Cap. 25

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Acordei naquela manhã com aquele ar pretensioso de quem acha que entende o mundo e tentando decifrar o que diabos havia acontecido na noite anterior.

Depois da nossa transa, deitei ao lado dela e, ainda meio atordoado, perguntei:

— Você é bissexual desde quando?

Ela gargalhou, puxando o vestido para cobrir o corpo.

— Não sou. Talvez só curiosa.

Ergui as sobrancelhas, realmente surpreso.

— Essa foi a maior surpresa do ano! — virei o rosto para ela e, num tom travesso, perguntei: — Vou poder comer as duas?

Ela riu, revirou os olhos e, sem pensar muito, respondeu:

— Só se um homem me comer também. E você vai ter que estar junto.

Minha nossa senhora. Essa mulher me surpreende a cada minuto.

Levantei rápido, peguei minhas roupas e bati as mãos, encerrando o assunto:

— Certo, podemos pensar no caso... mas sem homens, tudo bem?

Ela caiu na risada.

Agora, o corpo dela dormia ao meu lado, e me perguntei em que ponto havíamos chegado. Não demorou para que ela despertasse e me desejasse um "bom dia" com um selinho distraído. Vestiu o hobby sobre o corpo nu e foi cuidar dos seus deveres de mãe e esposa. Eu também tinha o meu papel a cumprir.

Logo deixei Ruy na escola — "Adeus, pai. Porta-te bem e não faças asneiras!", ele disse, me desarmando por completo. E segui para a empresa.

O dia passou entre planilhas e fingimentos. Fingindo diagramar, fingindo produzir, fingindo normalidade. Mas minha mente voltava, insistentemente, àquela cena : o episódio em que o vizinho, o moleque Pedro, achou que nossa casa era um cinema particular.

A imagem ainda me perseguia: eu e Samanta, e a sombra dele na janela.
Um soco no estômago.

Tentei racionalizar, claro: É um moleque. Adolescente. Curioso.
Mas não colava. O problema não era a curiosidade; era a ousadia. A insolência de executar o ato.

Sim, eu comi a mãe dele, mas isso dizia respeito a mim e a ela. Eu não dei liberdade para ele se meter.
Ou será que dei?

Na volta para casa, a sensação ruim voltou.

Eu dirigia pelo condomínio, aquele ninho de classe média alta onde todo mundo se odeia em silêncio, quando vi um vulto.

Parece que o estagiário do inferno havia virado vigia em tempo integral.

Estacionei, fechei a porta do carro e o ar da noite me pareceu mais denso. Não precisei procurar muito: ele estava lá, parado na calçada do vizinho, a menos de dez metros da minha porta.

O moletom preto o tornava parte da penumbra.
Não fumava, não olhava o celular — apenas me encarava.
E não era o olhar de um adolescente irritado, mas de alguém que carregava um segredo pesado demais para a idade.

Ele não se moveu, não acenou, não demonstrou surpresa por eu tê-lo notado.
Parecia que estava me esperando.

Engoli em seco, ajeitei a postura. Chega de teatro.

Atravessei a pequena rua com as mãos nos bolsos e um sorriso ensaiado, aquele mesmo que uso quando preciso fechar um negócio que já sei que vai dar errado.

— E aí, campeão — disse, parando a dois metros dele. Forcei um tom leve. — Parece que a noite tá tranquila. Tudo em paz, na paz de Deus?

Ele se mexeu pela primeira vez.

Não respondeu ao deboche, apenas inclinou a cabeça, estudando-me com um olhar frio, quase clínico.

— Eu te conheço, Rodrigo — disse ele, com uma voz que não era de garoto. Era grave, contida, a voz de um homem velho preso em um corpo jovem.

Dei mais um passo à frente, tentando assumir o controle.
Hora de agir como o homem maduro que eu fingia ser, trazendo o passado de volta:

— Ué, claro que me conhece, garoto. Já estive na sua casa, especificamente no quarto da sua mãe. Esqueceu? — Fui propositalmente escroto, querendo que ele recuasse.

Mas ele sorriu. Não um sorriso juvenil. Um sorriso de predador.

— Eu te conheço do sofá da sua casa. E agora, todo mundo vai te conhecer.




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Voltei, meu povo! Com a promessa de cumprir o livro, finalmente. Então, não percam. Votem e comparrtilhem !

❤️❤️

PROIBIDO ESQUECEROnde histórias criam vida. Descubra agora