Cap. 32

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Eu estava oficialmente no meu limite. Não no limite dramático de quem ameaça jogar tudo para o alto e fugir para outro país, mas naquele limite silencioso, perigoso, em que você percebe que qualquer escolha errada vai te custar caro demais. Se alguém me dissesse, dez anos atrás, que eu estaria em um chalé isolado no meio do nada, sendo seduzido por uma ex-namorada de parar o trânsito enquanto o futuro do meu sobrinho e a moral do meu irmão dependia diretamente do meu autocontrole (ou da falta dele) eu provavelmente riria alto, pediria mais um copo e perguntaria qual era a marca do uísque dessa pessoa.
Mas ali estava eu. Sem risadas. Sem copo. Sem saída fácil. Puta que pariu.

O som da água da represa batendo nas pedras lá fora parecia uma contagem regressiva cruel, como se o próprio ambiente estivesse me lembrando de que o tempo estava acabando. Cada respingo soava como um "tic-tac" molhado, lento e irritante. O chalé cheirava a madeira antiga, levemente úmida, misturada ao perfume de jasmim que a Ceci usava desde sempre. Aquele cheiro tinha um talento irritante de me transportar no tempo, direto para uma versão mais jovem e muito mais inconsequente de mim mesmo, uma versão que achava que sentimentos eram coisas negociáveis. Não sei porquê, mas era bem mais fácil.

As velas espalhadas pelo ambiente lançavam sombras dançantes nas paredes, criando um clima que era ao mesmo tempo íntimo e ameaçador. Era o tipo de cenário que serviria perfeitamente para uma última noite de despedida... ou para uma péssima decisão que você passaria o resto da vida tentando justificar em silêncio.
Ceci não estava para brincadeira. Nunca esteve.
Ela se aproximou com aquela confiança de quem sabe exatamente o efeito que causa. Não era arrogância. Era consciência. Os cabelos negros, lisos e longos batiam na cintura, brilhando sob a luz amarelada. A pele morena, quente, parecia absorver a iluminação do ambiente de um jeito quase hipnótico. Ceci era linda e não de um jeito óbvio ou genérico, mas de um jeito que exigia atenção. Descendente de indígenas, carregava nos traços uma força ancestral que fazia qualquer homem com sangue correndo nas veias esquecer o próprio nome por alguns segundos.
E eu não era exceção. Eu só estava... vacinado. Acho.

— Você está muito quieto, Rodrigo — ela sussurrou, chegando tão perto que eu conseguia sentir o calor do corpo dela atravessando o ar. — Cadê aquele cara que não conseguia tirar as mãos de mim?

Boa pergunta. Provavelmente enterrado em algum dos mil erros do passado.
Ela começou a abrir os botões da minha camisa com calma, como quem não tinha pressa porque sabia que o final estava garantido. E eu fiquei parado. Literalmente parado. Sério, eu devia estar parecendo um poste de luz quebrado: presente, iluminando mal, mas completamente inútil.
Minha estratégia era a mais infantil possível: inércia total. Se eu não me mexesse, talvez aquilo não estivesse realmente acontecendo. Talvez o universo tivesse apertado o botão errado e logo alguém gritaria "corta".
Mas os dedos dela eram bem reais. As unhas vermelhas arranhavam de leve a minha pele enquanto subiam pelo meu peito, meu pescoço, meu maxilar. Ela me puxou para um beijo intenso, quente, carregado de saudade, desejo e um aviso silencioso de "eu posso te destruir se quiser".

Ela beijava como sempre beijou: com fome. Mordendo o meu lábio inferior, pressionando o corpo contra o meu, testando limites que antes eu nunca tive coragem de impor. As mãos dela desceram para o meu pau, tocando com força por cima da calça jeans, provocando, procurando qualquer sinal de que o "velho Rodrigo" ainda estivesse ali, esperando só um empurrãozinho para ressurgir.
E, por um segundo, só um (juro!) meu cérebro de homem deu um sinal de vida. Afinal, eu sou de carne, não de plástico. Não virei um monge iluminado de repente. Ele endureceu, apontando para o lado da roupa.

