Capítulo 46 = " Sombras na Luz de Zachriel "
Cinco dias havia se passados desde que Zachriel fora levado para casa após sua internação no hospital. Não era exatamente a felicidade que ele esperava ao retornar para o lar que tanto sentira falta. Afinal, o que importava estar de volta, se ele sequer podia ver a própria casa? A casa que antes era seu refúgio agora parecia um espaço vazio e escuro, como sua própria visão.
Logo que chegou, Zachriel se trancou em seu quarto, recusando-se a sair para qualquer coisa. Severus, Narcisa e Draco tentaram conversar com ele inúmeras vezes, mas as respostas eram sempre as mesmas:
__ Por favor, me deixem sozinho. Não quero ver ninguém.
E foi exatamente o que eles fizeram, respeitando o pedido, mas sempre atentos a qualquer coisa que Zachriel precisa-se de ajudar, ou atenção.
Zachriel refugiou-se em sua cama, abraçando com força seu ursinho e seu morceguinho de pelúcia, os brinquedos que sempre o reconfortavam. Os cabelos castanhos claros, quase dourados, caíam de forma desalinhada sobre sua testa, enquanto ele permanecia imóvel, como se fundido à escuridão que agora preenchia sua existência.
A faixa das ataduras brancas cobriam seus olhos era uma lembrança constante de sua condição, mas também de um mundo que ele não podia mais tocar visualmente.
Tudo era silêncio para Zachriel, exceto pelos sons que, agora, pareciam mais altos e nítidos do que antes. O toque das pontas dos seus dedos no tecido do lençol, o rangido do assoalho quando alguém passava pelo corredor e, especialmente, o som de vozes distantes na sala abaixo.
Na noite anterior, ele escutou Severus, Narcisa e Draco conversando e rindo enquanto assistiam algo na televisão. Pelas melodias e tons de voz, ele reconheceu: era Pica-Pau, um desenho trouxa que ele gostava quando mais novo.
Porém, as risadas... as risadas o fizeram encolher-se ainda mais. Uma sensação de exclusão cortou fundo seu peito. Eles estavam felizes sem ele. Eles estavam rindo, como se ele não importasse mais.
"Eles não precisam de mim."
Foi o pensamento que se repetiu como um mantra em sua mente. Suas pequenas mãos apertaram os dois bichinhos de pelúcia contra o peito, e lágrimas silenciosas começaram a rolar pelas suas bochechas.
"Por que meu pai iria querer um filho cego? Ou mamãe Narcisa, um menino que não consegue ver nada? Draco é perfeito... eles já têm um filho bom o suficiente. Logo eles terão outros filhos e vão esquecer de mim."
As palavras de Katherine, do pesadelo que o assombrava, ecoaram em sua mente. "Você vai acabar sozinho. Ninguém vai te amar de verdade."
Zachriel chorou mais, sua respiração trêmula e irregular. Ele estava com medo, um medo que não sabia explicar. Um medo de ser deixado para trás.
Os passos firmes de Severus no corredor o tiraram de seus pensamentos. Pelo som, pelo peso das pisadas e pelo cheiro familiar de colônia, ele soube imediatamente que era seu pai. Quando a porta se abriu, Zachriel rapidamente limpou as lágrimas com as mãos, tentando se ajeitar, não queria demonstrar indícios dos momentos a minutos atrás.
Severus entrou com uma bandeja nas mãos, contendo o café da manhã de Zachriel. Sua voz era gentil, mas havia um toque de hesitação.
__ Vejo que você já está acordado. Ótimo. Narcisa e eu preparamos seu café da manhã, e Draco também ajudou. Ele disse que viria vê-lo em breve.
__ Não estou com fome, Zachriel respondeu em um tom baixo e infantil, abraçando-se ainda mais ao morceguinho de pelúcia.
__ Filho, você precisa comer alguma coisa. Isso não vai ajudá-lo a melhorar...
__ Melhorar de quê? - Zachriel ergueu a voz de repente, interrompendo Severus. __ Nem você, nem os médicos sabem o que eu tenho de verdade! Comer vai fazer eu enxergar de novo? Vai, pai?!
A fúria inesperada do menino deixou Severus em silêncio por um momento.
__ Zachriel, eu só quero ajudar...
__ Você não pode me ajudar! para de fingir que se importa comigo. Voce não e meu Pai!!! Para com esse teatro, esse fingimento, Sai daqui! Eu não quero você aqui! Não quero ninguém!
As palavras de Zachriel cortaram Severus como lâminas. O homem ficou estático, sua expressão uma mistura de dor e resignação. Ele deu um passo para trás, com a voz mais baixa e amarga do que queria.
__ Se é isso que você quer, eu vou deixá-lo sozinho, Zachriel.
Ao ouvir seu nome dito de forma tão fria, Zachriel sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Assim que Severus saiu e fechou a porta, o menino desabou em lágrimas novamente, soluçando enquanto abraçava os brinquedos contra o peito.
"Eu não pertenço mais a essa família."
Descendo as escadas, Severus tentou recompor-se, mas não conseguiu, estava sendo doloroso demais para ele. Assim que Narcisa o viu, percebeu a expressão de tristeza e dor em seu rosto.
__ Sev, o que aconteceu? É algo com Zachriel?
Severus demorou a responder, mas, quando o fez, sua voz estava entrecortada, como se cada palavra fosse um peso impossível de carregar.
__ Ele disse que eu não sou o pai dele. Ele... ele gritou comigo. Disse que não quer me ver.
Narcisa não hesitou e envolveu Severus em um abraço apertado. O homem, sempre tão reservado, deixou que as lágrimas caíssem livremente.
__ Eu não sei o que fazer, Cissy. Eu quero ajudá-lo, mas ele não me deixa.
__ Você vai conseguir. Ele está magoado, Sev, mas você é o pai dele. Ele é o seu menino, sempre será o seu menino.
As palavras de Narcisa acalmaram Severus por um momento. Ele segurou o rosto dela com as mãos e deixou um beijo em sua testa, enquanto Draco, observando tudo de longe, se aproximou.
__ Vai ficar tudo bem, papai Severus. O Zach só está com raiva. Ele te ama muito, e eu também. Você é o melhor pai que poderíamos ter. Posso tentar falar com ele?
O tom infantil, mas resoluto, de Draco trouxe um leve sorriso ao rosto de Severus. Ele abraçou o afilhado com força, sentindo-se um pouco mais reconfortado.
__ Obrigado, Dragon. Você é um menino incrível.
Draco assentiu e subiu as escadas, determinado a conversar com o seu irmão Zachriel. Fazia tempos que os dois não conversavam, talvez um papo de irmãos a cara cara seria oque bastava. Porém, quando chegou ao quarto, parou subitamente na entrada, os olhos arregalados em choque.
__ Mamãe! Papai! Venham aqui!
Narcisa e Severus correram até o quarto, alarmados pela voz assutada e desperada de Draco. Ao entrar, sentiram o coração parar por um instante
Zachriel não estava mais ali....
O quarto estava vazio....
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" A Soul to Save"
Science FictionEsquecido por um mundo que o rejeitou, Zachriel conheceu a escuridão cedo demais. Filho de uma mãe Protistuta ausente e cruel, viveu seus primeiros anos em um bairro sombrio e degradado da Grã-Bretanha, onde inocência e segurança eram apenas sonhos...
