Eu estava lá, com a cerveja na mão, fingindo uma calma que eu definitivamente não sentia. Por dentro, meu sangue fervia.
Samanta estava grudada nele, rindo como se os dois tivessem voltado aos dezessete anos. Era isso que me incomodava: a espontaneidade dela com ele. Comigo, éramos o segredo, o proibido, o desejo escondido. Com ele, era tudo leveza e pureza — irritantemente permitido.
— Tio Vini, olha só a máquina! É fixe, não é? — Ruy veio correndo com o carrinho na mão, e o sotaque dele de Portugal cortou o ar como um laser. Meu filho é um charme; até o jeito que ele fala me lembra tudo o que deixamos para trás — inclusive o período em que Samanta tentou fugir de mim.
Vinicius se virou, a pele clara refletindo o sol de um jeito que dava vontade de usar óculos escuros.
— Uau, Ruy! Isso não é uma máquina, isso é um carro de corrida! Onde comprou essa preciosidade?
— Foi o pai que deu. Diz que é edição limitada! — Ruy disse, todo importante, e eu sorri por dentro. Esse menino é meu orgulho.
O churrasco continuou, e eu entrei no modo "Rodrigo leve, despreocupado e cool". Um papel. Uma peça. E a plateia achando graça.
— Então, Vinicius, conta as novidades — disse Ricardo, mais focado na picanha do que na minha crise interna. — Soube que está rodando o mundo.
E o ex-adolescente tímido virou o modelo internacional falante. Quem diria. Que ódio... mas um ódio admirado. O garoto realmente ficou bonito.
— Milão, Nova Iorque, Tóquio... Passei seis meses no Japão. A cultura é intensa, mas a moda lá é outro nível. Você ia amar, Samanta. Os desfiles...
Samanta estava na ponta do assento, os olhos brilhando.
Claro. Brilhando.
— Incrível, Vinicius! Fico muito feliz por ti!
Eu continuei encostado na parede, tomando minha cerveja teatralmente.
— Maravilha, Vinicius. Você é a prova viva de que beleza rende um passaporte lotado. Inspirador — disse eu, com um sarcasmo tão sutil que só quem me conhece percebe. Ele percebeu. Sorriu. Odeio quando ele sorri assim.
Ele ignorou a provocação.
— Foi na última campanha, em Londres, que conheci a Bia. Ela é... maravilhosa.
Silêncio. Um segundo que durou um ano.
— Bia? — Samanta perguntou.
O sorriso dele abriu que nem porta automática de shopping.
— Sim. A Bia. Estamos juntos. Sério. Três meses já. A correria atrapalha, mas... está dando certo. Ela está em Paris agora.
Surpresa?
Surpresa foi pouco.
Foi como ganhar na loteria e escapar de um julgamento no mesmo dia.
O ciúme derreteu em mim como gordura quente de picanha.
Um alívio quase espiritual.
Até levantei da cadeira.
— Namorando? Excelente! Pensei que você fosse morrer solteiro, agarrado ao amor platônico da adolescência — pisquei, lembrando da vez em que ele pediu minha mulher em casamento. Loucura pura.
Olhei Samanta. Ela estava... feliz. Não aliviada. Feliz. Sincera.
Minha garota. Eu sabia.
A conversa seguiu até desandar para o assunto que sempre derruba clima de churrasco.
— Aliás — Vinicius disse, ficando sério —, achei importante contar. Vocês fizeram parte dessa história. Minha mãe, a Vilma... ela está internada.
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PROIBIDO ESQUECER
RomanceCom grande beleza, carisma e sensualidade, Rodrigo tinha todas as mulheres aos seus pés e com certeza, se aproveitava disso, afinal, o sexo feminino sempre foi o seu ponto fraco. No mais, não esperava que o destino lhe pregasse uma peça. Por conta...
