Cap. 28

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Samanta levou Ruy que dormia pesado, alheio ao caos, para o quarto de hóspedes mais próximo. O silêncio que ficou na sala de estar de Ricardo era sufocante. As três doses de uísque, intactas sobre a mesinha de centro, pareciam pesos prendendo nossas mãos trêmulas à realidade. Quando Samanta voltou, trazia o rosto cansado... mas o olhar de quem finalmente escolheu lutar.

Ricardo foi o primeiro a romper o silêncio, a voz áspera de quem carregava verdades indigestas.

— Vamos por partes. Ruy fica aqui. É o lugar mais seguro agora. O condomínio de vocês está comprometido. O Pedro é o ponto mais perigoso do momento, porque ele tem a proximidade.

— E o vídeo... — sussurrou Samanta, entrelaçando os dedos com força.

— O vídeo é só uma cortina de fumaça — Ricardo rebateu, firme. — O objetivo de Vilma não é expor vocês para o mundo. É destruir. O vídeo é a arma de chantagem para nos forçar a fazer exatamente o que ela quer.

Eu fui direto ao ponto.

— Ela nos odeia e quer se vingar.

Meu irmão respirou fundo e tomou um gole do uísque, os olhos fixos no copo como se guardasse as respostas.

— Vilma tem um ódio profundo. Ela odeia a felicidade que perdeu, por seu plano não ter dado certo. Odeia a liberdade que eu tenho, sendo que me queria morto pra ter meu dinheiro. Além disso, vocês a desmascararam... O ódio dela é triplo: por ter perdido tudo, por ter perdido a liberdade e por ter sido descoberta por vocês, que acabaram juntos, e com Ruy... o filho de vocês.

Ele ergueu o olhar para mim, deixando claro que o incesto não dava lugar naquele momento.

— Ela quer atingir cada ponto vulnerável — continuou. — O vídeo atinge vocês. E ela sabe que eu tenho outro herdeiro.

— Fred. — eu disse, citando o filho dele com Mariana.

— Meu Federico. — Ricardo confirmou, a voz falhando por um microsegundo. — Ele está seguro... por enquanto. Mas Vilma não hesitaria em usá-lo. Ela usará qualquer um de nós para me forçar a agir. O vídeo é a alavanca dela para destruir minha vida e a de vocês. Estamos todos em perigo. Ruy, Fred, vocês... e eu.

A inquietação me fez levantar meio corpo do sofá.

— Eu volto lá agora. Quebro o braço do Pedro, pego o celular e apago o vídeo.

— Não, Rodrigo. — A voz de Ricardo cortou o ar como uma lâmina. — Você não toca no Pedro. Se você encostar nele, o vídeo será postado automaticamente, ou Vilma vai usar isso como prova de que você é um psicopata violento. Pedro é intocável. Vamos jogar o jogo dela, mas com as nossas regras.

— E a gente faz o quê, então? — perguntei, minha voz já tremendo de frustração. — Espera tudo explodir?

Ricardo consultou o relógio, o olhar calculando possibilidades.

— A gente vai atrás de quem ela confia. De quem ela manipulou. Vinicius.

***

Descemos para o porão, a sala de segurança de Ricardo, cercada por monitores. A tensão era física, quase palpável.

Ricardo discou um número e colocou no viva-voz. A voz de Vinicius surgiu sem hesitação, mas carregada de melancolia, como já era de se esperar:

— Oi, Ricardo... aconteceu alguma coisa?

— Preciso que seja honesto comigo. Você sabe que sua mãe, Vilma, recebeu alta há alguns dias sob supervisão. Onde ela está?

Ele ficou em silêncio e eu e meu irmão nos encaramos rapidamente:

— Na... na casa da tia. Ela não pode sair de lá. É a regra da liberação — gaguejou Vinicius.

— Sua tia viajou — Ricardo rebateu, seco. — Não me minta. Não estou te acusando, mas se você a está acobertando, vai se meter em um problema sério com a Justiça. Eu preciso encontrá-la antes que o juiz revogue a liberação dela. Quero ajudá-la, não prendê-la.

O silêncio do outro lado nos fez trocar olhares mais uma vez:

Então Vinicius respirou fundo.

—Ela está na cidade. Num Airbnb. Ela disse que precisava 'respirar' antes de voltar pra rotina.

Ricardo estreitou os olhos.

— Você tem o endereço?

— Não. Ela não deixou eu saber. Ela usa só um celular pré-pago pra me ligar.

Quando a ligação acabou, Ricardo se recostou, finalmente aliviado por algo.

— O garoto não está envolvido. Ele está sendo usado. Mas ele nos deu a chave. Celular pré-pago... é o celular do Pedro. Eles estão juntos. Vilma e Pedro estão no Airbnb.

— Mas se Vinicius não tem o endereço... como achamos um Airbnb? — perguntei.

Ricardo me encarou como quem vê peças de xadrez finalmente se alinhando.

— A gente não procura a Vilma. A gente procura o Pedro. Onde um adolescente obcecado por vingança se esconde? E mais: onde ele estaria com o celular na mão, pronto para postar o vídeo?

Samanta apareceu na porta, a sombra dela recortada pela luz amarela do corredor.

— Ele vai voltar para casa — disse ela, calma e terrivelmente certeira. — Vai querer ver a nossa reação. Vai querer nos ver queimando.

Ricardo assentiu devagar, o plano nascendo.

— Ótimo. Vou ligar para o meu advogado. Não para a polícia. Depois, chamo meu especialista em segurança digital. Ele vai rastrear o sinal do celular do Pedro. Quando o garoto estiver num raio de cinquenta metros do Airbnb... nós vamos até lá. Não para negociar. Para pegar o celular. E destruir as provas. E isso acaba hoje.

O plano era ousado, quase suicida. Mas era o único.

— Enquanto isso — disse Samanta — eu fico com Ruy, Mari e meu irmão. No quarto. Trancada. Ninguém entra, ninguém sai.

Olhei para ela. O medo estava ali, claro como dia. Mas a coragem também.

— Vamos fazer isso — respondi. — Vamos acabar com esse jogo antes que o fogo se espalhe.

***

Vilma busca vingança e está conseguindo desestabilizar a família com seu jogo psicológico. O que mais ela poderá fazer?

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