Cap. 30

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O código 1987 abriu a porta lateral com um clique seco e ecoante, e antes mesmo que eu pudesse colocar o pé para dentro, um bafo de mofo, poeira e umidade velha invadiu minhas narinas. Era como se o prédio inteiro tivesse passado os últimos anos se decompondo lentamente e agora nos recepcionasse com um aviso silencioso: "Ainda dá tempo de voltar."

Mas a verdade é que qualquer chance de voltar tinha sido deixada para trás há muito tempo.Talvez anos. Ou talvez desde o dia em que Vilma cruzou nossas vidas — porque, no fundo, ela sempre foi esse tipo de pessoa que suga a tranquilidade e deixa todo mundo orbitando em torno do caos dela.

Subimos as escadas rápido demais, quase tropeçando nos próprios pés. E a cada lance que subíamos, eu sentia meu coração aumentar o ritmo, pulsando tão forte que parecia querer rasgar meu peito. Eu conseguia ouvir o som do sangue correndo, um martelar insistente dentro da minha cabeça. As mãos suadas, a respiração pesada, a mente acelerada... tudo gritava que aquilo era uma péssima ideia. Mas era necessário. Era inevitável.

O apartamento C ficava no fim do corredor, claro. Tudo com Vilma tinha que ter palco, drama, suspense, climão. Ela jamais marcaria algo simples, tipo um encontro no meio de um corredor iluminado com uma porta trancada. Não. Com ela, tudo sempre tinha que parecer uma cena de filme de terror de baixo orçamento. E lá estava a porta: aberta, mas não aberta de um jeito casual. Ela estava entreaberta de propósito, só o suficiente para passar a sensação exata de: "Entrem. Eu estou esperando vocês."

E estava mesmo.

Ricardo foi na frente. Sempre ele. Ombros duros, maxilar travado, olhar fixo. Um soldado. Um protetor. Sempre tão preparado para levar o impacto primeiro, sempre pronto para tomar a frente quando eu ainda estava tentando respirar. Eu admiro isso nele, mesmo quando ele parece insuportável. E naquele dia... bom, naquele dia eu precisava dessa força dele.

Eu fui logo atrás, tentando ignorar o suor descendo pela palma das mãos. Parecia que eu tinha mergulhado as mãos em água. O pior? Eu sabia que ia piorar.

Entramos, e claro, ela estava exatamente onde imaginei que estaria.

Sentada à mesa de jantar, totalmente composta, como se fosse a anfitriã de um jantar de gala e não a responsável pela maior desgraça emocional da nossa família. O cabelo ruivo brilhava sob a luz amarelada do abajur, a pele branca quase reluzia, e o vestido escuro criava o contraste perfeito. Vilma tinha esse talento irritante: ela podia estar à beira do colapso mental, mas continuava lindíssima. Uma beleza fria. Calculada. Uma beleza que escondia muito bem a insanidade borbulhando ali dentro.

E na frente dela estava Pedro. Tremendo. Pálido. Os olhos arregalados de um jeito que não era normal num adolescente. Mas firme, como se estivesse ali cumprindo uma missão divina. O celular estava sobre a mesa, brilhando como uma bomba relógio. E de certa forma, era exatamente isso.

Vilma abriu um sorriso devagar. Aquele sorriso que sempre pareceu mais um tapa do que um gesto simpático.

— Ora, ora... — ela disse, arrastando as sílabas como se estivesse saboreando cada uma. — Meu cunhadinho favorito e o ex-marido palerma. Entrem. Continuam lindos e tensos como sempre. Até ficaram mais jovens. Ricardo, o estresse caiu bem em você. E você, Rodrigo...

Ela segurou o olhar em mim por tempo demais. Tempo suficiente pra cutucar feridas antigas. Histórias mal resolvidas. Coisas que eu preferia que tivessem sido enterradas com sete pás de terra.

— O tempo não passa, né? — ela continuou, com aquela voz melosa que eu odiava profundamente. — Sempre tão intenso... quase me convenceu a esquecer que eu queria matar o seu irmão. Como está sua sobrinha? Soube que fez um filho nela, não é mesmo? Nossa, Ricardo! Seu grande irmão comendo sua filha. Um absurdo, não? — Ela inclinou a cabeça e sorriu torto para ele, depois voltou pra mim. — Me diz, Rodrigo. Não sentiu falta dos meus beijos? Até hoje lembro que por pouco tivemos um momento maravilhoso de amor.

PROIBIDO ESQUECEROnde histórias criam vida. Descubra agora