Cap. 29

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As horas entre o telefonema de Vinicius e a resposta do especialista digital de Ricardo se arrastaram como areia movediça. A luz da manhã inundava a sala de segurança no porão, mas a sensação era de escuridão total. Samanta estava no quarto de hóspedes com Ruy. No andar de cima, Mariana, esposa de Ricardo, e o filho deles, Fred, permaneciam escondidos, instruídos a ficar em silêncio absoluto. O bunker parecia pequeno diante do medo.
Eu estava colado aos monitores, observando o mapa da cidade, vazio, esperando algum sinal.
— É loucura depender de um rastreamento de celular pré-pago — resmunguei pela décima vez, sem tirar os olhos da tela.
— É o único jeito, Rodrigo — respondeu Ricardo, frio, calculista. — O telefone é novo, mas a operadora registra o uso do sinal. Meu especialista, o Gaspar, está esperando o Pedro ligar, enviar uma mensagem ou tentar fazer o upload do vídeo. Qualquer pico de atividade nos dá a localização da torre mais próxima e, a partir daí, o raio de cinquenta metros do Airbnb. Eles não podem ficar offline para sempre.
— E se a Vilma não estiver com ele? Se ela o mandou para algum lugar e o vídeo já está num servidor na nuvem? — Samanta surgiu na porta, a voz baixa, sufocada pelo medo.
— Vilma não confia em nuvens — disse Ricardo — Ela quer controle total. O vídeo está no celular do Pedro. E se ela está atrás do que perdeu, precisa da garantia de que ele pode postar o vídeo a qualquer segundo. Ela não o soltaria.
Mudei de assunto, apertando o maxilar.
— Você falou com a Mariana? Ela e o Fred estão bem?
Ricardo confirmou com um aceno curto.
— Estão. Escondidos, mas aqui. A casa inteira é um alvo agora. E isso nos leva ao plano B: se falharmos hoje, tenho um avião de pequeno porte pronto para decolar numa pista particular. Ruy, Samanta, Mariana e Fred vão para um lugar onde a Vilma jamais vai encontrá-los. Não é uma vida... mas é segurança.
O peso da decisão caía sobre ele como chumbo. Ricardo estava pronto para perder o próprio controle para salvar todo mundo. Como sempre, meu irmão tomando as rédeas de tudo.

O relógio marcava 11h. A tensão era insuportável. De repente, a tela central piscou. Um ponto vermelho acendeu no mapa.
— Temos um sinal — disse Ricardo, a voz subitamente rígida.
O ponto estava em uma região que eu não conhecia: um bairro afastado, antigo, de classe média baixa. O oposto do nosso condomínio. Lugar perfeito para descartar alguém.
Gaspar entrou na linha. A voz dele era direta, eficiente.
— O sinal é estável. Ele está usando o celular agora. O ponto central é um prédio de três andares com um comércio fechado no térreo. É um Airbnb, com certeza. O rastreio indica que o celular está parado há pelo menos oito horas. É lá.
— Qual a chance de ser uma armadilha, Gaspar? — perguntou Ricardo.
— Cem por cento. A Vilma sabia que seria rastreada. Ela quer o confronto. A vantagem é que ela não sabe quando você vai aparecer. Vocês precisam ser rápidos. E silenciosos.
Ricardo olhou para mim. A raiva queimava, tomando o lugar do pavor.
— Vamos. Samanta, você fica aqui, no quarto, trancada, com o Ruy. Não atende ninguém.
— Não — disse Samanta, já entrando na sala. Estava vestida, o cabelo preso, olhos inflamados. — Eu vou. O vídeo é sobre nós. O Pedro me odeia mais do que odeia você. Eu sei o que ele quer. Eu distraio, você pega o celular.
— Você vai ficar — repetiu Ricardo, a voz baixa e ameaçadora. — Isso não é filme, Samanta. É crime. A Vilma é perigosa. Você tem o Ruy aqui. Sua única função agora é protegê-lo. Se falharmos, você leva ele, Mariana e Fred para o avião. Essa é sua missão.
Segurei o braço dela. O toque foi um lembrete do que estava em jogo.
— Ele tem razão, Sam. Você é a garantia. Por todos eles.
Ela recuou, engolindo em seco. Apenas acenou, sem conseguir esconder a dor.
Ricardo abriu o cofre e pegou um pequeno taser, entregando-o para mim.
— Você sabe usar isso, Rodrigo. A gente não atira. A gente incapacita. E a gente não está indo atrás da Vilma. Só do celular.
Saímos. O sol forte do lado de fora era quase violento depois da escuridão do porão. A estrada até o prédio rastreado foi longa e silenciosa, cada quilômetro confirmando que estávamos dirigindo direto para uma armadilha.
Chegamos ao prédio de três andares. A fachada era de azulejos antigos. O comércio no térreo estava fechado, protegido por grades enferrujadas. Tudo tinha um ar abandonado.
Ricardo estacionou duas quadras antes.
— A entrada é pela porta lateral. Tem um código — disse, já ligando para Gaspar.
— O código é 1987, Ricardo. O Airbnb fica no terceiro andar, apartamento C. Mas atenção: a atividade do celular do Pedro aumentou. Ele está online. Pronto para publicar.
Senti meu corpo congelar. A Vilma estava lá dentro. Esperando. E a vergonha — o fogo — estava prestes a ser acesa.

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