Capítulo 8 = " Sombras no Silêncio "
Zachriel estava deitado no colchão fino e gasto, os olhos fixos no teto escurecido do quarto do orfanato. Já faziam dois dias desde a visita daquele homem estranho e intrigante no seu quarto — Severus Snape. Para qualquer outra criança, a presença de um adulto desconhecido poderia ter passado despercebida, mas não para Zachriel, ele não era como os outros. Ele nunca tivera alguém como Severus perto de si; alguém que lhe dirigisse uma palavra meio grossa mais o memso tempo com um tom gentil, que o encarasse sem desprezo nos olhos, que ouvisse o que ele tinha a dizer sem julgá-lo.
Ele sentia um vazio estranho e inédito, uma ausência. Era um sentimento novo, algo que ele não entendia, mas que parecia apertar seu coração. "Por que ele não voltou?" pensou o menino, o peito pequeno e frágil em uma angústia infantil que apenas o silêncio do quarto conhecia.
Zachriel se encolheu na cama, segurando os joelhos junto ao peito, buscando conforto em um gesto solitário. Ele tinha apenas oitos anos, mas sentia o peso de uma solidão que não sabia nomear.
__ Ele parecia... gentil, murmurou baixinho, enquanto os dedos brincavam distraidamente com a barra do lençol. __ Não... ele não me chamou de esquisito...
Aos poucos, as lembranças de sua mãe, Katherine, vieram à tona, cobrindo seus pensamentos como uma sombra fria. A imagem dela, o rosto duro e os gritos, retornavam como ecos amargos.
“Você é um peso. Eu nunca quis você, Zachriel!”, ecoavam as palavras cruéis na memória dele. Ela o afastava, sempre irritada, sempre zangada. Os dedos dele apertaram o tecido do lençol, tremendo. Era assim que sua mãe o via — um incômodo, uma presença indesejável, alguém que não deveria estar ali.
Ele se esforçou para entender. "Por que ninguém gosta de mim? Será... será que sou mesmo esquisito?" Questionou dentro da sua pequenina consciência.
Um aperto começou a sufocar seu peito, uma angústia que ele ainda não sabia como expressar. As lágrimas escorriam em silêncio, molhando o travesseiro. __ Eu só... queria que ela gostasse de mim...
Foi quando algo dentro dele quebrou. O peso do ar parecia esmagar seus pulmões, e ele começou a respirar com mais dificuldade. Uma onda grande de pânico o tomou, e ele se encolheu, sentindo o corpo tremendo. Sem entender, ele caiu da cama, os joelhos dobrados contra o chão, o rosto pálido e a respiração ofegante.
__ N-não... — ele balbuciou, com a voz embargada. __ Eu... só queria que ela gostasse de mim...
O peito subia e descia rapidamente, enquanto o desespero o dominava. As mãos, pequenas e frágeis, agarraram o chão como se buscassem algo para se segurar, algo que o impedisse de afundar naquele pavor crescente.
__Sr. Snape... a voz de Zachriel saiu em um sussurro desesperado, quase inaudível. Ele nem sabia ao certo por que o chamava, mas algo na presença daquele homem o fazia sentir-se seguro, protegido. __ Sr. Snape... — repetiu com um fio de voz, enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto.
Ele então se encolheu, trazendo os braços para perto, mas nada parecia aliviar a dor que lhe oprimia por dentro. A crise aumentava, e o mundo ao seu redor se tornava turvo, como se fosse coberto por um véu escuro imenso, que estava ali para devorá-lo. Ele começou a sacudir a cabeça, lutando para se libertar do sufoco.
__ Me... me ajuda... por favor... Sr. Snape...
As forças o abandonaram, e seu corpo cedeu, caindo sobre o chão frio. A visão dele começou a se apagar, até que tudo foi engolido pela escuridão.
[...]
Severus Snape se encontrava no laboratório improvisado de sua casa, onde estava cercado de frascos e instrumentos precisos, para sua poções. Concentração era algo que snape sempre prezava; no entanto, por mais que tentasse focar em suas poções, sua mente insistia em retornar ao rosto do pequenino menino do orfanato, Zachriel. O garoto de olhos cinzentos, calmo, quase sem expressão, mas com uma profundidade que Severus não conseguia compreender ou ignorar. Fazia dois dias que visitara o orfanato Wool, e, desde então, a lembrança daquele encontro se recusava a deixá-lo em paz.
__ Ele é apenas uma criança, qualquer, murmurou para si mesmo, tentando racionalizar o apego inexplicável. No entanto, algo o desarmava cada vez que pensava em Zachriel. __ Apenas... uma criança, Severus... repetiu, embora a voz soasse vazia.
Ele se pegou sorrindo de leve ao recordar o jeito que Zachriel o encarava, mas de uma forma que parecia ver algo além. Era incomum, mas, naquele olhar, Severus percebia uma pureza que ele raramente via, uma inocência que sobrevivia apesar das adversidades que a vida cruelmente lançava sobre o pobre menino.
__ Garoto teimoso... sussurrou, enquanto se dirigia à sala de estar. Tirou um cigarro do bolso, acendeu-o com um estalo e levou-o aos lábios, tragando profundamente. À medida que a fumaça se dissipava ao seu redor, Severus sentia uma calma surgir — embora não durasse muito.
Um som distinto ecoou pela sala. Alguém estava batendo à porta.
Ele franziu o cenho, intrigado. Quem poderia ser àquela hora? Severus não era um homem que recebia visitas frequentes, e a possibilidade de alguém vir até ele por acaso era quase nula. Com um último trago no cigarro, apagou-o no cinzeiro, pegando sua varinha e mantendo-a pronta em suas costas, só por precaução. Então, abriu a porta.
A surpresa se estendeu em seu rosto ao ver, ali, a madre do orfanato Wool. Sua expressão era rígida e contida, mas havia uma urgência no olhar dela que imediatamente o deixou em alerta.
__ Madre...? — Severus a fitou, confuso. __ O que a senhora traz por aqui?
Ela respirou fundo, parecendo buscar as palavras certas, mas sua expressão não deixava dúvidas de que algo estava errado.
__ Sr. Snape... Eu... vim falar sobre Zachriel.
Ao ouvir o nome do garoto, Severus sentiu o coração apertar. Um calafrio subiu por sua espinha, mas ele manteve o semblante inabalável, que sempre as pessoas estavam acostumada a vê-lo. Embora as mãos estivessem tensas ao lado do corpo.
__ O que houve? — perguntou, tentando esconder a preocupação crescente em seu rosto.
A madre hesitou por um instante, parecendo lutar contra algum tipo de desconforto. Então, com a voz baixa e preocupada, ela revelou:
__ Zachriel ele tve... um acidente, uma crise. Ele está... chamando pelo senhor.
Por um segundo, o tempo pareceu parar. Severus absorveu a notícia, sentindo um frio súbito invadir o peito, uma pontada de desespero que ele não conseguia conter. “Chamando por mim?” repetiu mentalmente, incapaz de ignorar o aperto que aquilo causava dentro dele.
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" A Soul to Save"
Science FictionEsquecido por um mundo que o rejeitou, Zachriel conheceu a escuridão cedo demais. Filho de uma mãe Protistuta ausente e cruel, viveu seus primeiros anos em um bairro sombrio e degradado da Grã-Bretanha, onde inocência e segurança eram apenas sonhos...
