Aquele carro, com o ar-condicionado na temperatura exata, estava com o cheiro fraco de protetor solar que Ruy tinha espalhado pela manhã. Adorava aquilo. A trilha sonora era ele, que tinha descoberto o prazer de repetir a mesma pergunta até me levar à loucura.
- Pai, quando a gente vai ter um bebê que fala igual a mim?
Eu, ao volante, dei aquele meu sorriso de canto, o que a Samanta diz que é o meu "sorriso de canalha". Eu amo essa provocação. É um jogo de cabo de guerra delicioso que só eu e a Samanta, os dois adultos mais errados da sala, entendemos.
- Daqui a pouco, campeão. A mamãe só está um pouco enrolada com a agenda da vida, sabe como é que é, né? Compromissos de gente grande.
Samanta estava no banco do carona, olhando a paisagem correr. Vi o canto da boca dela tremer. Meu sorriso a atingiu, eu sei, como um lembrete físico de que o "enrolada" dela não era por causa de ocupacoes da vida. Era por causa de genética, o elefante branco que a gente carrega junto.
Vi a cabeça dela começar a girar, a entrar naquele loop de ansiedade que ela tinha desenvolvido nesses últimos tempos: E se vier com algum problema? E se for culpa nossa?
-Rodrigo, dá um tempo nesse assunto, por favor? A gente já conversou sobre isso. - ela disparou. O tom era de quem estava tentando manter a situacao leve, mas eu senti o nó na garganta dela daqui. Ela é minha garota, afinal. Eu já sei quando está surtando por dentro.
- Calma, Sam. Não precisa fazer um drama desnecessário. É só o Ruy perguntando, e ele tem a quem puxar, o moleque é apressado - respondi, usando aquela voz baixa e melosa que só uso para ela. Eu sou o Tio-Marido apaixonado, mas também o pai com medo. Eu queria outro filho, claro que queria. Mas, no fundo, o pavor dela era o meu pavor. Somos um par de tabus ambulantes, e a vida já cobrou o preço uma vez. Cobraria de novo? Melhor evitar?
Ruy, graças a Deus alheio a essa tensão de casal-que-não-pode-ser-casal, começou a cantar um jingle de rádio de forma completamente desafinada. E assim, a crise foi empacotada e guardada, como mais um segredo que viajava com a gente.
Finalmente, chegamos à casa do Ricardo. O cheiro de carvão aceso e picanha grelhando era uma promessa de que, pelo menos por algumas horas, a gente podia fingir que era só uma família normal de domingo.
Sol na medida certa, piscina, cerveja gelada na mesa e aquela trilha sonora que fazia todo mundo se sentir confortável. Eu respirei fundo. Aqui é seguro. Aqui, a gente não precisa se tocar.
Ricardo estava na churrasqueira, de avental e pinça na mão, o rei da grelha. Ele me deu um aceno de cabeça que era uma mistura de "oi" com "ainda não esqueci o que você fez, seu arrombado, mas hoje vou deixar passar". É, o relacionamento de genro/irmão é uma delícia (e uma loucura!).
Ele engoliu a nossa história, a relação incestuosa, pelo bem da sanidade da filha dele. A crise de Samanta tinha sido o ponto de virada, a linha que nos forçou a parar de brigar e trazer os dois de volta para casa. Sem esquecer que, acredito eu, que lá no fundo, sua preocupacão comigo o incentivou um pouco mais. Com certeza percebeu que eu estava me matando e minha quase morte na última cirurgia o pegou em cheio.
Samanta nem olhou para mim. Correu para dentro, para a área onde estava seu irmão e Mariana, finalmente sua madrasta boazinha, que a recebeu com todo carinho. Ela perdeu anos da família fugindo de mim, e agora precisava desesperadamente recuperar o tempo. Eu a entendia.
Me coloquei ao lado do Ricardo, peguei uma latinha de cerveja.
