Capítulo 3 = " Chegada ao Orfanato "
Zachriel se sentia pequeno e invisível ao descer do carro na entrada do Orfanato Wool. Era um prédio imponente e antigo, com uma fachada cinzenta e pesada que parecia engolir tudo ao redor. Ele segurava seu ursinho com firmeza, o único pedaço de conforto que restava para ele. Suas mãos suavam, e ele evitava o olhar de todos, focando-se em observar detalhes pequenos e aparentemente sem importância: rachaduras nas paredes, manchas na calçada, qualquer coisa que o mantivesse distante da confusão ao redor.
Uma mulher alta e severa, vestida em um hábito escuro, veio até ele. Seu rosto estava rígido, mas ela se inclinou levemente para encará-lo, tentando parecer acolhedora.
- Bem-vindo ao Orfanato Wool, Zachriel, - disse ela com uma voz firme, mas gentil. - Meu nome é Madre Cecília, e estarei aqui para ajudar você a se sentir em casa.
Zachriel olhou para ela de relance, mas desviou os olhos rapidamente, fixando-os em uma mancha no chão próximo aos sapatos dela. Ele se manteve em silêncio, abraçando ainda mais forte seu ursinho e balançando suavemente o corpo de um lado para o outro. Madre Cecília respirou fundo, percebendo que a interação com o menino não avançaria muito.
- Tudo bem, querido. Vamos te mostrar seu quarto, está bem?
Ele apenas assentiu levemente, sem dizer nada a mulher. Sua mente estava em um turbilhão, com uma mistura de medo, insegurança e ansiedade, cada sentimento se sobrepondo ao outro. No caminho até o quarto, ele seguiu os passos da madre de cabeça baixa, absorvido em seu próprio mundo.
Ao entrar no quarto, ele olhou ao redor de maneira hesitante. Era um espaço pequeno, com uma cama simples, um armário e uma janela com grades. Ele passou a mão no cobertor, sentindo a textura áspera e diferente do que estava acostumado em casa. Observou o teto, as paredes, a sombra que o sol fazia ao atravessar a grade da janela.
- Se precisar de alguma coisa, é só chamar, certo? - a madre disse, com um sorriso ameno. Zachriel nem deu importância para ouvi-la, tão concentrado que estava no quarto, absorvendo o ambiente novo de forma intensa. Ao ver que ele não responderia, ela apenas saiu, fechando a porta devagar.
Ele se sentou na cama, colocando o ursinho ao seu lado, e começou a contar os quadrados de azulejo no chão. Um, dois, três... Isso lhe dava uma sensação de controle, um pequeno refúgio em meio ao caos.
{...}
Na manhã seguinte, Zachriel foi levado para a sala de aula. Ele entrou devagar, como snepre com o seu ursinho em seus pequenos bracinhos, segurando-o como se ele fosse um escudo protetor. As outras crianças o encararam com olhares curiosos, alguns com expressão de deboche, e outros, de pura indiferença. Ele desviou o olhar, tentando se concentrar nas paredes da sala, nas mesas, em qualquer coisa que não fossem as crianças.
Durante a aula, ele permaneceu quieto, focado em seu próprio mundo, ignorando as risadinhas e olhares tortos que os outros alunos o seguiam. Sua mão apertava o ursinho com força, e ele sussurrava palavras para si mesmo, como se estivesse tentando se lembrar de algo importante.
{...}
Quando o sinal tocou para o recreio, Zachriel foi para um canto do pátio, sentando-se na sombra de uma árvore. Ele segurava o ursinho em suas mãos, como se fossem seu porto seguro. Seu olhar estava perdido, observando o movimento das folhas, murmurando baixinho para si mesmo.
Até que um grupo de meninos se aproximou, com sorrisos debochados. Um deles, alto e com um olhar de desafio, apontou para o ursinho de Zachriel.
- O que é isso? Um bebê com um brinquedo? - zombou o garoto, arrancando risadas dos outros.
Zachriel apertou o ursinho contra o peito, tentando ignorar o grupo, mas seu corpo começou a tremer. A sensação de desconforto e medo misturava-se com uma raiva profunda, mas ele manteve-se quieto.
- Deixa eu ver isso! - o garoto avançou e tentou puxar o ursinho de suas mãos.
Zachriel gritou, com o rosto vermelho de pânico e raiva. __ Me devolve! Ele é meu!
As crianças ao redor riram ainda mais, mas o garoto segurava o ursinho com força, e em um movimento cruel, rasgou uma das costuras, fazendo o enchimento sair e cair ao chão do pátio do Orfanato. Zachriel ficou paralisado por um instante, observando a pelúcia do ursinho espalhada. Sua respiração ficou entrecortada dentro da sua garganta, e ele começou a soltar pequenos soluços, mas havia algo mais por trás das lágrimas - algo que se misturava à sua dor e confusão.
Ele ergueu a palma da mão na direção do garoto, com o rosto tomado por uma raiva silenciosa, quase primitiva. Os olhos dele pareciam distantes, concentrados em um ponto que ninguém mais conseguia ver. De repente, o garoto que segurava o ursinho começou a flutuar levemente, os olhos arregalados de medo.
- Ei, o que... o que está acontecendo? - o garoto exclamou apavorado e o medos estampado em seu rosto, enquanto se debatendo no ar.
As outras crianças começaram a gritar e se afastar, algumas murmurando palavras assustadas como aberração e monstro. Zachriel não compreendia o que estava acontecendo, apenas sabia que algo dentro dele estava diferente, algo que ele não conseguia controlar.
As freiras vieram correndo, os olhos arregalados ao ver o garoto flutuando. - Santo Deus! - uma delas exclamou, fazendo o sinal da cruz. Outra se aproximou de Zachriel, com uma expressão de espanto e puro terror e medo.
- Zachriel! - ela gritou, tentando alcançar o menino que ainda pairava no ar. - O que você está fazendo? Pare com isso, imediatamente!
Zachriel, assustado, olhou ao redor e finalmente abaixou a mão. O garoto caiu no chão com um baque, e todos ao redor o olharam com horror. Ele estava apavorado, sem entender o que tinha acabado de acontecer. Olhou para as crianças e para as freiras, que o encaravam como se ele fosse algo além de humano. Uma " Aberração ".
Zachriel se levantou lentamente, com o rosto banhado em lágrimas e o coração disparado. Ele não sabia o que era aquilo que acabara de fazer, mas o medo dos outros o atingia como uma onda fria, e ele só conseguia pensar em uma coisa: fugir.
Ele correu em direção ao orfanato, ignorando os gritos atrás dele, e trancou-se em seu quarto, ofegante. O ursinho estava rasgado em suas mãos, mas ele o apertava com toda a força que tinha. Ele se encolheu em um canto, sentindo o peso da solidão, do medo e da culpa.
As palavras dos outros ressoavam em sua mente: aberração, monstro. Ele começou a balançar o corpo levemente, os olhos fixos no ursinho rasgado, murmurando para si mesmo, tentando encontrar algum conforto no caos que se formava ao seu redor e dentro de si.
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" A Soul to Save"
Science FictionEsquecido por um mundo que o rejeitou, Zachriel conheceu a escuridão cedo demais. Filho de uma mãe Protistuta ausente e cruel, viveu seus primeiros anos em um bairro sombrio e degradado da Grã-Bretanha, onde inocência e segurança eram apenas sonhos...
