Lara e tae

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Agora tudo fazia sentido de um jeito quase assustador. Os enjoos bizarros que não me davam trégua, a anemia que surgiu do nada e capotou a minha imunidade, mesmo eu me entupindo de vitaminas e remédios todo santo dia... gêmeos. Meu coração disparou tanto que achei que o monitor do hospital fosse começar a apitar feito louco. Duas vidas ali dentro.

​- Você gostaria de saber o sexo dos bebês agora, senhorita Lara? - a voz mansa do médico quebrou o transe, me trazendo de volta para a realidade daquele quarto branco.

​Fiquei sem ar por um segundo e percorri o olhar pela sala cheia de gente. Namjoon, que não deixava passar um detalhe, sacou na hora o desconforto e a necessidade de espaço que eu estava sentindo. Ele deu um passo à frente e cutucou os outros.

​- Pessoal, vamos dar uma saída rápida e deixar a Lara conversar com o médico com um pouco mais de privacidade, por favor - ele pediu, já empurrando o Yoongi e o Jin em direção à porta.

​O Tae continuava completamente travado no mesmo canto da parede, absorvendo a notícia como se tivesse levado um soco no estômago. O mundo ao redor dele parecia ter parado de girar de uma vez só. O choque estava estampado em cada linha do rosto dele.

​- Tae? - chamei bem baixinho, quase em um sussurro.

​Ele deu um sobressalto de leve e ergueu o olhar. Os olhos dele estavam vermelhos, inchados e cheios de lágrimas acumuladas, fixos em mim como se eu fosse a única resposta para o caos que estava na cabeça dele.

​- Vem aqui perto... - pedi, num tom manso, e logo me virei para o obstetra. - Doutor, o senhor pode dar cinco minutos para a gente, por favor?

​- Claro, sem problemas. Estarei logo ali no corredor se precisarem - o médico respondeu, guardando o estetoscópio e fechando a porta com cuidado ao sair.

​Assim que a fechadura deu o estalo e a porta se isolou, fiz um esforço para sentar na beirada da cama hospitalar. O Tae se aproximou devagar, com os ombros caídos, e sentou bem ali do meu lado. A mão dele buscou a minha de um jeito desajeitado, tremendo tanto que dava para sentir a vibração da pele dele. E foi aí que ele desabou de vez. As lágrimas começaram a escorrer livres pelo rosto dele, e o peito dele subia e descia em um choro sufocado, pesado. Não era só o susto de descobrir que ia ser pai de dois. Era sobre a gente. Sobre o tamanho do estrago que nós nos causamos e tudo o que deixamos morrer pelo caminho.

​Fiquei observando ele chorar daquele jeito por alguns segundos. Meu coração doeu, mas eu precisava ser firme. Ergui a mão livre, segurei o queixo dele com os dedos e limpei uma lágrima que escorria, forçando ele a olhar bem dentro dos meus olhos.

​- Me escuta, Tae... olha para mim.

​Respirei fundo, sentindo aquela queimação familiar da dor entalada bem no meio da minha garganta.

​- Nós tentamos de verdade, sabe? Uma vez, duas... fomos até o nosso limite. Mas eu cansei. Cansei de verdade de ficar esperando o dia em que você ia finalmente amadurecer e assumir as rédeas da sua vida. Doeu demais no meu peito perceber que o homem por quem eu me apaixonei de um jeito tão intenso não teve coragem nem de defender a mãe dos próprios filhos quando o bicho pegou lá fora. Doeu acreditar que eu era a errada da história por querer o mínimo de segurança, quando, na verdade, você não foi capaz de entregar nem esse mínimo.

​Ele fechou os olhos com força, apertando os dentes, enquanto engolia o choro.

​- Eu voltei da Suíça com um pingo de esperança, achando que dessa vez as coisas seriam diferentes, que você já estaria livre de todas essas amarras de mídia e da sua família. Mas não. Mais uma vez, tomei uma rasteira da realidade. Tae... são tantas camadas de mágoa e de dor acumuladas que eu já nem sei se a gente deveria ter cruzado os caminhos um dia. Eu queria muito que desse certo. Eu tentei com todas as minhas forças. Mas agora, de verdade? Eu desisti. Eu não quero mais.

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