Mas então a imagem da Samanta apareceu na minha mente com a força de um balde de água gelada. Samanta na sala de casa, me segurando com força enquanto me pedia, com a voz baixa e sincera, para ser fiel. Não só no corpo, mas no coração.
O desejo morreu ali.
Ceci percebeu.
Ela se afastou alguns centímetros, me encarando com uma mistura perigosa de incredulidade e raiva pura.

— O que foi? — perguntou, a voz ficando mais aguda, mais impaciente. — Você vai ficar aí feito um boneco de cera? Eu estou tentando salvar a sua pele e a da sua família, Rodrigo. Me toca. Me deseja como você fazia antes!

Eu soltei o ar que nem sabia que estava segurando. Senti os ombros caírem, como se o peso da noite inteira resolvesse se manifestar de uma vez.
Olhei bem para ela.
— Olha, Ceci... vou ser sincero com você — comecei, passando a mão pelo rosto. — Eu sou um idiota. Sempre fui. Sou um galinha reformado, um mal-caráter em recuperação e, com certeza, um dos maiores imbecis que já pisaram nesta cidade por ter deixado as coisas chegarem a esse ponto.

Ela cruzou os braços, o olhar duro.
— Vai direto ao ponto, Rodrigo.
— O ponto é que eu errei com você. Muito. Eu te usei. Te usei para tentar tapar um buraco emocional que não tinha fundo. E isso foi ridículo. Foi covarde. Foi injusto.
Os olhos dela faiscaram.
— E o que isso muda agora?
— Muda tudo — respondi. — Porque, apesar de todos os meus defeitos, eu nunca traí a Samanta. Nunca. Todas as vezes que estivemos aqui, eu estava separado dela. Perdido, confuso, tentando apagar uma dor com outra pessoa. E mesmo assim... mesmo com você sendo tudo isso, linda e muito gostosa, o meu coração sempre foi um traidor ao contrário.

Dei um passo para trás, sentindo o ar mais frio do ambiente.
— Toda vez que eu fechava os olhos com você, era o nome dela que vinha na minha cabeça. E isso era um saco. Mas era a verdade.
Ceci respirava pesado agora.
— Posso ter sido "fdp" muitas vezes na vida, mas hoje, eu não vou quebrar a Samanta para reviver nostalgia. Se você quiser postar o vídeo, posta. Destrói o Ricardo. Mas você não vai me levar junto. Não vai dizer que me quebrou no meio.

O silêncio que se seguiu foi brutal. Lancei essa atirando no escuro, na esperança que minha doce Ceci retornasse.
No mais, ela pareceu ter levado um soco invisível no estômago. A postura confiante desmoronou. Olhou para o celular na mesa, depois para mim, como se estivesse tentando decidir entre vingança e dignidade.
— Você realmente ama aquela garota... — murmurou, com uma tristeza crua.

Ela caminhou até a mesa, pegou o celular e começou a mexer. Meus músculos ficaram tensos. Eu estava pronto para ver o mundo da minha família desmoronar em pixels.
Mas então ela virou a tela para mim.

Excluir permanentemente.

— Pronto — disse, e uma lágrima escorreu pelo rosto dela. — Eu não sou o monstro que o Pedro queria que eu fosse. Eu só... eu queria importar para você. Fiz tudo isso por amor. Um amor idiota, doente, mas amor.
Ela quase cambaleou. Por instinto, me aproximei e a abracei. Não havia desejo ali. Só humanidade.
— Perdão por tudo, princesa. Eu não queria te fazer sofrer. Mas sempre serei muito grato por tudo o que você fez por mim — então eu peguei seu rosto e a fiz me encarar enquanto limpava a lágrima do belo rosto com o polegar — Tenho certeza que vai encontrar alguém que vai te amar tanto quanto você me ama e eu amo a Samanta.

Ela riu fraco e desviou o olhar de mim, notoriamente triste.

E nesse exato milésimo de segundo que a porta do chalé foi escancarada.
O vento frio entrou com violência, apagando metade das velas.
E lá estava ela.
Samanta.
Pálida. Os olhos vermelhos. A expressão de quem acabou de ter o mundo esmagado diante dos próprios olhos.
— Rodrigo? — ela sussurrou.
Eu soltei a Ceci imediatamente, mas já era tarde.
O timing era perfeito demais para ser real.
Eu soube, naquele instante, que a parte fácil da noite tinha acabado.

***

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