Cap. 34

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Seis meses. Às vezes, eu parava para pensar no peso cronológico de cento e oitenta dias. Para a maioria das pessoas, é apenas o tempo de uma estação mudar, de as folhas de outono caírem para dar lugar ao esqueleto do inverno. Para mim, foi o tempo necessário para o meu sistema nervoso parar de disparar alertas de incêndio a cada vez que um carro desconhecido reduzia a velocidade na frente da minha casa. A vida, essa engrenagem caprichosa e muitas vezes cruel, estava finalmente parando de ranger.

O sol de domingo caía sobre o jardim da mansão de Ricardo e antiga casa dos nossos pais como ouro derretido, filtrado pelas folhas das palmeiras. O cenário era o oposto absoluto daquele apartamento sombrio no centro da cidade onde enfrentamos Vilma. Havia balões azuis e brancos flutuando, mesas fartas com o melhor que o dinheiro do meu irmão podia comprar e um som de risadas que parecia forçar as últimas sombras do passado a recuarem para os cantos mais escuros do terreno. Era o aniversário de um ano de Frederico.

Olhar para aquele garotinho, um gordinho risonho que tentava desesperadamente esmagar o próprio bolo de aniversário com as mãos minúsculas, era um bálsamo. Fred era o símbolo vivo de que a loucura de Vilma tinha falhado. Ela tentou apagar a existência dele com uma mentira sobre sua paternidade, mas ali estava ele, berrando de alegria no colo de Mariana que parecia ter rejuvenescido dez anos.

Eu estava num canto, recostado em uma palmeira imperial, girando o gelo no meu copo de uísque. Samanta estava linda num vestido leve de seda, conversando com algumas convidadas. O Ruy, meu filho e adorável "portuga made in Brasil" tinha uma energia inesgotável, corria pelo gramado liderando uma brincadeira com outras crianças. Ele certamente era o melhor de nos dois.

Foi então que o clima mudou sutilmente. Vi Vinícius atravessar o portão lateral. Meu corpo, por puro instinto de sobrevivência, ficou tenso. O "ciômetro" deu um estalo no meu peito; afinal, o cara tinha sido o "porto seguro" da Samanta por um bom tempo. Mas a tensão evaporou antes mesmo de ele chegar perto. Ele não vinha sozinho.

Ele trazia pela mão uma mulher que parecia ter saído diretamente de uma capa de revista internacional. Era deslumbrante. Negra, com uma pele que brilhava como ébano polido sob o sol, ela caminhava com a elegância natural de uma modelo de passarela. Os cabelos curtíssimos realçavam traços esculpidos e um sorriso que iluminava o ambiente. Vinícius parecia outra pessoa ao lado dela; o peso de ser o filho de uma psicopata tinha saído de seus ombros, dando lugar a uma postura mais leve e confiante.

— Rodrigo. Samanta — Vinícius disse, estendendo a mão com uma firmeza que eu respeitei. — Eu precisava vir. Não só pelo Fred, mas por mim. Queria apresentar a minha namorada pessoalmente. Ela tem sido meu equilíbrio em meio a toda essa bagunça.

Ele nos contou, em um canto mais reservado, que as desculpas eram o motivo principal de sua presença.
— Eu falhei, pessoal. Falhei como filho. Eu devia ter percebido que a supervisão dela estava falha. Peço perdão à Mariana, ao Ricardo e a vocês dois.

Ele confirmou que Vilma agora estava onde deveria estar desde o início: uma clínica psiquiátrica de alta periculosidade, um lugar de onde ela nunca mais sairia. Logo atrás dele, apareceu Vitória. Senti um leve calafrio ao notá-la, lembrando da última vez que a vi. A menina realmente tinha virado uma mulher, com uma beleza que misturava a delicadeza da juventude com uma intensidade nova. Samanta a abraçou, genuinamente feliz em ver que a garota estava tão crescida e bela.

Em um momento em que Samanta se distraiu, Vitória se aproximou de mim. Ela tinha aquele brilho no olhar de quem sabe o poder que a própria beleza exerce.
— Você continua sendo o cara mais gato dessa festa, sabia? — murmurou, com um tom de voz provocante.

Eu dei um meio sorriso, aquele de quem já viveu drama suficiente.
— Você está maravilhosa, Vitória. Mas faz um favor para nós dois? Procura um cara da sua idade. Eu já sou um homem casado e, pela primeira vez na vida, estou gostando da monotonia de ser fiel.

