O som metálico do motor do sedã cortou a sinfonia abafada da nevasca lá fora. Quando o carro finalmente estancou diante da fachada iluminada, meu peito desferiu uma batida tão violenta que reverberou na minha garganta. Pelo ponto cego da janela, ouvi a modulação mansa da voz de Jimin, instruindo-a a desembarcar e entrar no imóvel. Minhas mãos, frias e suadas, apertavam o caule do buquê com uma força desmedida, fazendo com que as flores coloridas parecessem carregar o peso de um julgamento final. Mantive a cabeça baixa por um microssegundo, puxando o ar com dificuldade para o topo dos pulmões, tentando blindar o que restava da minha coragem.
Então, a atmosfera mudou. A fragrância familiar dela precedeu seus passos, e eu soube que ela havia entrado.
Ergui o olhar de forma gradativa. Lá estava ela.
Lara.
A beleza dela continuava a ser o meu ponto de fratura, mas havia uma mutação nítida na sua postura. Ela não era mais a menina assustada que eu havia deixado no aeroporto; parecia mais vertical, blindada, infinitamente mais forte - e assustadoramente distante. Olhar para a silhueta dela ali, no centro da sala que projetei para ser o nosso santuário, fez-me naufragar em uma culpa lancinante. Eu quase havia destruído tudo. Quase perdi a mulher que ressignificou a minha existência.
Ela deu um único passo à frente, as pupilas escuras varrendo o cenário natalino antes de fixarem-se em mim. Sua voz veio em um sussurro navalhado:
- Por que tudo isso, Taehyung? Por que essa encenação agora?
Engoli em seco, sentindo a traqueia queimar. Dei um passo na direção dela, mas a articulação das palavras parecia travada pela rigidez do meu arrependimento.
- Eu cheguei a cruzar o portão da casa da minha mãe, Lara... - comecei, a voz saindo frouxa, arrastada, quase sem sustentação. - Mas, no segundo em que coloquei os pés ali dentro e vi o teatro que ela montou, eu percebi o tamanho da minha injustiça com você. O quanto tudo aquilo era moralmente errado. Eu não pertencia àquela mesa. Eu não deveria estar lá.
Ela sustentou o meu olhar, mas a imensidão dos seus olhos estava inundada por uma mágoa antiga e sedimentada. E então, com a precisão cirúrgica de uma lâmina de gelo, as palavras dela cortaram o resto das minhas defesas.
- Prioridades, Taehyung. É simples assim - ela respirou fundo, a voz oscilando sutilmente, mas sustentando uma firmeza inabalável. - Eu realmente alimentei a ilusão de que, durante os três meses em que permaneci isolada na Suíça, você usaria o distanciamento para resolver os nós da sua vida. Que teria a coragem de tomar uma decisão definitiva. Mas eu já entendi a dinâmica. A partir de hoje, a única e absoluta prioridade da minha existência é a segurança do nosso filho.
Aquela sentença pesou como chumbo derretido diretamente nas minhas costelas. Porque, no recôndito da minha alma, eu tinha a perfeita consciência de que ela estava coberta de razão. Eu havia falhado na cronologia da proteção.
Fiquei estático, encarando o contorno do seu rosto enquanto o nó na minha garganta se expandia até me impedir de respirar. Diante daquela altivez magoada, fiz a única coisa que me pareceu digna e justa para poupá-la de mais desgaste.
Dei um passo para trás, rompendo o nosso campo de gravidade.
- Faça o que for melhor e mais seguro para você, Lara - minha voz fluiu em um sussurro mais baixo do que eu pretendia, entregando a minha total derrota. - Porque eu já consegui enxergar que esse "melhor"... definitivamente não sou eu.
E, sem permitir que ela testemunhasse o colapso do meu semblante, dei as costas e me retirei.
Caminhei até a sala de jantar principal e me sentei à mesa, aguardando que o restante dos meninos cruzasse a entrada sob o comando de Jimin. Eu precisava de cada fração de autocontrole para não arruinar o Natal dos meus irmãos. Se havia uma lição de sobrevivência que a Lara havia me ensinado ao longo dos nossos dois anos de bastidores, era uma regra de ouro:
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Intuição
Fiksyen Peminat(+18) (Plágio é Crime) (Não permitido adaptações) Lara uma jovem que acreditou na sua intuição e teve a maior reviravolta da sua vida, tudo tem um porque quando se acredita em destino, sua vida depois de conhecer idols e tudo que era calmo se torna...
