Vamos tentar - ( visao de tae)

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Ver Lara cruzar o portão de embarque e sumir na esteira que a levaria de volta à Suíça foi um golpe que fraturou a minha linha de estabilidade. Durante os nossos dois anos de história, ela já havia retornado à Europa algumas vezes, mas aquela partida carregava a densidade de um exílio. A incerteza flutuava no ar de Seul como uma névoa gélida, e uma pergunta de contornos cruéis martelava o meu subconsciente dia e noite: será que a estrutura psicológica dela suportaria o peso esmagador da engrenagem que nos cercava?

​Eu mesmo já operava na linha limítrofe do colapso. Descobrir que a minha própria mãe, movida por interesses dinásticos e um elitismo corporativo cego, arquitetava ativamente os nós para nos sufocar me fazia experimentar uma náusea existencial profunda. Eu me sentia indigno de tocar na pele de Lara; sentia-me o vetor da ruína dela.

​A turnê mundial avançava sem tréguas, uma sequência de fusos horários, hotéis de luxo intercambiáveis e palcos barulhentos. O fato de Lara ter aceitado a presença de um dos nossos agentes de segurança mais qualificados lá em Zurique era o único analgésico para as minhas noites de insônia. Mas os bastidores do grupo, sob a pressão do nosso silêncio, começavam a acumular fissuras.

​Eram rodadas excessivas de uísque após os shows no camarim para anestesiar a exaustão, Jin perdendo o timing e soltando palavras truncadas durante a gravação de um conteúdo oficial, Hoseok e Namjoon travando uma discussão ríspida nos bastidores por um erro de contagem na coreografia que ninguém conseguiu compreender... O grupo estava tensionado. No entanto, nada do que vivi naquela estrada me preparou para o choque térmico que me aguardava ao destrancar a porta do meu apartamento na Coreia naquela madrugada.

​Priscila estava lá.

​Ela ocupava o centro da minha sala de estar com uma naturalidade repulsiva, o aroma do perfume dela violando o espaço que pertencia à memória de Lara.

​- O que diabos você pensa que está fazendo dentro da minha propriedade privada? - minha voz cortou o silêncio, saindo em um tom grave, desprovido de qualquer polidez.

​Ela exibiu um meio sorriso simétrico, cruzando os braços com uma audácia que me fez dar um passo atrás pelo asco.

​- Ué, Taehyung... nós vamos nos casar em breve, não vamos? A sua mãe foi quem me deu o cartão de acesso e pediu expressamente para que eu me acomodasse aqui para fazer sua recepção.

​Senti o sangue ferver nas minhas artérias, uma pulsação violenta atingindo minhas têmporas.

​- Você perdeu completamente o juízo, Priscila?

​- Você simplesmente não tem outra opção viável, Taehyung. A engrenagem da agência e a sua família já fecharam os termos. Aceita que dói menos.

​Soltei uma risada anasalada, puramente sarcástica, enquanto desfazia o nó da minha gravata com um puxão ríspido.

​- É aí que a sua arrogância te cega. Você e a minha mãe acham que controlam as minhas escolhas. Vou te dar exatamente cinco minutos para recolher os seus pertences e sumir da minha frente antes que eu acione a segurança do condomínio e ordene que te arrastem pelo saguão exatamente do jeito que você está. Já parou para mensurar o tamanho do prejuízo para a sua imagem pública? Ser escorraçada do meu apartamento e estampar a capa dos tabloides matinais como uma intrusa?

​Os olhos dela faiscaram em uma mistura de ódio e humilhação, mas ela manteve a postura rígida.

​- Você jamais teria a coragem de gerar um escândalo dessa magnitude para a BigHit.

​Dei um passo decisivo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, sustentando um olhar impregnado de desprezo absoluto.

​- Eu já avisei à minha progenitora que, se vocês insistirem nessa loucura, eu transformo a vida de vocês em um inferno midiático. Mas quer saber a verdade crua? Nada em você me atrai. Nem que você estivesse banhada a ouro e carregasse os títulos mais nobres do país eu seria capaz de te desejar por um segundo sequer.

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