Nina tem apenas um contato em seu celular, salvo como "Emergência", embora não saiba a quem pertence. Após sofrer um acidente e acordar no hospital, ela finalmente conhece o misterioso dono do número. O que ela não esperava era que isso traria uma s...
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Os dias que se seguiram foram um inferno. A dor parecia uma brasa viva queimando minha pele, cada movimento era um tormento. Sem dinheiro para comprar a medicação, eu apenas me encolhia, tentando encontrar algum conforto no colchão gasto do meu trailer. Como se a dor física não bastasse, uma febre insistente me consumia, fazendo minha pele suar e depois arrepiar em ciclos incessantes. O som da chuva lá fora era constante, uma batida ritmada contra as superfícies, mas nada comparado ao gotejar no interior do trailer. A água escorria pelas frestas do teto furado, formando pequenas poças nos cantos e atraindo ratos famintos, que entravam e saíam pelas brechas nas paredes finas de metal enferrujado.
Às vezes, eu fechava os olhos com força, tentando ignorar tudo – a dor, o frio, a miséria ao meu redor. Respirava fundo, segurando o choro, como se isso fosse me impedir de desabar.
Uma vizinha, talvez com pena da minha situação, bateu à porta e me ofereceu um pouco de sopa. Sopa quente, um milagre. Naquela altura, eu só tinha pão velho, duro como pedra, e um resto de leite azedo. A bondade dela foi o único alívio que tive naquele dia. Mas a comida, por mais reconfortante que fosse, não resolvia meus problemas maiores. Sem poder trabalhar, a cada segundo as coisas ficavam piores. Era como se o mundo estivesse desmoronando aos meus pés, e eu não tinha como segurá-lo.
Peguei o celular trincado e passei pelos restos das mensagens da última semana. Caleb. Sua foto agora brilhava ao lado do nome no WhatsApp, e ele continuava insistente, mandando mensagens todos os dias, perguntando se eu tinha pensado no contrato. Eu o ignorava, como sempre. Ele disse que sua família estava perguntando por mim, queria saber como eu estava. Parte de mim sabia que deveria agarrar aquela oportunidade com as duas mãos, mas algo mais forte me puxava para trás. Eu não queria ser alguém assim. Cresci vendo meu pai viver de pequenos golpes, roubando quem fosse possível. Não queria repetir seus erros.
Deitei-me na cama, minha mão pousando sobre o ventre. Olhei ao redor, observando o trailer. Era pequeno, apertado. O espaço onde a cama estava ocupava boa parte do lugar. A cozinha, se é que podia chamar aquilo de cozinha, era composta por um fogão enferrujado e uma geladeira velha, que fazia mais barulho do que funcionava. O banheiro era ainda pior: apenas uma privada de louça manchada e um espelho embaçado acima dela. O chuveiro, há muito, havia parado de esquentar a água, mas não fazia diferença, já que a eletricidade era algo que eu não via há meses.
Olhei para o par de sapatilhas penduradas ao lado da porta e senti um aperto no coração. Um sonho distante. Havia dois anos que eu não as calçava, e provavelmente nunca mais calçaria. Por muito tempo, corri atrás do sonho de ser bailarina, como minha mãe fora um dia. Mas sonhos não enchem a barriga, e eu precisava de trabalho para comer. Passei fome demais para me permitir viver de ilusão. Embora tivesse sido aceita em algumas escolas de dança, não consegui pagar por nenhuma.
Uma batida inesperada na porta me fez sair dos devaneios. Com muito esforço, levantei-me e fui até lá. A chuva continuava martelando o teto, e um homem apareceu à porta, encolhido sob uma capa de chuva amarela. Ele segurava um bloquinho de notas e uma caneta.