Caleb

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Comprei as passagens mais rápidas que consegui. Não importava o preço, o horário, nem o conforto — só queria sair dali com ela, o mais rápido possível. Quando chegamos ao aeroporto, ele estava mais cheio do que eu esperava.

Coloquei o capuz na cabeça, abaixei o rosto e tentei não fazer contato visual com ninguém. A última coisa que eu precisava era ser reconhecido.

O voo foi tão desconfortável quanto previsível. Como pegamos as últimas passagens, nossos assentos ficavam no fundo do avião. O tipo de lugar onde o encosto quase não inclina, o cheiro do banheiro fica mais forte com o tempo e o corredor é estreito demais para passar despercebido.

Tive que caminhar por ele inteiro e mesmo com o rosto tampado pelo capuz eu senti os olhares. Alguns passageiros cochicharam. Outros ergueram o celular, fingindo digitar, mas claramente tentando filmar ou tirar uma foto.

Sentei ao lado da Nina e percebi que ela estava tensa. Fingindo estar bem, mas com o maxilar travado e os olhos fixos na janela como se quisesse fugir dali. Quando o avião decolou, ela se encolheu, puxou o capuz e adormeceu com a cabeça apoiada no meu ombro bom.

No meio da noite, precisei levantar. O ombro latejava e eu precisava me mexer. Caminhei até o fundo do avião, esperando minha vez na fila do banheiro, quando ouvi:

— caralho, eu te falei que era ele!

Me virei devagar, já sabendo o que vinha. Dois garotos estavam parados no corredor, se empurrando de empolgação como se estivessem prestes a encontrar um super-herói — ou um personagem de videogame ao vivo.

— Você pode nos dar um autógrafo? — perguntou o mais baixo, já levantando o moletom e mostrando uma camisa do time por baixo, como se aquilo fosse a prova definitiva da devoção.

— E uma foto — o outro completou, com o celular já destravado na mão, tremendo de leve.

— Tá — sorri, cansado, mas sincero — mas sem flash. Tô no modo zumbi hoje.

Eles riram, tentando controlar a empolgação enquanto um deles tirava várias selfies com um cuidado absurdo pra não cortar minha cabeça ou a tipoia.

O outro esticou a camisa do time com um orgulho que quase me fez rir.

— Cara, você é meu quarterback no Fantasy. Mesmo lesionado, eu não troquei.

— Isso é lealdade ou burrice? — brinquei, assinando com a mão boa.

— Um pouco dos dois — ele deu de ombros.

Eles riram, tentando controlar a empolgação

— Cara, teus passes... são de outro planeta.

— Sério! — o outro emendou. — Quando você lançou aquela bola de 45 jardas no jogo contra Atlanta... meu pai gritou tão alto que acordou o vizinho.

— A gente revê aquele vídeo toda semana — disse o primeiro. — Parece mentira. Tipo, a câmera nem acompanha direito, a bola já tá lá.

Eu ri, surpreso com a memória deles.

— Às vezes nem eu sei como acertei aquilo — confessei.

Por alguns segundos, eu só encarei os dois. Tão sinceros, tão cheios de brilho nos olhos por algo que, ultimamente, eu quase tinha esquecido de valorizar.

— a gente espera que você se recupere até o começo da temporada

Eles voltaram pros seus assentos, ainda se cutucando como se tivessem acabado de conhecer um super-herói. Fiquei ali, sozinho, até o banheiro vagar. E quando voltei pro assento, a Nina ainda dormia.

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