Cade a lara ?

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O trajeto entre o complexo de estúdios e o restaurante na encosta litorânea de Jeju foi marcado por uma efervescência quase palpável dentro do veículo utilitário. Toda a equipe de produção, fotógrafos e diretores de arte respiravam aliviados e orgulhosos; sabíamos, sem margem para dúvidas, que aquele ensaio conjunto com Kim Mingyu não seria apenas mais uma peça no portfólio da Calvin Klein, mas o marco estético e o assunto dominante de todo o encerramento de ano na Coreia do Sul.

​No interior do estabelecimento reservado, o ambiente era de pura celebração. Ríamos alto, compartilhávamos piadas de bastidores e brindávamos ao sucesso estrondoso que se desenhava no horizonte digital. Akira, fiel ao seu protocolo de segurança e visivelmente mais contido após a discussão da madrugada, mantinha-se postado a uma distância estratégica perto da entrada do salão privado, operando como uma sentinela atenta e silenciosa.

​O tempo parecia correr em uma frequência acelerada entre conversas fluidas e taças que se chocavam, até que a silhueta imponente de Alberto cruzou o portal do recinto. O semblante grave e severo do industrial funcionou como um contraste imediato com a atmosfera festiva da mesa. Ele cumprimentou formalmente os diretores com um aceno cortês e, sem rodeios, fixou as suas pupilas em mim.

​- Lara... podemos nos afastar por alguns instantes para um alinhamento em particular?

​O teor sóbrio do pedido causou uma sutil interrupção na dinâmica da mesa, mas mantive a minha postura polida e assenti, depositando a minha taça sobre a mesa.

​- Claro, Alberto. Pessoal, com licença por um momento.

​Guiada por ele, caminhei até uma área mais reservada do terraço externo do restaurante, onde o som das ondas quebrando contra as rochas de Jeju abafava a música do salão. Encostei-me suavemente contra o parapeito de mármore, cruzando os braços para me proteger do vento frio da noite, aguardando que ele desse o tom da conversa.

​Alberto soltou um suspiro denso, as mãos espalmadas guardadas nos bolsos da calça de alfaiataria, antes de verbalizar o que parecia corroer o seu brio familiar.

​- Antes de entrarmos em qualquer pauta de negócios, Lara... eu faço questão de te estender o meu mais sincero pedido de desculpas institucional e pessoal. Eu acabei de descobrir, da forma mais crua e vergonhosa possível, a extensão das artimanhas e das hostilidades que a minha filha andou orquestrando pelas suas costas em Seul... e eu lamento profundamente pelo impacto que isso causou na sua vida.

​Permaneci em silêncio por alguns segundos, permitindo que o som do mar preenchesse o espaço enquanto digeria o peso daquela admissão de culpa. Eu não tinha interesse em alimentar rancores familiares.

​- Alberto, a sua filha é uma mulher de maioridade legal, perfeitamente consciente das suas escolhas e alianças - respondi, a voz destilando uma serenidade madura. - Ela executa o que bem entende com a própria reputação. Não creio, sob hipótese alguma, que você deva carregar o fardo ou se desculpar pelos desvios de conduta dela.

​Ele assentiu de forma lenta, mas as linhas de expressão em seu rosto ainda denunciavam um incômodo profundo, um peso que o dinheiro não conseguia mitigar.

​- Ainda assim, como homem de negócios e como pai, eu sinto a necessidade de redimir essa narrativa e estabelecer uma linha de justiça. Por essa razão, vim pessoalmente te estender a proposta oficial para ocupar o cargo de embaixadora global da nossa principal holding de luxo. Se você aceitar os termos, será o rosto exclusivo da nossa próxima grande transição de mercado.

​A oferta era financeiramente astronômica e estrategicamente perfeita para consolidar a minha independência de qualquer agência de entretenimento, mas eu não tomaria uma decisão da magnitude de um contrato internacional sob o efeito da pressa.

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