- A Samanta está bem, né?- Ricardo perguntou, virando uma linguiça com mais força do que o necessário.
- Por que não estaria? Ela está comigo! - tentei ser idiota ( já não é tarefa difícil), mas ele me lançou um olhar de canto ameçador. Segurei minha onda:
- Está melhor sim. Ela está aqui. Isso já é meio caminho andado- disse, engolindo em seco, mas continuando: - Obrigado de novo, mano. De verdade.
Ele apenas deu de ombros, sem olhar para mim. O cara é um bloco de gelo, mas é o avó do meu filho e o pai da minha mulher:
-O Ruy é meu neto. Ela é minha filha. Não é sobre você, Rodrigo. É sobre a família que restou.
A sinceridade doía, mas eu aceitava. Era o preço.
Minutos depois, Ruy estava correndo por todo lado com uma bola de futebol e Samanta rindo com Mariana, o ambiente estava quase perfeito. Aqui, a gente é só Samanta e Rodrigo: o tio e irmão bacana; a filha e sobrinha e Ruy é o neto amado.
Até que o portão lateral bateu.
Todos se viraram. O sol da tarde parecia ter feito um esforço extra para iluminar a entrada. Era impossível não notar. Alto, ombros largos e, sim, o cabelo e a pele eram brancos quase transparentes, como mármore polido. Vinícius.
Um silêncio momentâneo pairou sobre o quintal, quebrando o ritmo da música e o meu humor.
Senti o corpo gelar. Eu pisquei. Mas o que esse filho da puta faz aqui? Sério?
Olhei para o meu irmão.
- Quem convidou o Vinícius?- perguntei para Ricardo, mal contendo o espanto e o ciúme que, honestamente, me transformava em um adolescente patético.
Ricardo deu de ombros, tranquilão: - Eu convidei. Ele é meu amigo também. E perguntou da Samanta. - Claro que perguntou da Samanta. Santo Cristo! Esse povo que me foder!
Eu forcei um sorriso, a mandíbula tensa. Tentei ser o Rodrigo adulto, o que é um baita esforço:
- Vinícius! Que surpresa! Entra aí, cara!
Mas antes que eu pudesse dar dois passos, Samanta já estava correndo em direção ao portão. O sorriso dela era o mais genuíno que eu tinha visto o dia inteiro. O tipo de alegria que não tinha fingimento, e isso era o que mais me incomodava. Ela jogou os braços em volta do pescoço dele num abraço apertado e demorado.
Poderia ser mais demorado, Samanta? Só para me deixar ainda mais irritado?
- Vini, meu Deus! Pensei que nunca mais ia te ver!
Vinícius riu, uma risada grave e expontanea que me deu vontade de virar a churrasqueira em cima dele.
- Eu soube que você estava de volta. Tive que vir ver se essa cidade ainda tem salvação!
Atrás de Samanta, Ruy aproximou-se, indo comprimentá-lo com toda simpatia do mundo. -Tio Vini, também estás aqui no Brasil! Que giro ver-te!
O albino fura-olho retribuiu a cumprimentação, com aquelas saudações de bater as mãos e o meu filho riu daquele jeito solto e fácil, tratando o cara como se ele fosse o melhor amigo de infância. Observei a cena do lado da churrasqueira. Minha Samanta, meu Ruy, ambos radiantes por um homem que eu mal podia suportar. Pra piorar, meu irmo também sorria olhando para aquilo. Respirei fundo, voltando a ve-los após piscar com força.
A picanha na brasa chiou. Mas o barulho que eu ouvi foi só o do meu ciúme ardendo feito fogo de chão.
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PROIBIDO ESQUECER
Roman d'amourCom grande beleza, carisma e sensualidade, Rodrigo tinha todas as mulheres aos seus pés e com certeza, se aproveitava disso, afinal, o sexo feminino sempre foi o seu ponto fraco. No mais, não esperava que o destino lhe pregasse uma peça. Por conta...
