Caleb

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Eu não queria conversar com absolutamente ninguém. Após uma semana, não tinha saído do quarto nem uma vez. As janelas fechadas, o celular desligado, e eu ignorava todos que tentavam falar comigo. O mundo podia estar pegando fogo lá fora — eu não me importava.

Estava vazio por dentro.

A porta rangeu e ouvi passos leves no quarto.

— E aí.

Olhei na direção da voz. Vitor estava parado ali, encostado na porta, com o olhar cansado. Não respondi. Apenas voltei a encarar o teto, de onde eu já tinha passado horas imaginando mil formas de trazê-la de volta.

— Como você está?

Soltei um riso sem humor.

— Como você acha?

Ele puxou a cadeira da escrivaninha e sentou perto da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, como quem não queria sair dali tão cedo.

— Já temos todas as provas contra o Walton.

Virei o rosto pra ele, mas continuei com a expressão vazia.

— Isso não importa mais.

Ele franziu a testa e me encarou.

— Não é só sobre você, Caleb. Para de ser um idiota egoísta.

Aquelas palavras me atingiram como um tapa. Mas ele estava certo. E eu sabia.

— Você tem razão... — murmurei, sentindo o peso da culpa se somar ao que eu já carregava. — Me desculpa.

Durante o último mês, nós juntamos tudo. Gravações de ameaças, imagens de encontros suspeitos, registros bancários com pagamentos obscuros. Fotos dele pressionando jogadores, pressionando técnicos.

— Conversei com um cara da imprensa e ele está pronto pra soltar tudo — Vitor disse, me observando com cautela. — Só falta você concordar.

Demorei meio segundo pra responder, mas a certeza já estava em mim.

— Claro. Já passou da hora de expor esse demônio.

Ele assentiu devagar, como se já esperasse essa resposta. Ficou em silêncio por alguns segundos, e eu também. Era o tipo de silêncio que não incomodava. Era o silêncio de dois caras que tinham apanhado da vida e sabiam que estavam no mesmo ringue.

— Como está a sua irmã? — perguntei, quebrando o silêncio.

— Está bem... saiu do coma há dois dias.

— Isso é ótimo — falei, me sentando melhor na cama.

— Sim... — ele respirou fundo. — Mas ela não quer me ver.

Aquilo doeu nele mais do que ele deixou transparecer.

— Dá alguns dias — falei com calma. — Ela passou por muita coisa. Mas vai querer te ver

— Tenho uma coisa pra você — Vitor disse, mexendo no celular, sem levantar o olhar.

— O quê? — perguntei, já sentindo a tensão subir pelas costas.

— Um dos detetives que você me pediu pra contratar conseguiu uma filmagem da Nina... — ele respirou fundo — entrando na penitenciária estadual, dois dias após o jogo.

— O quê? — minha voz saiu num sussurro incrédulo antes de virar um estouro. — E você só me conta isso agora??

Levantei da cama tão rápido que uma náusea forte me atingiu. A cabeça girou, o quarto pareceu balançar, mas eu me forcei a continuar de pé.

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