse. Todos aqueles anos empurrando drogas para as dançarinas até que elas fossem forçadas a se prostituir era algo criminoso.
O mais absurdo daquilo era o fato de ela já ter passado por aquela situação. Ela sabia como era não ter escolha, mas mesmo assim ferrava com as pessoas que confiavam nela.
O parceiro de Miller, Duggan, estava empoleirado na beirada da mesa. Estava calmo e controlado, mas Miller parecia tão agitada quanto eu.
— Quer um café? — perguntou Duggan, tomando um gole.
— Água seria bom, por favor.
Minha garganta estava tão seca que eu tinha dificuldade para engolir. Estava à beira do pânico; só Clarke me mantinha controlada. Ela quis ligar para Indra e Kane no caminho até a delegacia, porém pedi que esperasse, pois a presença dos dois teria tornado aquela situação parecida demais com a primeira vez. Eu ficava olhando por cima do ombro, esperando que Murphy aparecesse e me interrogasse de novo. No fim das contas, não tinha nada com que me preocupar.
— Murphy foi detido — disse Miller, organizando as canetas na mesa em uma linha reta.
Eu apenas a encarei.
— Queria ter lhe contado antes. Sei como isso tem sido difícil para você…
— Por quê? — perguntei, enfim, quando a lacuna entre meu cérebro e minha boca se preencheu.
— Brett Wilson é meio-irmão do Murphy. A versão resumida é que ele
prejudicou a investigação para protegê-lo.
— Filho da puta.
— Foi mais ou menos a mesma reação que eu tive — contou Duggan.
Miller o encarou. Massageei as laterais da cabeça, onde uma dor leve tinha se transformado em um rugido latejante. A revelação explicava muito e nada ao mesmo tempo.
— Qual é a versão não resumida? — perguntei, mesmo sem saber se conseguiria aguentar mais.
Eu esperava ficar aliviada por saber a verdade, mas aquilo tudo tinha levantado mais questões.
— Brett era um adolescente perturbado. Ele tinha problemas quando era mais novo, mas, como Murphy era da polícia, acabava ganhando um desconto. Brett tinha feito dezoito anos duas semanas antes do homicídio.
— Antes de ele matar meus pais, você quer dizer?
Clarke colocou a mão sob a minha. Eu a apertei.
— Tem certeza de que quer que eu continue? — Como assenti, Miller prosseguiu: — Brett alega ter feito duas ligações naquela noite. A primeira foi para Finn, e a segunda para o irmão. Mais ou menos na mesma hora, recebemos uma ligação na linha de emergência. Murphy foi o primeiro a chegar à cena. Pelo que entendemos, ele arquivou errado ou destruiu as evidências, fazendo com que boa parte delas fosse inadmissível. Alguns relatórios não faziam sentido. Ao mesmo tempo, parecia que o parceiro do Murphy é que tinha sido o problema, mas agora sabemos que Murphy orquestrou tudo para isso. O quadro foi a única coisa da qual ele não conseguiu se livrar. Foi relatado como roubado. Achamos que ele o escondeu com a intenção de voltar lá e destruí-lo depois, mas isso não aconteceu. Os resultados do laboratório confirmam as digitais tanto dele quanto de Brett no quadro.
Levei um minuto para processar tudo enquanto as peças se encaixavam.
— Mas o Murphy não podia ir atrás do Finn, certo?
— Não sem denunciar a si mesmo — respondeu Duggan.
— Eles vão ser presos?
— Vai haver um julgamento — afirmou Miller.
— Vou ter que testemunhar?
— Seu depoimento será útil para o caso.
Reviver aquilo tudo seria um saco — mas eu não queria que nenhum deles recebesse uma pena menor do que merecia.
No fim de fevereiro, o caso foi julgado. As coisas andaram bem mais depressa do que eu esperava, o que era tanto um alívio quanto um desafio. Clarke ajeitou minha blusa e alisou as lapelas do meu blazer.
— Acho que estamos prontas.
Abracei-a forte.
— O que quer que você ouça hoje, por favor, lembre que tudo isso aconteceu há muito tempo.
— E eu quero que você lembre que qualquer coisa que venha à tona durante o julgamento não vai mudar nada. Ainda vou estar aqui, tentando me lembrar de não deixar a calcinha largada no chão do closet.
Sorri e recostei a cabeça no ombro dela.
— Te amo.
— Eu também te amo. Nunca duvide disso.
Ela pegou minha mão e abriu a porta do tribunal.
Eu podia ter ficado sentada quieta durante todo o julgamento ouvindo Brett e Finn relatarem suas versões dos acontecimentos, mas nada ia mudar o resultado. A única coisa que eu queria àquela altura era justiça em forma de prisão. Era para isso que eu ia depor.
Minha ansiedade disparou quando fomos escoltados para a frente do tribunal. Reconheci uma série de rostos: meninas que trabalharam na Dollhouse e conseguiram sair, outras que não conseguiram. Alguns dos funcionários de Finn também estavam lá. Todos sentados juntos, unidos contra as pessoas que tinham acabado com eles.
Costia estava sentada na segunda fileira, no lado oposto do tribunal. Era difícil não a notar com seu macacão laranja. Parecia frágil e pequena. A cicatriz em seu rosto era mais perceptível sem maquiagem. A cena parecia orquestrada para fazer as pessoas sentirem pena dela. Ela me olhou quando passei, seu arrependimento era óbvio. Finn a tinha derrubado do pedestal — e de mais do que isso. Além de intimada a testemunhar naquele caso, ela também estava encarando uma infinidade de outras acusações. Por mais que implorasse e barganhasse, Costia pagaria por seus crimes. Eu quase sentia pena dela. Mesmo do seu jeito fodido, ela um dia se preocupou comigo, mas nunca do jeito que eu precisava.
Fui a única a depor. Tinham me dado uma ideia do que poderia ser questionado, mas as perguntas foram dolorosas de responder mesmo assim. Mantive o foco na primeira fileira, onde estava minha família: Indra, Kane, Jasper, Monty e Raven, uma muralha de solidariedade e apoio. No meio, estava Clarke. Ela era quem tinha me ajudado a suportar tudo aquilo — porque, assim que acabasse, eu teria alguém por quem valia a pena seguir em frente.
Não voltei para o tribunal depois daquilo. Não foi necessário. Embora o julgamento tenha durado semanas, o júri foi rápido para emitir um veredicto. Todos os três foram para a cadeia.
...
Finalmente a justiça foi feita!!!! Agora Lexa vai poder ter um pouco de paz, pelo menos sabendo que as pessoas responsáveis pela morte dos pais dela estão todas presas. O que acharam?
VOCÊ ESTÁ LENDO
Marcadas para sempre
RomansSegunda temporada de flor da pele. Depois de perder Clarke, a tatuadora Lexa Woods volta a ser atormentada por seu passado traumático, e suas noites são tumultuadas por pesadelos sobre a morte dos pais. A única maneira que encontra para ficar em pa...
