O ar na sala de segurança de Ricardo estava saturado com o cheiro de suor frio e uísque. O relógio de parede parecia martelar cada segundo contra o meu crânio. Vilma fora levada, mas o silêncio que se seguiu não era de paz; era o silêncio que precede o desmoronamento de uma montanha. Eu sentia o peso do olhar de Samanta sobre mim, um olhar que misturava alívio pelo fim do primeiro vídeo e uma insegurança latente que eu conhecia bem.
Eu estava prestes a guardar o meu celular quando ele vibrou. Um toque persistente, agressivo. Quando vi o nome de Ceci brilhar na tela, meu estômago despencou. Claro que salvei o contato. O passado não estava apenas batendo à porta; ele estava derrubando-a.
Ricardo percebeu a mudança na minha postura. Ele se levantou, os olhos cansados, mas alertas.
— O que foi, Rodrigo? Algum problema?
— Não sei — respondi, a voz saindo como um sussurro seco. — É a Ceci.
Samanta estremeceu ao ouvir o nome. Mariana, que segurava Fred com um fervor quase religioso, parou de balançar o bebê. Abri a mensagem, e as palavras pareciam saltar da tela como brasas.
"Rodrigo, eu sei que o circo desabou para o Pedro. Mas ele me deixou um presente de despedida. Eu estou com o vídeo sobre o Fred. Aquele que questiona a honra da Mariana e a legitimidade desse bebê. Pedro me convenceu de que você precisava sofrer o que eu sofri quando você me descartou. Eu estava pronta para postar, mas as memórias de nós dois me impediram... por enquanto. Venha me encontrar na represa. Agora. Sozinho. Se eu sentir o cheiro do Ricardo ou de qualquer autoridade, o futuro do seu sobrinho será sempre questionado e virará pó na internet em cinco segundos.
C."
Entreguei o aparelho para Ricardo. Ele leu e, por um instante, o homem de negócios implacável desapareceu, dando lugar a um pai aterrorizado. Ele passou o celular para Samanta. Eu vi o rosto dela empalidecer, os traços endurecendo. O passado de Ceci e eu era uma ferida que nunca cicatrizara completamente entre nós.
— Você tem que ir — disse Mariana, a voz embargada pelo choro. — Rodrigo, por favor. É o meu filho. Ele é um bebê. Ele não tem culpa de nada disso. Se essa dúvida for plantada, ele nunca será visto como um herdeiro legítimo. O Ricardo será destruído publicamente e eu nunca cogitei em dar um golpe do baú. Faço teste de DNA se quiserem, mas não exponham meu filho...
Então vi Ricardo ir até a esposa rapidamente e abraçá-la com força, que chorosa, afundou o rosto no peito do marido. Fred, em seus braços, observava os pais sem entender nada. Os olhos verdes, curiosos, percebia que aquilo não parecia bom:
— Meu amor, eu nunca desconfiei que o Frederico seja meu filho e tenho certeza que ninguém aqui. Olha só como ele se parece com todos nós. Mais fácil dizerem que você não seja mãe.
Ela riu do gracejo, erguendo o rosto para vê-lo, deixando um suspiro fugir dos seus pulmões e pela primeira vez, em mil anos, que via Ricardo fazendo uma gracinha.
Sorri um pouco daquilo e olhei para Samanta. Ela se aproximou, seus olhos buscando os meus, tentando encontrar uma âncora.
— Eu sei que você tem que vê essa situação, Rodrigo. Eu amo esse bebê tanto quanto você. Mas eu conheço a Ceci. Ela não quer apenas salvar o Fred ou se vingar de você. Ela quer você. Ela quer provar que ainda tem poder sobre o homem que me escolheu.
Segurei as mãos de Samanta. Estavam geladas. Nosso filho jogava alguma coisa no celular, provavelmente sem nem sonhar com o que estávamos vivendo.
— Sam, eu prometo...
— Não prometa nada — ela me interrompeu, a voz firme apesar da dor. — Apenas lembre-se de quem somos. Lembre-se do Ruy. Lembre-se que eu sou sua esposa, sua vida. Seja fiel, Rodrigo. Não apenas no que você faz, mas no que você sente. Não deixe que ela manche o que construímos.
Com o peso dessa súplica nos ombros, a beijei, beijei o alto da cabeça de Ruy e saí da casa. A viagem até o chalé da represa foi um borrão de luzes de trânsito e pensamentos sombrios. O chalé ficava em uma zona rural isolada, onde a mata se fechava sobre a estrada de terra. Era um refúgio que eu e Ceci usávamos quando eu queria fugir da realidade, pouquíssimas vezes. Com certeza deve ter sido marcante para ela.
