Cap. 33

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O olhar da Samanta foi como um soco no estômago, desses que não acertam só o corpo, mas atravessam a alma e deixam a gente sem ar. Por uns bons dez segundos, ou talvez uma eternidade inteira, eu simplesmente congelei. Estava ali, parado, a camisa aberta de forma indecente, segurando o rosto feminino como se quisesse beijá-la.. O silêncio dentro do chalé se tornou tão espesso que parecia ter peso, densidade, textura. Dava para ouvir o estalo seco da lenha queimando na lareira como se fossem tiros disparados dentro da minha cabeça. Cada crepitar era uma acusação. Cada sombra projetada na parede parecia apontar para mim.

Eu vi tudo acontecer em câmera lenta. Vi os olhos dela percorrerem meu corpo, notarem a camisa aberta, a proximidade indevida, o cenário perfeito demais para qualquer explicação razoável. Vi a esperança morrer um pouco naquele verde que eu conhecia tão bem. E, naquele instante, compreendi com uma clareza brutal: não importava o que tivesse acontecido de verdade; importava o que parecia ter acontecido. E aquilo parecia imperdoável.

Ceci, com aquela frieza cirúrgica de quem já tinha perdido tudo e, justamente por isso, não tinha mais nada a perder, se afastou de mim lentamente. O toque dela se desfez como uma lembrança ruim. Ela limpou o rosto com as costas da mão, ajeitou o vestido de seda como se estivesse se preparando para uma estreia num palco qualquer, e caminhou em direção à porta com uma dignidade ensaiada. Ao passar por Samanta, parou. O mundo pareceu prender a respiração.

Por um segundo infinito, as duas se encararam. A morena de cabelos longos, postura firme, olhar ferido. A loira que tem sido o centro de todos os meus desejos. Ceci abriu um sorriso de canto, um daqueles sorrisos que só as mulheres entendem por completo: um sorriso cheio de subtextos, camadas e armadilhas. Era carregado de uma segurança que ela já não sentia, mas que ainda sabia fingir muito bem. Um sorriso calculado para fincar uma estaca invisível no coração da Samanta.

— Ele é todo seu, "sobrinha" — Ceci debochou, a voz baixa, quase doce, porém firme, antes de desaparecer na escuridão da noite.

A palavra ecoou. Sobrou no ar. Feriu.

O barulho do motor do carro dela dando partida foi o gatilho final. Samanta me encarou rápido, deu meia-volta, um soluço sufocado escapando do peito, e saiu correndo sem olhar para trás, em direção à margem da represa. O desespero deu força às pernas dela, e a culpa deu peso às minhas.

— Sam! Samanta, espera! — gritei, tropeçando nos próprios pés enquanto tentava fechar dois botões da camisa e correr ao mesmo tempo. Era patético. Tudo em mim parecia desajeitado, errado, atrasado.

A noite estava um breu quase absoluto, quebrado apenas pela lua refletida na superfície escura da água. A represa parecia um espelho negro, guardando segredos. O vento cortava a pele, trazendo o cheiro de terra úmida e folhas secas. Samanta corria rápido, movida por aquela mistura perigosa de ódio, amor e mágoa que dá asas, ou pernas, a qualquer pessoa ferida.

Eu a alcancei perto de um deck de madeira velho, gasto pelo tempo e pela umidade. Segurei o braço dela e a puxei para mim. Ela tentou se soltar com força, me empurrando com os punhos fechados, cada golpe carregado de dor.

— Me solta, Rodrigo! — ela gritava, a voz embargada. — Vai lá com ela! Vai terminar o que vocês começaram naquele cenário montado, naquela encenação ridícula!

— Samanta, me escuta! — pedi, segurando os ombros dela, forçando-a a me encarar. — Por favor. Só me escuta.

— Como? — ela retrucou, as lágrimas brilhando no rosto, misturando raiva e decepção. — Como você quer que eu escute se tudo o que eu vi grita o contrário? Você estava abraçado com ela! A camisa aberta! Vocês sozinhos naquele lugar onde vocês... onde vocês sempre se perdiam!

PROIBIDO ESQUECEROnde histórias criam vida. Descubra agora