Ela riu e não insistiu, sabendo que sua juventude ainda lhe apresentaria muita coisa para viver. Eu suspirei, aliviado. O Rodrigo antigo talvez desse corda, mas o Rodrigo de agora só queria paz e o cheiro do perfume da Samanta.

O desfecho da festa foi o que selou o meu coração. Ricardo, meu irmão e o homem que Samanta chamava de pai, se aproximou de nós. Ele não era mais o gigante de gelo da empresa. Ele abraçou Samanta por um longo tempo, e quando se afastou, seus olhos estavam úmidos.
— Eu nunca deixei de te amar, minha filha. Nem por um segundo. As circunstâncias foram cruéis, mas você é o meu maior orgulho, a realização de um sonho, meu primeiro amor.

Ele pegou Ruy no colo,que já estava pesado para o avô, e o beijou com uma doçura que me fez perceber que os laços de afeto eram infinitamente maiores que os biológicos. Mariana nos abraçou também, e por um momento, éramos apenas uma família comemorando a vida. Sem segredos. Sem medo.

Mas a realidade gosta de nos dar um último teste. Quando voltamos para o nosso condomínio, as luzes da rua piscavam cansadas. Quando estacionei o carro, vi uma silhueta na calçada de frente pra minha casa. Pedro.

Meu sangue esfriou. Mandei Samanta entrar com o Ruy. Caminhei até o rapaz. Ele estava com a cabeça baixa, parecendo apenas um jovem perdido.
— Me desculpa, Rodrigo — ele começou, a voz falhando. — Eu sinto tanta vergonha que às vezes dói fisicamente.

Eu respirei fundo. A raiva tinha secado.
— Pedro, se eu pudesse voltar no tempo, teria evitado sua mãe a todo custo. Vilma te usou, garoto. Ela viu em você a raiva que precisava para atingir a minha família.

Ali, na calçada, eu entendi o plano. Vilma alugara uma casa no nosso condomínio há meses. Ela vivia nas sombras, nos observando, esperando o momento certo. Ela convenceu Pedro de que eu era um monstro que enganava mulheres e o recrutou para sua vingança. Até a Ceci foi manipulada, achando que estava defendendo mulheres injustiçadas. Por falar na Ceci, ela me mandara uma mensagem curta outro dia: estava indo embora para começar uma nova história. Desejei mentalmente que ela encontrasse a paz.

— Não carregue as armas dos outros, Pedro — aconselhei, colocando a mão no ombro dele antes de entrar.

Dentro de casa, contei tudo a Samanta.
— Eu não confio mais nestas paredes, Sam. Quero vender tudo. Vamos para outro país. Itália, Portugal... um lugar onde sejamos apenas nós.

— E o meu pai? — ela perguntou, sentando ao meu lado.

— O Ricardo é rico, amor. Ele pode nos visitar onde quer que estejamos. Mas precisamos de solo novo.

Ela sorriu, aquele sorriso que me desarmava. Inclinei-me para beijá-la, a voz ficando mais baixa.
— Pensa rápido, porque eu estou com uma vontade absurda de foder você agora...

Nesse momento, ouvimos passos rápidos no corredor. Ruy apareceu na sala, já de pijama, com aquele olhar de quem tinha ouvido demais. Ele se jogou entre nós dois no sofá, abraçando-nos simultaneamente.

— Vocês estão falando de viajar de novo? — Ruy perguntou, olhando de um para o outro com vivacidade.

— Talvez de morar longe daqui, campeão. O que você acha? — perguntei, bagunçando o cabelo dele.

Ruy olhou para Samanta e depois para mim, com uma seriedade precoce.
— Se estiverem juntos, eu aceito. Mas eu quero um quarto que caiba todos os meus livros e um quintal grande pro meu cachorro novo. E, pai... — Ele fez uma pausa, olhando-me fixo. — Para de beijar a mãe toda hora e vamos decidir logo para onde vamos!

Nós dois rimos, uma risada que preencheu a sala e espantou os últimos fantasmas. Ruy deu um beijo estalado no rosto da Samanta e outro no meu. Ficamos ali, os três abraçados, sentindo o calor de uma família que, apesar de ter passado pelo fogo, saiu dele temperada e inquebrável.

Realmente, a vida é um caos, e o amor é o único porto seguro que realmente importa.

A verdade pode ser uma cicatriz profunda, mas é sobre ela que a pele mais forte se regenera.

FIM


***

Obrigada pela paciência e por terem chegado até aqui.
Esses últimos anos foram bem difíceis e por isso posterguei muito a conclusão, mas sabia que iria conseguir.
Abraços e nos vemos na próxima história.

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