Cap. 26

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A amiga da minha mãe também te conhece.

Senti o ar sumir dos pulmões. O deboche — minha arma favorita — falhou miseravelmente. Aquele moleque de moletom, com cheiro fraco de nicotina e hormônios, tinha acabado de me enquadrar.

Minha cabeça começou a girar, mas me forcei a manter o sorriso de canalha no rosto.

— Essa foi boa, Pedrinho. A tua veia poética está em dia. Qual é o nome da amiga da tua mãe? A Branca de Neve? — soltei, tentando manter o controle. — Fala logo, garoto. Você não está aqui pra fazer amizade. O que você quer? Dinheiro?

Eu precisava mantê-lo na defensiva. Dinheiro sempre é um bom catalisador.

O sorriso dele desapareceu, substituído por uma expressão de tédio.

— Não, Rodrigo. Não quero dinheiro. Quero um acerto de contas. E quem me mandou não é a Branca de Neve... é a Rainha Má.

A ficha caiu — pesada e fria como um bloco de concreto.

— Vilma? — sussurrei. O nome que o Vinícius tinha jogado na churrasqueira na noite anterior. A mulher que tentou matar meu irmão. A mulher que agora estava num hospício. — Você está com a Vilma... mas como?

Pedro cruzou os braços, parecendo um executivo júnior dando um ultimato.

— A Vilma não é louca. Ela é esperta. E ela odeia você. Odeia a Samanta. Odeia o Ricardo. A Vilma é a única pessoa nessa cidade que entende a palavra justiça. E adivinha? Eu também entendo.

O ódio nos olhos dele não era por eu ter comido a mãe dele. Era algo muito maior. Era lealdade à Vilma.

— Você viu — afirmei, a voz seca. — Você viu eu e a Samanta ontem, daquela vez e muitas outras vezes, não foi?

Ele riu, mas não foi um riso. Foi um som feio, áspero, como um tossir.

— Ah, eu vi. Eu vi muita coisa nesses últimos meses. Vi a sua sobrinha virar a sua mulher. Vi a sua hipocrisia. Vi você me ameaçar na frente da minha mãe. O que anda acontecendo é só a confirmação de que vocês são mesmo doentes. E essa confirmação foi o meu troco.

— Você acha que ver a gente transando te dá o direito de fazer isso? — perguntei, sentindo o ciúme se dissolver em raiva.

— Eu acho que vocês não têm direito de serem felizes — retrucou Pedro, com uma calma cruel. — E o problema não sou eu, Rodrigo. O seu real problema é a Vilma. E ela está com fome de vingança.

— Onde ela está? O que ela quer?

— A Vilma está bem. Conectada. E ela quer que você saiba que o segredo não é mais o parentesco — esse, a gente já sabe. — O segredo é o vídeo. Ela vai expor a sua intimidade pra que todo mundo veja o que acontece no sofá do Tio Rodrigo.

O chão pareceu tremer. Não era só a honra. Era o futuro.

— Ela vai postar? Onde? Num site adulto? — senti a voz falhar. Eu, o Rodrigo debochado, estava implorando. — O Ruy... não faz isso com o Ruy, Pedro.

Ele inclinou a cabeça, satisfeito com meu desespero.

— A Vilma diz que a vergonha tem que vir da fonte. O filho de vocês tem que saber que a mãe dele é a sua sobrinha, e que vocês são celebridades na internet. E quem vai mostrar é o Ruy.

— Como assim, o Ruy? — murmurei, sem entender.

Pedro deu um passo para trás, em direção à escuridão da cerca viva. O sorriso vazio de antes voltou ao rosto.

— A Vilma está mandando eu me aproximar de novo. Ela sabe que a Samanta morre de medo dela. E o Ruy? O Ruy adora o tio Vini, mas também vai gostar do Pedro. Especialmente quando eu começar a contar histórias... histórias sobre a família dele. E sobre como todo mundo pode assisti-las.

Ele deu um meio sorriso, venenoso:

— Pense em mim como um mensageiro, Rodrigo. A partir de hoje, vou ser o novo melhor amigo do Ruy. E vou ensinar a ele que a vergonha, mesmo a mais feia, é sempre... fixe!

— Você não vai chegar perto do meu filho — rosnei, tirando as mãos dos bolsos.

— Ah, eu vou. Afinal, a intimidade de vocês agora é uma propriedade pública, não é? — ele disse, com um deboche perverso. — Que absurdo! Já não basta ser um casal incestuoso, para agora começarem a se expor na internet como dois doentes pervertidos?

Observei-o desaparecer na escuridão. O medo, enfim, venceu o meu cinismo. Minha família estava em perigo, e eu estava sozinho na rua, encurralado pela própria história.

Corri para a porta de casa, o coração martelando. Precisava ver Samanta. Precisava de Samanta.


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Então, Vilma estava de volta... Mas como tudo isso poderia está acontecendo?

Não perca os próximo capitulos.

Abracos!

PROIBIDO ESQUECEROnde histórias criam vida. Descubra agora