Nada Demais

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O sentimento que dominava o meu peito era um só, nítido e cortante: ou eu encararia aquela festa surpresa com a mais absoluta elegância, ou deixaria a onda de raiva transbordar pelas minhas veias e arruinaria por completo o aniversário do homem que eu tanto amo. Decidida a manter a minha compostura intocável, respirei fundo, permitindo que o ar gelado estabilizasse meus batimentos, e me forcei a permanecer sentada na poltrona estofada. Fiquei observando à distância enquanto os convidados e a equipe da agência se cumprimentavam no hall com sorrisos perfeitamente ensaiados, daqueles que a alta sociedade coreana domina com maestria. Levo um mini canapê de salmão à boca, mastigando devagar, muito mais por distração e para aplacar o nervosismo do que por fome real.

​Entre o burburinho das conversas cruzadas e o som ambiente da música lounge que preenchia o salão, sinto o olhar do Yoongi cortar o espaço e me encontrar com precisão. Há algo profundamente silencioso, quase cúmplice, na forma como os olhos pequenos e atentos dele me estudam. Ele me conhece o suficiente para ler os meus sinais. Respondo ao fitar dele com um sorriso contido, apenas o bastante para que ele capte a mensagem subliminar: eu estou bem, não se preocupe. Ele assente sutilmente com a cabeça antes de voltar a dar um gole em sua bebida.

​Nesse momento, os meninos do grupo se levantam em bloco e caminham em direção à entrada para receber oficialmente os pais do Tae e seus irmãos. Por uma fração de segundo, a minha mente cogita a ideia de acompanhá-los para fazer as honras, mas meu corpo dita o contrário e decido ficar exatamente onde estou. Eu já ergui a bandeira branca para o Taehyung ao permitir a presença deles ali; não preciso forçar uma simpatia que ninguém no recinto deseja. Resolvo permanecer sentada ao lado da Lua, que acompanha cada um dos meus micromovimentos com uma atenção cirúrgica.

​- Você não vai falar absolutamente nada, Lara? - ela pergunta em um sussurro, inclinando o corpo um pouco mais na cadeira, tentando buscar segredos ou qualquer sinal de colapso no meu rosto.

​- Sinceramente, Lua, não. - Respiro devagar, controlando a expansão do meu diafragma para não pressionar a barriga, mantendo o tom de voz perfeitamente calmo. - O Tae precisa dos pais dele por perto hoje. É o aniversário de trinta e um anos dele, um dia importante demais para ele carregar mágoas. Mas pode ter certeza de uma coisa: nada do que eles fizerem ou disserem aqui dentro vai ter o poder de nos separar.

​Ela arqueia uma das sobrancelhas, genuinamente intrigada com a minha postura.

​- Você está calma até demais para o meu gosto... eu deveria começar a me preocupar com o tamanho da bomba que você está guardando?

​Sorrio de canto, mantendo o olhar fixo e firme na taça de água com gás entre as minhas mãos.

​- Jamais. Fica tranquila, amiga. Está tudo sob o meu completo controle.

​Quando os meninos retornam para o centro do salão trazendo a família Kim, sinto o olhar do pai do Tae se fixar diretamente em mim. É um fitar pesado, carregado de uma curiosidade analítica e, talvez, um toque nítido de surpresa ao me ver ali, tão bem acomodada. Levanto-me da poltrona com movimentos deliberados, endireitando as dobras do meu vestido elegante, e caminho até o grupo com a melhor postura que consigo reunir, mantendo a espinha ereta.

​Taehyung percebe a minha aproximação e, imediatamente, dá um passo para o lado, estendendo a mão para envolver a minha cintura com um toque possessivo e protetor.

​- Pai... essa é a minha esposa, a Lara. - A voz do Taehyung ecoa com uma firmeza impressionante pelo ambiente, mas, como conheço cada nuance dele, consigo perceber o leve e quase imperceptível tremor na última palavra. O peso da revelação estava todo ali.

​- Muito prazer em conhecê-lo oficialmente, senhor Kim. - Digo com respeito, curvando-me levemente em uma saudação tradicional, mantendo uma distância educada, porém inteiramente confiante e firme.

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