Capítulo 2 = " Silêncio que Grita "
A manhã estava estranhamente silenciosa. Zachriel ficou ali, parado, olhando para a cena sem entender. Ele tinha visto muitas vezes Katherine dormindo no chão, depois de uma noite barulhenta, afinal a maioria das vezes ela estava tão drogada e com o álcool em suas veias, que dormia no chão por não conseguir ir ate a cama. Mas… desta vez parecia diferente. O sangue, denso e escuro, se espalhava pela madeira do assoalho, como se fosse parte dela.
Zachriel continuava sem se mexer. Ele inclinou levemente a cabeça, os olhos curiosos e fixos no rosto imóvel de Katherine. Seu pequeno cérebro lutava para compreender. Ela estava deitada… mas por que parecia tão vazia? Ela costumava resmungar, respirar alto, até xingar quando estava brava com ele, por algo que as vezes ele nem fazia. Mas Katherine parecia ter vontade de sempre gritar com ele. Mas agora… nada. Um silêncio que ele não conseguia entender.
Lentamente, ele apertou o seu ursinho, pressionando o focinho do brinquedo contra o rosto, buscando aquele toque familiar e reconfortante.
__ Mamãe? – murmurou Zachriel, sua voz um sussurro quase inaudível. Ele esperava algum tipo de resposta, mas o silêncio parecia se esticar ao redor dele, pesado e amargo.
Em passos hesitantes, Zachriel caminhou para fora do quarto, com o ursinho ainda apertado em seus pequenos bracinhos. Ele não sabia exatamente o que fazer, mas algo dentro dele dizia que precisava pedir ajuda. Ele se lembrava de que, uma vez, ouvira sua mãe falando sobre uma senhora na loja ao lado. Talvez ela pudesse entendê-lo.
Com o olhar baixo e ainda abraçado ao urso, ele saiu pela porta e seguiu até a loja da esquina, sentindo o chão frio sob os pés descalços.
Quando entrou, a senhora atrás do balcão olhou para ele, preocupada. Era raro ver o menino sozinho, afinal Zachriel nunca saia para nada, poucas vezes era so visto com Katherine.
– Posso te ajudar, querido? – perguntou a mulher, gentil.
Zachriel levantou os olhos e apenas disse, com uma simplicidade dolorosa: __ Minha mãe… ela está morta.
A mulher ficou paralisada, o rosto refletindo um misto de surpresa e horror. Ela correu até o telefone sem dizer nada e ligou para a emergência, enquanto Zachriel permanecia ali, imóvel, olhando para as prateleiras da loja. Ele observava as embalagens coloridas de balas, alinhadas de forma quase simétrica, e sentiu uma estranha vontade de organizá-las, de endireitar as que estavam fora do lugar. Essa era sua maneira de lidar com o desconforto – uma tentativa de encontrar ordem em um mundo que não fazia nenhum sentido para ele no momento.
{...}
Alguns Minutos depois, zachriel estava na ambulância. O som das sirenes ecoava, mas para Zachriel, era apenas um barulho distante, quase como se não o atingisse. Ele olhava fixamente para as mãos, onde apertava o ursinho, a pelúcia desgastada e conhecida.
Um dos paramédicos tentou puxar conversa:
– Como você se chama, garotão?
Ele não respondeu de imediato. Seus olhos continuavam focados em seu urso, as mãos apertando o brinquedo com força, enquanto ele repetia na mente, em um mantra silencioso, que o urso estava ali, que ele podia senti-lo, que aquele era seu mundo seguro.
Depois de um longo silêncio, Zachriel murmurou, mais para si mesmo do que para o paramédico : __ Meu nome e Zachriel.
– É um nome bonito, – disse o paramédico, tentando ser amigável. – Vamos cuidar de você, tudo bem?
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" A Soul to Save"
Fiksi IlmiahEsquecido por um mundo que o rejeitou, Zachriel conheceu a escuridão cedo demais. Filho de uma mãe Protistuta ausente e cruel, viveu seus primeiros anos em um bairro sombrio e degradado da Grã-Bretanha, onde inocência e segurança eram apenas sonhos...
