Cap. 27

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Eu me virei, o eco da voz fria de Pedro ainda martelando na minha cabeça: "Eu vou ser o novo melhor amigo do Ruy."
O moleque havia sumido na escuridão, engolido pela cerca viva do condomínio, mas a ameaça pairava no ar frio. Eu não sentia raiva, sentia pavor. O meu cinismo, meu escudo de anos, havia sido quebrado por um adolescente... e por uma ex-esposa psicótica do meu irmão, que agora controlava tudo de um hospício.

Corri para a porta de casa. O trajeto de dez metros pareceu uma maratona. Eu precisava de Samanta, da cumplicidade dela, do consolo de acreditar, ainda que por um segundo, que eu estava exagerando. Mesmo sabendo que não estava.

Entrei como um vendaval, mas parei na soleira da sala.
Samanta estava sentada no sofá, com uma toalha enrolada no corpo e os cabelos ainda úmidos do banho. A TV passava uma comédia romântica qualquer, e o cheiro dela — uma mistura de sabonete caro e calmaria — pairava no ar. A paz dela era uma afronta.

— O que foi, Rodrigo? — ela perguntou, erguendo o olhar. — Você viu um fantasma? Seu deboche sumiu, o que é isso?

Caminhei até ela.

— Não vi um fantasma, Sam. Conversei com o estagiário do inferno: o Pedro. E ele estava falando pela Vilma.

O nome da mãe do Vinícius fez o corpo dela endurecer. A toalha que a cobria virou uma espécie de armadura.

— O Pedro me parou na rua, na frente de casa — continuei, cuspindo as palavras como coquetéis molotov. — Essa filha da puta não está louca porra nenhuma, está nos chantageando. E tem o vídeo, Samanta. Um vídeo do satanás!

Expliquei sobre Vinícius, sobre Pedro ser o mensageiro, e, finalmente, sobre o plano nojento de humilhação pública.

— Ela vai postar a nossa foda. Ele tava filmando tudo. Vai espalhar o vídeo do que fazemos no sofá, na cozinha, quem dirá se não se pendura por aí pra vê até o que acontece no quarto... Tudo isso para nos atacar, atacar nosso filho. Imagine só, um vídeo nosso na internet. Meu filho vai ser publicamente exposto como o filho do tio e da sobrinha que fazem vídeo pornô.

Samanta soltou meus braços e se afastou, a respiração acelerada.

— Não — sussurrou, quase sem voz. — Não, isso não é possível. Ele nos viu! Eu fugi pra Portugal pra proteger o Ruy, Rodrigo... não pra ser humilhada num site de putaria! Não quero que meu filho passe por isso! Preciso ir embora daqui!

— De novo? Tá louca, mulher? Ter ido antes esolveu alguma coisa?

Ela deu de costas, levando a mão à cabeça em um ato de desespero. Depois virou tão rápido que pensei que a toalha iria cair.

— Culpa sua! Só pensa em transar, em transar em qualquer canto dessa casa, não se preocupa em vê se estar tudo seguro!

O quê? Ela estava me culpando?

— Samanta!

Gritei tão alto e ríspido que ela me encarou assustada, parando. O som da comédia romântica na TV era um escárnio. Ela me acusou de tê-la exposto na janela; eu a acusei de fugir pra Portugal sem resolver nada. A culpa era um veneno que nos dividia, enquanto a ameaça nos unia.

— Ok. Ok, baixa o tom — eu disse, respirando fundo. — A gente precisa pensar. Ninguém aqui é culpado de nada e não adianta buscar culpados. Somos uma família, incestuosa ou não, mas somos. Vamos pensar — disse me sentando na poltrona, tentando pensar — Se envolvermos a polícia agora, até comprovarmos algo errado, já terá dado tempo da Vilma postar esse vídeo na internet. Sem esquecer que pode tentar contra a nossa vida. Não podemos arriscar. A Vilma quer nos destruir por vingança. E o Ricardo precisa saber disso, pois ela pode tentar algo contra ele, contra a Mariana e principalmente, contra seu irmão.

Levantei-me, olhando para a janela da sala — a mesma que nos expôs. Estava escura, refletindo apenas a luz da TV.

— Temos que fechar todas as cortinas. Todas. E nunca mais fazer isso aqui — disse Samanta, a voz tomada pela paranoia.

