Passamos o Natal com os pais do Caleb. No outro dia, fui visitar meu pai na prisão. Assim que o vi, notei um sorriso enorme iluminando seu rosto.
— O que foi? — questionei, curiosa.
— Reabriram o meu caso e talvez eu consiga reduzir minha pena — respondeu, com um brilho nos olhos.
— Uau, sério?
— Sério, filha.
— Isso é ótimo, mas como?
— Eu não sei, recebi a visita de um advogado alguns dias atrás e ele falou que está trabalhando para me tirar daqui o mais breve possível.
Depois, ficamos conversando sobre o assunto enquanto jogávamos dama numa mesa desgastada, e ele me fez várias perguntas sobre a minha vida. Disse que estava assistindo os jogos do Caleb na tv e que sempre que me mostravam ele não conseguia se conter de felicidade.
— você sempre parece muito feliz
— eu estou muito feliz, mas as coisas tem sido difíceis
— o que está acontecendo?
— o Caleb... ele está machucado e não quer parar de jogar
— machucado?
— por favor não conte para ninguém, mas eu não aguento mais conviver com isso, vendo ele com dores todos os dias. O time está passando por alguns momentos tensos, ele tem se cobrado demais. Ele sempre me diz que a temporada já está acabando mas após cada treino ele chega pior, eu o escuto chorando no chuveiro e não consigo fazer nada
— você não pode força-lo a fazer nada que ele não queira, mas pode dar conforto
— eu estou tentando
— O Caleb é um jogador profissional, você já viu a quantidade de faz que ele tem em um estádio, agora imagine no país. Muitas pessoas são fanáticas por futebol. Ele movimenta a economia com propagandas. O garoto deve estar apavorado
Meu pai não sabia sobre as ameaças, eu não quis dizer nada mas ainda assim eu entendia como o Caleb se sentia. Ele estava com medo e não estava sabendo lidar com isso
Quando voltei pra casa, já era tarde, e assim que entrei, ouvi um barulho vindo da cobertura, como se algo estivesse sendo caindo com força.
Subi as escadas, os degraus e encontrei o Caleb. Ele estava lançando bolas em uma rede, com a testa franzida e o olhar fixo em algum ponto distante. A concentração era tanta que ele nem me viu. Fiquei parada, observando-o: a cada arremesso, sua mão ia automaticamente tocar o ombro machucado, e uma careta de dor se formava em seu rosto.
— Caleb — chamei, a voz misturando preocupação e impaciência — o que está fazendo?
— Treinando arremessos — respondeu, sem desviar o olhar do alvo.
— Mas... — comecei, tentando entender o motivo.
— Os jogos voltam na próxima semana. Eu não fiz nada nesses dias — interrompeu, com a voz curta e ríspida.
Durante o período entre o Natal e o Ano Novo, fiz questão de mantê-lo longe dos campos. Eu o obriguei a ficar completamente de molho – ele nem ousava pegar em uma bola de futebol
— Mas... — eu insistia.
— É meu trabalho, Nina — retrucou, sem paciência, como se minhas palavras fossem um peso a mais.
— Eu sei que é seu trabalho.
— Então para de me amolar!
— Você está se passando de idiota, Caleb. O médico disse que vai piorar. Quantas vezes vou ter que repetir isso? — minha voz saiu carregada de frustração.
— Eu já entendi muito bem quando ele falou. Você não precisa repetir toda vez que chega perto de mim — resmungou, enquanto lançava outra bola com mais força, tentando abafar a dor.
— Você está sendo estúpido, eu só quero o seu bem.
— Eu vou ficar bem após ganhar esse campeonato.
— Não é sua culpa se aquele homem ameaçou seus colegas. Você tem que parar de querer salvar o mundo. Tem que parar de carregar toda essa responsabilidade.
— Ele ameaçou você, e é isso que me preocupa. É tudo uma bola de neve: se eles jogam mal, você está em perigo.
— Nada vai acontecer comigo.
— Claro que não vai — afirmou, lançando mais uma bola, agora visivelmente irritado —, por favor, me deixe quieto aqui.
Ele pegou os fones de ouvido que estavam junto com o celular no chão e voltou a me ignorar completamente.
A semana inteira foi assim. No sábado ele tinha jogo à noite e passou o dia deitado, com um saco de gelo firmemente encostado no ombro, sem dizer uma palavra. Aquela situação me deixava extremamente incomodada; eu odiava vê-lo se cobrando tanto, se castigando sem se importar com as consequências.
— Você está pronta? — perguntou, me vendo sentada no sofá, a voz carregada de uma preocupação que não escondia.
— Eu não vou.
— Você não vai?
— Não quero ver você se destruir um pouco mais.
— Eu estou bem.
— Você não está bem.
— Nina...
— Eu não vou, Caleb.
— Por favor, é importante para mim.
Acabei indo, temerosa de que a briga interna dele se aprofundasse ainda mais. Naquela noite, o jogo aconteceu de forma surpreendente, eles venceram com facilidade, e, ao entrarmos no carro para ir embora, vi o primeiro sorriso sincero dele em dias.
— Está com fome? — perguntou, pegando minha mão gelada e levando-a aos lábios para esquentar
— Estou.
— O que quer comer?
— Estou com muito frio; gostaria de ir para casa.
— Tudo bem.
Lá fora, os primeiros flocos de neve começavam a cair. Assim que chegamos, comecei a tirar as camadas de casaco.
— O que quer comer? — perguntei, enquanto começávamos a nos acomodar.
— Eu vou fazer miojo para nós.
— Miojo?
— E vou pegar uma garrafa de vinho. Depois, podemos ficar juntinhos embaixo das cobertas na sala.
— Parece perfeito.
— Tá bom.
Ele saiu sorrindo, e eu fui me trocar. Coloquei uma calça de moletom velha e a blusa de mangas longas do Caleb, que mais parecia um vestido.
Ele me esperava com um prato bem quentinho de miojo de galinha e uma taça de vinho. Sentamos juntos, assistindo a um programa sobre alienígenas, enquanto comentávamos teorias bizarras.
— Eu não via você assim há alguns dias — falei, passando a mão nos fios dourados e macios que caíam sobre seu rosto.
— Estamos na primeira fase dos playoffs, está tudo dando certo — respondeu, com um sorriso
A mão dele deslizou por minha cintura, por baixo da camiseta, e começou a fazer carinho com as pontas dos dedos nas minha pele.
— Você não me disse como foi a visita ao seu pai.
— Ele disse que reabriram o caso e, talvez, consiga reduzir a pena.
— Isso é ótimo, não é?
— É perfeito, mas eu não sei o motivo.
— Não fique procurando motivos, só confie que vai dar certo.
Senti minhas pernas se entrelaçarem nas dele enquanto o abraçava na cintura. Ficamos assim, em um silêncio confortável, até que o cansaço me venceu e eu adormeci.
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Contato de emergência
RomanceNina tem apenas um contato em seu celular, salvo como "Emergência", embora não saiba a quem pertence. Após sofrer um acidente e acordar no hospital, ela finalmente conhece o misterioso dono do número. O que ela não esperava era que isso traria uma s...