Ao estacionar, vi o seu carro. As luzes de dentro do chalé estavam acesas, projetando sombras longas sobre a água escura da represa. Entrei. O cheiro de jasmim e madeira queimada me atingiu imediatamente.
Ceci estava de pé junto à grande janela que dava para a água. Ela se virou lentamente.
— Você veio — disse ela, a voz um murmúrio aveludado que ressoava nas paredes de madeira.
— Onde está o vídeo, Ceci? E como você se envolveu com um moleque como o Pedro? — perguntei, tentando manter a distância emocional e física.
Ela caminhou em minha direção com uma graça felina.
— O Pedro me procurou há meses. Ele estava perdido, mas cheio de um propósito que eu entendia bem: vingança. Ele me contou sobre a hipocrisia de vocês. Sobre como você me usou, usou a mãe dele para passar o tempo enquanto esperava a sua verdadeira obsessão ficar pronta. Ele me ofereceu justiça. Ele me deu o vídeo do Fred e me disse que eu seria a mão que puxaria o gatilho se ele falhasse.
— Você não é uma assassina de reputações, Ceci. Você sabe que esse vídeo é uma mentira montada por mentes doentes — argumentei.
— Talvez — disse ela, tocando meu braço. — Mas o mundo adora uma mentira bem contada, especialmente se ela destrói os poderosos. Eu estava pronta para apertar o botão, Rodrigo. Eu queria ver a sua cara quando o império do seu irmão ruísse com fofocas e julgamentos. Mas então... eu me lembrei de nós dois aqui.
Ela parou a centímetros de mim.
— Eu me arrependi de ajudar o Pedro. Ele é instável, perigoso. Por isso tentei te alertar sem ele saber, claro! Mas eu ainda estou magoada. Você me trocou sem olhar para trás. Você me tratou como um pecado que precisava ser limpo.
— Ceci, eu sinto muito se te magoei, mas sempre te deixei claro que nosso relacionamento não duraria. Sempre te deixei claro que era pai e que tinha a Samanta...
— Não fale o nome dela aqui! — ela sibilou. — Aqui, nesta casa, ela não existe. Aqui, eu sou a única mulher.
Ela respirou fundo, recuperando o controle, e aproximou os lábios do meu ouvido.
— Eu tenho o vídeo. Eu tenho as senhas. Eu posso apagar tudo agora mesmo. Mas eu quero o meu preço. Eu quero uma última noite. Eu quero que você faça amor comigo com a mesma intensidade de antes, sem culpa, sem Samanta, sem amanhã. Me dê essa memória para substituir o vazio que você deixou. Se fizer isso, a reputação da sua cunhada não será manchada e o seu sobrinho terá o futuro garantido. Se recusar... eu posto o vídeo e desapareço. E você terá que viver sabendo que destruiu o seu sobrinho para manter uma fidelidade que já foi quebrada há muito tempo.
O dilema era um abismo.
— Você está me pedindo para destruir o que eu sou — sussurrei.
— Destruir quem você é, Rodrigo Dorneles? Você, um galinha de marca maior que se apaixonou pela sobrinha e fez um filho nela? Se quiser, pode ir embora, afinal de contas, escândalos já são corriqueiros na sua família, não é mesmo?
Eu franzi o cenho, realmente perplexo. Rapaz... aquela era a Ceci que tive o prazer de viver uma história junto, uma mulher doce, amável e que me ajudou no pior momento da minha vida?
— Ceci, o que está acontecendo? Essa não é você.
Ela me encarou próxima, o rosto quase colado no meu:
— Você me transformou nisso, amor. Só eu sei a dor que senti... Eu ainda amo você, Rodrigo e só estou te pedindo para salvar quem você ama pagando com a única coisa que me resta de você — disse com os lábios roçando os meus, esperando a resposta que mudaria o curso dessa história.
O som da água da represa batendo nas pedras lá fora parecia uma contagem regressiva para um desastre. Eu estava sozinho com Ceci, e o preço da paz era o pecado.
***
Vilma usando Pedro para se vingar e ele usando Ceci para colaborar com o plano. Que coisa, não?
Rodrigo, novamente, metido em encrenca.
Será que vai cumprir com o pedido da amada ou vai satisfazer a Ceci pelo bem da família?
Em breve, no próximo capítulo.
Feliz 2026! 🎉
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PROIBIDO ESQUECER
Storie d'amoreCom grande beleza, carisma e sensualidade, Rodrigo tinha todas as mulheres aos seus pés e com certeza, se aproveitava disso, afinal, o sexo feminino sempre foi o seu ponto fraco. No mais, não esperava que o destino lhe pregasse uma peça. Por conta...