Assenti, caminhando até a porta de vidro que dava para o jardim. Mas então meu olhar parou na mesinha lateral do sofá. O meu celular estava ali. E, ao lado dele, algo que não deveria estar.

Uma pequena caixa de fósforos, daquelas antigas, de madeira. Não era nossa. Nós não fumávamos. Apontei para a caixa, mostrando-a para ela. Ela franziu o cenho e levou as mãos ao peito, como se tentasse se abraçar.

Peguei a caixa. Era leve. Abri. Dentro havia apenas um único palito de fósforo, já usado, a ponta preta de queimado. Enrolado nele, um minúsculo pedaço de papel.
A letra não era adolescente. Era elegante, precisa.
Vilma.

"O fogo já está aceso, queridinho. Que pena que o Ruy vai ter que assistir à reprise do que todos já sabem. Afaste-se dele. Ou eu me certifico de que vocês dois queimem no feed de notícias."

Olhei para Samanta. Ela estava em choque.

— Alguém entrou — murmurei, a voz rouca. — Em algum momento, alguém entrou aqui.

— Mas como? Quando?— ela disparou, trêmula.

Não importava. O perigo não estava mais lá fora. Estava dentro.

Caminhei rápido até minha mulher e a segurei no braço, puxando-a pra até o quarto do nosso filho:

— Vamos tirar o Ruy daqui. Expor o Ruy ao Pedro é um risco, mas deixá-lo aqui, com a Silvia sabendo onde ele está, é suicídio. A gente leva ele. Agora.

Samanta concordou, o medo superando qualquer lógica.

— Você pega ele. Eu levo as chaves.

Corremos para o quarto do Ruy. Eu o peguei no colo, o peso suave do corpo adormecido contrastava com o peso da ameaça que nos cercava. Envolvemos o menino no cobertor. Ela pegou as chaves do carro. Saímos pela porta da frente, observando as casas vizinhas, a cerca viva, a escuridão. Eu sabia que havia uma sombra parada lá, observando a nossa fuga.

A viagem de dez minutos até a casa de Ricardo foi o silêncio mais pesado da minha vida.
Samanta chorava baixo no banco do carona, segurando Ruy contra o peito após eu tê-lo entregue.

Chegamos quase à meia-noite. Ela ficou no carro, enquanto eu bati na porta com força demais.

Ricardo abriu, vestindo um robe de algodão . A surpresa dele durou pouco. O olhar dele passou do meu rosto pálido para o carro na garagem, onde Samanta segurava o filho.

— O que aconteceu? O Ruy está doente? — ele perguntou, alarmado.

— Pior — respondi, jogando a caixa de fósforos na mesinha de centro. — É a Vilma. Ela não está doente. Está nos caçando. Tem um vídeo nosso... e entrou na nossa casa hoje.

Ele pegou a caixa, leu o bilhete minúsculo. A expressão dele não foi de raiva, foi de terror.

— Eu sabia — murmurou. — O Vinícius não sabe de nada. Ela está solta.

Samanta entrou, incapaz de ficar no carro. Trazia Ruy nos braços.

— Como assim, solta? Isso é sério! Ela tentou te matar! — gritou.

Ricardo respirou fundo, a voz baixa, carregada de tensão.

— A Vilma estava cumprindo uma Medida de Segurança. Não era pena de prisão, era tratamento psiquiátrico compulsório. Ela foi considerada inimputável. Essa medida precisa ser reavaliada constantemente. E há três dias, o juiz concedeu liberação condicional.

Fez uma pausa longa, os olhos fixos em mim.

— O laudo dela deve ter sido manipulado. A condição era que ela permanecesse na casa da irmã, sob supervisão médica. Mas a irmã está viajando. Ou seja... Vilma está solta. Legalmente "vigiada", mas livre. Ela usou o sistema pra conseguir o que queria: liberdade e vingança.

Ele olhou para Samanta, depois para mim.

— E sabe exatamente o quão perto pode chegar de todos nós, sedenta por vingança.

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O jogo psicológico de Vilma está deixando todos loucos! O que poderá acontecer?
Não perca o próximo capítulo.

PROIBIDO ESQUECEROnde histórias criam vida. Descubra agora