☆ Capítulo < VII >

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Capítulo 7: Reflexos de um Passado e Silêncios Partilhados





Severus mantinha-se parado, a sombra esguia de seu corpo ocupando boa parte do espaço estreito. Observava o menino à sua frente — tão pequeno e, ao mesmo tempo, ele se.tia algo tão forte e familiar. Algo dentro dele reagiu ao encarar aquele olhar cinzentos escuros e vazios. Talvez fosse a solidão de Zachriel, que parecia refletir algo perdido e enterrado em si mesmo.

Zachriel, ao contrário, fixava o olhar em Severus apenas por alguns instantes, hesitante, como se medir as intenções de um adulto fosse um esforço árduo. Era um olhar desconfiado e contido, de quem já estava acostumado a ser incompreendido, a ser visto de longe. Severus sabia que o autismo poderia fazer o mundo parecer um quebra-cabeça desordenado para o garoto, onde o silêncio era mais seguro do que qualquer palavra.

Severus deu um suspiro contido e se sentou diante dele, tentando encontrar uma forma de quebrar o silêncio cauteloso que pairava entre os dois. Zachriel continuava cabisbaixo, as mãos inquietas, os olhos correndo de um ponto a outro da sala, evitando fixar-se muito tempo no rosto do homem que acabara de conhecer.

__ Sabe por que estou aqui? — arriscou Severus, tentando usar um tom que soasse próximo, mesmo que suas palavras carregassem a austeridade de seu temperamento.

Zachriel murmurou algo, tão baixo que parecia apenas um sussurro. Severus franziu a testa, inclinando-se um pouco mais, até que as palavras saíram um pouco mais claras.

__  Porque sou... uma aberração — disse Zachriel com uma voz fraca e sem cor, como se já tivesse se acostumado com aquele título. Não havia raiva, apenas uma aceitação triste e profunda.

Aquela palavra reverberou em Severus. Seu rosto endureceu por um instante, enquanto uma onda de emoções sombrias se agitou dentro de si. Ele quase não suportava ouvir aquilo, mas reprimiu a fúria e respondeu com firmeza:

__  Você não é uma aberração, garoto— Ele falou devagar, dando um peso quase palpável a cada palavra. __  Quem lhe disse isso?

Zachriel hesitou, os olhos fugindo novamente. Ele olhou para as mãos, os dedos arranhando um ao outro com ansiedade.

__ As outras crianças do orfanato E... — ele parou, como se as palavras tivessem um peso doloroso demais  __ ...as freiras, elas também costumam falar.

Severus apertou seus dedos contra  a madeira fria de sua varinha, sentindo a raiva e o desprezo crescerem. Aquela era uma ira antiga, muito mais profunda que ele próprio. Uma parte sua queria explodir contra o sistema que permitia que alguém tão jovem fosse tratado com tal crueldade.

O menino ergueu o olhar com cautela, e depois de um momento de silêncio, arriscou uma pergunta.

__  Você é... um doutor? — perguntou Zachriel, a voz saindo hesitante e distante, quase como se estivesse falando consigo mesmo.

Severus franziu as sobrancelhas, curioso com a pergunta.

— Por que pensa isso?

Zachriel olhou para o chão antes de responder, a voz trêmula de quem relembra algo doloroso e distante.

__ Alguns... médicos já vieram. Tentaram me fazer... normal. — Ele disse a última palavra com um certo peso, como se fosse uma condenação. __ Depois, vieram dois padres. Tentaram mim exorcizar, rezando... eles disseram que era numa tentativa de tirar o mal de mim.

Severus fechou os olhos por um breve instante, sentindo um aperto em seu peito, e abriu-os lentamente, a raiva contida em um olhar intenso.

__ Não sou um doutor — respondeu, a voz carregada de uma firmeza fria, __ E muito menos um padre.

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